Tim Vickery: Cerimônia de abertura dissipou mau humor de londrinos em 2012; Rio repetirá a história?

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Quando cheguei a Londres, duas semanas antes dos Jogos Olímpicos de 2012, o clima estava muito negativo.

Medo do terrorismo, preocupações com a organização, raiva sobre a maneira como o evento parecia uma imposição em cima da vida normal da cidade. Repúdio às pistas de rua só para os grã-finos de COI (Comitê Olímpico Internacional), indignação sobre o fato de que as padarias foram impedidas de vender pães usando a forma dos anéis olímpicos - a marca tem que ser protegida -, um símbolo de poder dos grandes patrocinadores.

Poucos dias antes de Londres 2012, foi publicada uma coluna no jornal The Independent que captou a sensação.

"Nossa ilha parece ter sido subcontratada pelos Estados Unidos para a Olimpíada sem o nosso consentimento", escreveu a jornalista Yasmin Alibhai-Brown. "Muitos britânicos sentem os Jogos como algo errado, estrangeiro, representando o controle corporativo sobre os empreendimentos mais sadios da humanidade. Os Jogos estão aqui, mas não pertencem a nós."

Suas críticas foram todas pertinentes. Mas enquanto ela estava escrevendo, o humor já estava começando a mudar um pouco.

A passagem da tocha olímpica por vários bairros de Londres ajudou a criar um clima de festa mais inclusivo. Aí veio o momento decisivo, que conseguiu ganhar a simpatia da população local para os Jogos Olímpicos de 2012: a cerimônia de abertura.

Dirigida pelo cineasta Danny Boyle, a cerimônia foi um triunfo total. Teve gente que não a entendeu - inclusive, acredito, um narrador de televisão brasileiro. Mas não foi feita para ele.

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Image caption Em Londres, abertura lembrou aspectos importantes da cultura britânica

Teve gente que citou a falta de referência à história imperial, à conquista e dominação de tantos outros países. Trata-se de uma observação com fundamentos, mas Boyle não estava tentando contar uma história oficial, das elites, mas um espetáculo refletindo uma narrativa do povo.

O fator mais importante no desenvolvimento do povo local foi a revolução industrial caótica, destrutiva, criativa. A transformação do rural para o moderno foi mostrada numa sequência extraordinária que terminou na produção industrial dos anéis olímpicos, o símbolo da cerimônia que mais apareceu nas primeiras páginas de jornais no mundo todo.

A cerimônia prestou homenagem ao Sistema Nacional da Saúde (NHS), um símbolo dos investimentos no povo da época depois da Segunda Guerra Mundial - investimentos que pavimentaram o caminho para a explosão cultural na década de 60 -, com a música, moda e comédia bem presentes.

Aí, com mais imaginação do que orçamento, Danny Boyle conseguiu tocar a população local. Criou uma sensação de que, de alguma forma, o evento realmente pertenceu às pessoas.

Claro, tudo isso tem limitações. Na turbulência da Grã-Bretanha de hoje em dia, com a confusão pós-Brexit e o surto de xenofobia, seria muito mais difícil repetir o que aconteceu quatro anos atrás. Seria mais difícil identificar o que tem para ser tão comemorado - o que, na verdade, também se aplica a aqueles responsáveis pela cerimônia de abertura do Rio 2016.

Image caption Para Vickery, fenômeno de Londres pode se repetir na cerimônia brasileira

Também na véspera dos Jogos de 2012, e também no jornal The Independent, o correspondente de finanças Hamish McCrea enxergou as Olimpíadas modernas como "uma celebração da globalização".

O lugar de Londres nesse contexto foi de que "no momento passa a ser, de certo modo, mais internacional do que qualquer outro no mundo... A última Olimpíada [2008, em Pequim] foi uma celebração da ascensão da China. A próxima, no Rio de Janeiro, será a celebração da ascensão da América Latina".

Só que, de repente, não tem tanta coisa para comemorar. A votação do Brexit foi uma derrota para o processo de globalização, e a perda de fôlego da China acabou com o crescimento brasileiro.

Os mitos confortáveis do Brasil têm pouco sentido no contexto atual da situação externa e desenvolvimentos internos. Não dá para uma cerimônia de abertura retratar a felicidade rasa nem ideias superficiais da democracia racial - nem é para se esperar uma coisa tão banal de gente com a qualidade de Fernando Meirelles e companhia.

Mas o que Meirelles vai retratar? E qual será o efeito de seu espetáculo no clima do Rio de Janeiro? Tem obviamente a tradição do Carnaval para explorar. Mas dá para retratar, de uma maneira sincera, a história dos afro-brasileiros? E depois do evento, qual nota o povo carioca vai dar para a cerimônia de abertura? Ela vai engajar os cariocas?

Ou, no cenário atual, isso seria uma tarefa difícil demais para qualquer cerimônia?

*Tim Vickery, colunista da BBC Brasil, é formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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