Tim Vickery: Quando o assunto é crime no Rio, é melhor exagerar na cobertura do que jogar para debaixo do tapete

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Com todas as críticas que dá para se fazer sobre os Jogos Olímpicos - e as críticas específicas que podem ser feitas à Rio 2016 -, não tem como negar uma coisa: há grande valor em o mundo se juntar em uma só cidade.

Existe uma magia em dar um rolê nas ruas ou pegar o metrô e ouvir tantas línguas, observar tanta diversidade. O encanto do evento não acontece somente nas arenas e no estádios, mas também nos bares e ônibus da cidade-sede.

Mas há um paradoxo aqui. Porque hoje em dia o evento é tão grande que se tornou impossível acompanhá-lo. Me perco todo com tantas opções de modalidades. Então, o que acontece? Diante da impossibilidade de engolir a refeição completa, a tendência é de que a mídia de cada país deguste seus próprios ingredientes.

Algumas estrelas extrapolam e brilham para toda a humanidade - Usain Bolt, Simone Biles, Michael Phelps. Mas a regra geral é que cada nacionalidade siga somente os seus atletas, com esperanças de ouvir o seu hino no final da prova.

Os Jogos Olímpicos são tão grandes, tão internacionais que correm o perigo de fomentar o nacionalismo, descrito de uma maneira genial por Albert Einstein como "uma doença infantil, o sarampo de humanidade".

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Image caption Segundo a polícia, um dos nadadores americanos confirmou que não houve assalto à mão armada; para colunista, 'jornalismo tem de desmascarar mentiras'

Mas se o mundo está pegando sarampo, pelo menos não parece que esteja pegando zika. Um inverno rigoroso tem sido um repelente de mosquito eficiente, embora precisaremos de vários meses para avaliar a situação real.

Porque a zika nunca foi uma ameaca para a Olimpíada. Pelo contrário, os Jogos são uma ameaça às tentativas de controlar a disseminação do virus. Se a zika chegou aqui, como se pensa, através de uma pessoa infectada há três anos, então logicamente a presença de muitas pessoas do mundo todo num lugar de epidemia deve ser vista com certa preocupação.

Existe o risco óbvio de espalhar a doença para lugares despreparados. Felizmente, o clima ajudou. Vamos saber nos próximos meses.

A zika não é o único assunto que está dando frio na barriga da mídia internacional. Convidar a imprensa mundial para um megaevento desses é a lendária faca de dois gumes. A beleza da cidade fica deslumbrante nas imagens da televisão, a vitalidade de Copacabana cativa. Duvido que isso justifique todo o dinheiro gasto no evento, embora é claro que tudo isso sirva como uma propaganda maravilhosa para a cidade. Mas aí tem a questão do crime urbano.

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Image caption Segurança no Rio tem sido um dos assuntos debatidos na cobertura olímpica pela imprensa

Criticando a histeria com que esse assunto tem sido tratado, um jornalista do Chicago Tribune relata ironicamente que "milhares de atletas conseguiram participar da cerimônia de abertura sem que tivessem sido assaltados". E cita uma atleta americana que visitou o país varias vezes sem passar apuros. "Cidades grandes são perigosas quando você vai para os lugares errados", disse Casey Patterson, que é jogadora de vôlei de praia. "É a mesma coisa aqui".

Mas tem um problema claro com a linha de que "pode acontecer em qualquer lugar". Crime é, sim, universal. Lembro, quando trabalhava no centro de Londres, como era comum o furto de bolsas - mas na surdina.

Há dois fatores extremos na realidade carioca: primeiro, a ameaça ou a realidade da violência. Segundo, o modo como o medo dessa violência limita vidas e empobrece a riqueza da expêriencia urbana.

Tem um pouco disso numa reportagem do New York Times. "Rio é o lugar perigoso onde você terá a maior sensação de segurança, até que você ande nas ruas com algum local", escreveu David Segal. Aí você ouve as "histórias de guerra" que todo carioca carrega como uma espécie de mochila mental. "Quanto menos tempo você conversa com cariocas, mais você aproveita este lugar." A inocência tem suas vantagens.

Mas é por esse motivo que uma cobertura exagerada sobre esse assunto é preferível a uma que procure minimizar os perigos. As maiores vítimas da violência são os próprios cariocas. E os ricos têm mais possibilidade de se proteger, nos seus condomínios fechados e espaços privados. Quem sofre mais são as pessoais normais.

O jornalismo tem que desmascarar histórias inventadas e mentiras vergonhosas. Mas também tem que chamar atenção para problemas reais. Não deixar a questão do crime urbano ser colocada debaixo do tapete também faz parte da grandeza dos Jogos.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

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