Tim Vickery: Por que a declaração vaga da OMS sobre zika e Olimpíada causa medo

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Segundo a Organização Mundial da Saúde, "cancelar ou mudar a sede dos Jogos Olímpicos (como pediram alguns cientistas) não mudaria de maneira significativa a propagação internacional do vírus da zika".

Podemos nos acalmar, então? Aqueles especialistas que se posicionaram a favor de um adiamento eram todos exagerados? Acho que não. Porque a declaração da OMS é uma frase que quanto mais se examina, menos se explica.

A Rio 2016 vai mudar (ou quer dizer aumentar) a propagação internacional da zika? A OMS não descarta isso, o que quer dizer sim. Só que não vai aumentar "de maneira significativa". É a linguagem de políticos ou líderes corporativos quando estão querendo esconder a bola. É tão vago que fica com pouco sentido.

"De maneira significativa" é totalmente subjetivo. Quase tudo pode ser definido com um aumento "significativo" ou '"não significativo". Depende do sentido de "significativo". Trata-se de um jogo de palavras, um exercício em semântica, quando o mundo merece um debate muito maior e mais honesto.

Quando a crise do Zika começou, um grupo de cientistas de Senegal veio ajudar na contenção. Os especialistas locais estavam bastante nervosos, mas os africanos ficaram mais calmos, por dois motivos.

Primeiro, a zika, com todas as suas complicações, não representa o mesmo perigo do ebola, a doença que eles tinham enfrentado. E, segundo, porque em comparação à África Subsaariana, eles acharam o Brasil muito mais capacitado para lidar com uma epidemia.

Daí a ameaça atual. Segundo a teoria, parece que o Zika chegou ao Brasil três anos atrás, através de uma pessoa infectada da Polinésia Francesa - quer dizer, não precisou muito para iniciar uma crise das dimensões atuais.

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Image caption "OMS aconselhou visitantes da Rio 2016 a evitar áreas pobres da cidade. Mas como fazer isso num lugar como Rio, e especialmente no contexto de Jogos tão espalhados?"

Agora vamos transferir a crise atual brasileira para um país com menos condições. Se um só caso é suficiente para provocar a nossa epidemia, imagine a situação, por exemplo, na Índia. Uma pessoa infectada pode voltar para casa e logo deflagrar uma onda indesejável.

Toda epidemia é uma corrida contra tempo, com os cientistas se esforçando para entender a doença e desenvolver uma vacina o mais rápido possível. Só que a desconfiança existe - e a declaração da OMS pouco faz para diminuí-la - de que os Jogos Olímpicos vão complicar a corrida.

Estimados 500 mil atletas, autoridades e turistas do mundo todo vão se reunir em um só lugar. Obviamente isso traz a possibilidade de uma transferência mundial mais rápida do vírus, que encurta o tempo disponível para o desenvolvimento oportuno de uma vacina. Fica difícil imaginar como esse risco não pode ser visto como "significativo".

Tenho medo de que a declaração da OMS no final do mês passado seja tão inútil quanto uma anterior. Em março, a organização aconselhou os visitantes da Rio 2016 a evitar áreas pobres da cidade. Mas como fazer isso num lugar como Rio, e especialmente no contexto de Jogos tão espalhados?

Um dos centros dos Jogos é Deodoro, na zona norte, área militar em meio aos subúrbios de classe operaria. A família da minha mulher mora ali perto, e por lá o vírus está correndo solto. A irmã dela já pegou zika, dengue e chikungunya.

Pode não ser visto com significativo, mas ela colecionou os três, e deve ter o direito de pedir uma música no Fantástico.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

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