Crédito: BBC Brasil
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#SalaSocial: 'Beijaço' contra homofobia fecha principal avenida de São Paulo

Image caption Protesto contra declarações homofóbicas de candidato reuniu 400 pessoas, segundo PM

"Vai para a (avenida) Paulista e anda por lá um pouquinho. É feio o negócio", disse no último domingo o presidenciável Levy Fidelix (PRTB), em referência ao eleitorado LGBT.

Dito e feito: na tarde desta terça-feira, um grupo estimado pela polícia em 400 lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e simpatizantes decidiu "andar um pouquinho" pela avenida mais importante da cidade.

Mas não foram só andar. Os manifestantes promoveram um "beijaço" em "nome da igualdade de gêneros" e chegaram a fechar uma das pistas no início da noite. O ato foi marcado pelo Facebook como resposta ao discurso de Fidelix, que comparou homossexuais a pedófilos e sugeriu que fossem atendidos por psicólogos - "mas bem longe da gente".

Com gritos como "Que contradição, aborto é crime, homofobia não" e "Eu beijo homem, beijo mulher, tenho direito de beijar quem eu quiser", os presentes pediam o cancelamento da candidatura de Fidelix, a criminalização da homofobia, o casamento igualitário e a luta por direitos e visibilidade das travestis e transexuais.

Pela rede social, o evento teve 8.200 confirmações em menos de 48 horas. Outros dois beijaços já estão marcados - um na sede do PRTB, na quinta-feira, e outro em frente à casa do candidato, no próximo sábado.

'Nossos filhos'

A reportagem procurou Fidelix durante todo o dia para comentar a iniciativa. Tanto os telefones do gabinete de São Paulo quanto os celulares do candidato e de seu filho ("Levyzinho", assessor de imprensa da campanha) estavam desligados.

No escritório de Brasília, o telefonista afirmou que todos os telefones estão mudos desde o debate e que não poderia ajudar. "Tudo acontece em São Paulo. Aqui em Brasilia só tem escritório porque a lei obriga", disse.

Durante o penúltimo debate antes do primeiro turno, uma das afirmações mais comentadas de Fidelix convidava familiares a "enfrentarem" os gays. "Vamos enfrentá-los, não ter medo e dizer que somos pais, mamães, vovôs", disse.

A escritora Maria Julia Giorgi, de 48 anos, estava ali para responder. "Vim para dizer que temos muito orgulho dos nossos filhos, que os nossos filhos são incríveis, são seres humanos maravilhosos e que vamos lutar contra a homotransfobia do lado deles."

Giorgi faz parte do Movimento Nacional Mães pela Igualdade, que reúne mães de homossexuais e transgêneros em todo o país, e marchou pela avenida sem o filho - que "estava trabalhando".

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"Violência'

Ao lado do marido Márcio, com quem se casou legalmente no ano passado, Rogério Ramos, de 58 anos, explicou por quê defende o cancelamento da candidatura de Fidelix.

"Ele não pode incitar publicamente, num debate, a violência explícita contra os gays. Isso não faz parte do discurso de quem quer chegar à presidência. É importante que se casse a candidatura e esse ato serve como pressão."

Sob o vão do MASP, principal cartão postal da cidade, o estudante de ciências sociais Ludi de Souza Pinto, de 20 anos, disse ter saído de casa sozinho por um "dever eleitoral".

"A gente tem que se manifestar. Tudo com ordem e respeito. Foi algo que foge à cidadania e à civilidade. Porque pessoas civilizadas sabem respeitar o outro", afirmou.

No extremo oposto da Paulista, próximo à avenida da Consolação, Eline Govine, de 35 anos, disse enxergar um lado bom nas declarações do candidato.

"Isso é uma questão de direitos humanos. Com todos esses casos de morte e tortura contra gays no Brasil, achei até bom que uma declaração viesse assim tão perto das eleições. Tem dois Brasis disputando território político, um muito conservador e poderoso, outro mais libertário. É importante marcarmos nossas posições"

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Vaticano

"Vou acabar com essa historinha. Eu vi agora o Papa expurgar do Vaticano um pedófilo. Está certo. Nós tratamos a vida toda da religiosidade para que nossos filhos possam encontrar um bom caminho familiar. Eu, presidente da República, não vou estimular (a homossexualidade). Se está na lei, que fique como está. Mas estimular a união homoafetiva, jamais", disse Fidelix durante o debate, em resposta à candidata do PSOL Luciana Genro.

Genro havia perguntado por que há pessoas que defendem a família, mas se negam a reconhecer casal formados por homens ou mulheres também como famílias.

"Comparar homossexualidade com pedofilia doeu, cara, me ofendeu. Tive que explicar para a minha mãe que não tem nada a ver, que eu nunca transaria com menores de idade, que ser lésbica não é isso", disse ao #salasocial a estudante Ana Clara, de 18 anos.

Também estudante, Daniel Monteiro, de 19 anos, afirmou "que sexualidade não se escolhe".

"É um absurdo querer ditar o que é normal e o que não é normal numa sociedade em que todos são tão diferentes. Não se pode dizer o que pode ou não ser feito numa área tão pessoal, que é a sentimental. Homossexual não é promíscuo. Promiscuidade tem a ver com caráter, não com pessoas que querem amar umas às outras."

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