Por que Cristina Kirchner desistiu de se candidatar à presidência e decidiu ser vice

Ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner Direito de imagem EITAN ABRAMOVICH/AFP/Getty
Image caption Ex-presidente da Argentina surpreendeu o mundo político e anunciou neste sábado que concorrerá como vice

Pelo menos três motivos teriam levado a senadora Cristina Kirchner a anunciar que teria desistido de concorrer à presidência da Argentina e que se candidataria a vice.

Problemas com a Justiça, questões políticas e familiares, segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil, estariam por trás da decisão, que provocou forte surpresa no âmbito político.

Em um vídeo compartilhado neste sábado em suas redes sociais, Cristina afirma que será candidata a vice na chapa liderada pelo ex-chefe de Gabinete do ex-presidente Nestor Kirchner, Alberto Fernández. "Nós, líderes, devemos deixar a vaidade de lado, e eu estou disposta a ajudar a partir de um lugar onde possa ser mais útil", disse na mensagem de pouco mais de dez minutos, na qual faz duras críticas à situação econômica do governo de Mauricio Macri.

A Argentina está em recessão e enfrenta altos índices de inflação, com forte efeito sobre os indicadores de pobreza. Apoiadores do governo Macri, que assumiu em dezembro de 2015, costumam atribuir a situação atual à herança deixada pela antecessora. Esta, por sua vez, responsabiliza a má administração do sucessor pela piora nos indicadores.

A decisão de Cristina foi o tema mais comentado no Twitter na Argentina neste sábado. "Já temos chapa presidencial!!! Alberto Fernández presidente e Cristina vice. Com esta chapa vamos derrotar o Cambiemos (base governista 'Mudemos')", escreveu na rede social o ex-chanceler do kirchnerismo, Jorge Taiana.

Em um discurso neste sábado, o presidente Macri, que é candidato à reeleição, disse, por sua vez, que os argentinos "não podem voltar ao passado, porque seria autodestrutivo".

Alberto Fernández é visto como articulador político e pouco carismático, ao contrário da ex-presidente, que vinha sendo apontada como principal adversária de Macri na eleição presidencial de outubro deste ano. No vídeo, Cristina conta que conhece Fernández há vinte anos e diz que já tiveram diferenças, mas que entende ser este o melhor caminho para disputar a eleição argentina.

Mas quais foram os motivos que levaram a ex-presidente a ser candidata a vice e não à presidência, como se esperava?

Problemas com a Justiça

O anúncio da ex-presidente, que governou a Argentina entre 2007 e 2015 e foi antecessora de Macri, foi feito a três dias do início do julgamento de um dos processos a que responde e pelo qual se espera que compareça, pela primeira vez, no próximo dia 21 de maio, ao banco dos réus, ao lado de ex-assessores.

O caso envolvendo obras públicas gerou, na semana passada, uma disputa no Judiciário, que acabou provocando panelaços em bairros de Buenos Aires.

A Suprema Corte de Justiça determinou que a ação, que estava em uma instância inferior, lhe fosse enviada e o julgamento, adiado, sem data marcada. A iniciativa provocou reação e a pressão social, segundo analistas, acabou levando o retorno do caso para o tribunal onde estava. O início do julgamento foi confirmado, então, para esta terça.

"Este é um dos julgamentos. Outros ainda devem surgir, porque ela responde a outros processos", disse o professor de ciências políticas Marcos Novaro, da Universidade de Buenos Aires (UBA), em entrevista à BBC News Brasil.

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Image caption Enquanto Macri tenta viabilizar sua reeleição, vê crescer a oposição dos argentinos às políticas de austeridades de seu governo

Em sua avaliação, Cristina deve explorar os problemas com a Justiça durante a campanha, já que tem reagido às acusações como sendo sintomas de uma eventual "perseguição política". A decisão de concorrer como vice de Fernández, para ele, foi a "solução" encontrada por Cristina para continuar no jogo político diante do passivo judicial que carrega.

"Mas é no mínimo curioso, porque ele saiu do governo logo depois que ela assumiu (quando sucedeu o marido, em dezembro de 2007, Cristina manteve inicialmente Fernández no cargo - que apresentou sua renúncia em julho de 2008). E ele a criticou várias vezes em público", acrescenta o cientista político, que avalia que Fernández corre o risco de se tornar um "candidato fantoche".

O analista político Ricardo Rouvier observou que, se a chapa com Cristina como vice sair vitoriosa, "ela terá mais quatro anos de imunidade parlamentar" e será, além de vice, presidente do Senado do país, como mandam as regras locais.

Também na visão do advogado constitucionalista Daniel Sabsay, professor da UBA, a situação judicial de Cristina pode ter influenciado sua decisão.

"Ela tem onze processos e quatro pedidos de julgamento, incluindo o que já começa na terça-feira, e três ou quatro pedidos de prisão preventiva que não avançaram porque ela conta com apoio de setores do peronismo no Senado que não querem que ela perca a imunidade parlamentar", disse à BBC News Brasil.

Jogada política

No âmbito político, segundo especialistas, a ex-presidente estaria tentando atrair o apoio de peronistas para a fórmula liderada por Fernández.

O peronismo é o movimento político fundado há mais de setenta anos pelo ex-presidente Juan Domingo Perón (1895-1974), conta com várias linhas ideológicas e pelo menos quatro possíveis candidatos à sucessão de Macri: o ex-ministro da Economia do governo de Nestor Kirchner Roberto Lavagna, o ex-candidato presidencial Sérgio Massa, o governador da província de Salta, no norte do país, Juan Manuel Urtubey, e a chapa envolvendo Cristina.

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Image caption Alberto Fernández chegou a trabalhar na gestão de Cristina, mas renunciou em 2008, pouco mais de um ano depois que ela assumiu

O calendário eleitoral prevê que os pré-candidatos devem ser inscritos, oficialmente, até o dia 22 de junho e que disputem as primárias (Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias - PASO) em agosto, antes do primeiro turno, no dia 27 de outubro. Segundo analistas, as articulações políticas devem ser aceleradas depois da decisão de Cristina.

O analista político Ricardo Rouvier, que conhece os movimentos do peronismo, disse que "há um peronismo que Cristina não conseguia conquistar" e por isso a ex-presidente teria optado por chamar Fernández para liderar a chapa presidencial. "Ao se candidatar a vice, ela sai de cena, mas não totalmente. Porém, suaviza a imagem do kirchnerismo mais duro", avalia.

O analista Marcos Novaro, da UBA, concorda: "Acho que o anúncio de que disputará a vice-presidência é uma jogada política da ex-presidente, de olho no peronismo. Com isso, ela quer destravar uma negociação com o peronismo que não avança em torno dela e, sim, de outros nomes (do movimento político). Mas, se a chapa for eleita, será ela e não ele quem mandará (no país)."

O próprio Alberto Fernández contou que Cristina o convidou, na semana passada, com uma explicação política. "O país não precisa de alguém como eu, que divide, mas sim de alguém como você, que soma", teria dito a ex-presidente, segundo relato de Fernández.

Pesquisas de opinião apontavam que Cristina Kirchner seria a principal adversária do atual presidente Mauricio Macri.

Algumas delas indicavam que ela venceria Macri no primeiro ou em um eventual segundo turno, marcado para novembro. O índice de indecisos, entretanto, ainda é visto como alto, superando, em alguns levantamentos, mais de 50%.

E tanto Cristina quanto Macri acumulam altos índices de rejeição, segundo o analista Sérgio Berensztein, que foi professor da Universidade Torcuato Di Tella e agora preside um instituto que leva seu nome.

"Queira-se ou não, Cristina é uma protagonista na política nacional. Mas tanto ela quanto Macri têm altos índices de rejeição", ressalvou.

Para o analista político Edgardo Alfano, da emissora de televisão TN (Todo Notícias), de Buenos Aires, mesmo como candidata a vice Cristina continuará liderando sua linha e estratégia política.

"O pensamento de Cristina é assim: 'já que não me querem como candidata a presidente, vou de vice'. Com isso, ela deixa claro que sabe que conta com a rejeição dos eleitores de classe média, que hoje estão insatisfeitos com o governo Macri, mas também tenta continuar no centro da política", disse.

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Image caption A senadora responde a processos ao lado dos dois filhos, Máximo e Florencia Kirchner

Questões familiares

Uma das acusações contra a senadora envolve os dois filhos, Máximo e Florencia Kirchner.

Assim como ela, Máximo goza de imunidade parlamentar e estaria livre da prisão caso fosse condenado. Deputado federal, ele é um de seus principais aliados e confidentes políticos, como conta Cristina em seu livro Sinceramente, lançado neste mês de maio com grande repercussão.

Analistas observam, porém, que Florencia, que é cineasta e está realizando tratamento médico em Cuba, não dispõe da prerrogativa, o que preocuparia a ex-presidente.

O fato levou o colunista do jornal Clarín Eduardo van der Kooy a escrever que "o dilema de Cristina está em Cuba", ao se referir às possíveis dúvidas que ela teria, até há poucos dias, sobre se candidatar ou não à presidência. A filha, segundo a imprensa local, teria pedido que a mãe não fosse candidata.

No livro, a ex-presidente defende a filha das denúncias, dizendo, por exemplo, que a foto dos milhões em um cofre da filha, que embasa a acusação de lavagem de dinheiro, "seria montada". Para Rouvier, a questão familiar não parece ter sido a que mais pesou na decisão de Cristina, mas sim os fatos políticos e judiciais.

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