Tim Vickery: A turbulência avança, mas o Brasil não discute questões-chave

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Há vantagens em fingir uma dupla identidade.

Aconteceu, se não me engano, sete anos atrás, viajando para Londres com escala em Lisboa, num avião da TAP, a companhia aérea portuguesa.

Estava conversando com a minha mulher, uma carioca com raízes indígenas, quando um comissário de bordo passou oferencendo água. "Obrigado", falei, e aceitei. Mas ele não ouviu a minha palavra de agradecimento e resolveu aproveitar o momento para chamar a minha atenção.

Perguntou se eu estava indo para Europa pela primeira vez. Fingi de burro e respondi 'por quê?'

"Porque", ele respondeu com ar de desdém, "a gente na Europa tem o hábito de falar 'obrigado,' ou 'merci' em francês, ou 'thank you' em inglês."

Agradeci a dica e fiquei rindo por dentro. O voo estava cheio, e ficou evidente o seu desconforto em ter que atender tanta gente da Terra de Santa Cruz. Naquele momento, vale muito a pena frisar, a economia portuguesa estava em frangalhos enquanto o Brasil estava indo a todo vapor.

Que mudança! Na semana passada voltei para o Rio de Janeiro desde Londres, escala em Lisboa, avião da TAP. O longo voo atravessando o Atlântico estava quase vazio. Desfrutei de quatro cadeiras para me esticar e dormir. Pouco trabalho, então, para os comissários de bordo porque agora tem poucos brasileiros dispostos a viajar. Senti que os fantasmas das cadeiras vazias estavam gritando, "o momento é outro, o momento é outro".

Agora, posso fingir que sou brasileiro mas não quero fazer de conta que sou especialista em economia. Longe disso. Mesmo assim, sete anos atrás, na época de voos cheios, parecia para mim muito óbvio que o boom brasileiro não duraria para sempre.

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Image caption Comissários de bordo de voos internacionais provavelmente poderão se acostumar com voos vazios em meio à queda do poder aquisitivo de brasileiros, diz colunista

Os bons tempos estavam sustentados em dois pilares precários; primeiro, o consumo - ou, quer dizer, o endividamento. Inevitavelmente, um dia a conta chega, e os gastos têm que ser reduzidos.

E segundo, no crescimento voraz da China, e a consequente fome chinesa por matérias-primas. A partir do momento em que a economia chinesa entrou em desaceleração, o Brasil ficou vulnerável. Trata-se de um problema maior do que Dilma, ou Lula ou até Temer ou Aécio. Extrapola o Brasil. É um problema sul-americano - como acabar com uma dependência em exportação de matéria-prima, processo que não gera muitos empregos de qualidade?

Uma resposta é promover maior integração da economica no continente. Mas aí tem uma série de obstáculos: as distâncias são muito grandes em comparação à Europa, a infraestrutura ainda é deficiente, e há o fato de o Brasil, metade do continente, ter uma moeda bastante mais forte de que os vizinhos.

Era de se imaginar que todos esses assuntos, e outros relacionados, seriam debatidos em profundidade no meio da turbulência política que vem assolando o país. Mas fica cada vez mais evidente que sobra oportunismo e falta projeto. Por enquanto, os comissários de bordo nos voos internacionais vão ter vida mole.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

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