Tim Vickery: O que a banda The Sex Pistols e a redemocratização brasileira têm em comum

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Aconteceu há 40 anos, mas eu me lembro como se fosse ontem - e se passou num lugar insólito para um evento tão marcante.

Em 1º de dezembro 1976, um programa de notícias em Londres - tipo RJTV no Rio - precisou de uma atração musical para uma entrevista de 90 segundos que ia fechar o jornal.

Uma outra banda furou, então eles chamaram, no último minuto, um grupo de jovens que estava começando a fazer nome, mas que era desconhecido para o grande público. A banda se chamava The Sex Pistols.

Num cenário musical naquele momento dominado por artistas relativamente velhos, barbudos e de classe média, os Pistols eram o oposto. E estavam lá, no estúdio. Cabelos curtos - isso era muito importante -, calça estreita, sem a boca de sino dos hippies, sem medo, irreverentes - e bêbados.

O apresentador, um tal de Bill Grundy, estava mais bêbado ainda. E em uma mistura de desdém e embriaguez, Grundy ouviu um xingamento de um dos Pistols. Os desafiou a falar mais. E os próximos segundos foram uma festa de palavrões, inéditos na televisão inglesa naquela hora - entre 18h e 19h.

O meu pai tinha acabado de voltar do trabalho. Estava com tanta raiva que achei que ele ia dar um chute na televisão - e houve relatos de pessoas que fizeram exatamente isso. Foi um escândalo.

No dia seguinte, os Pistols estavam na capa de todos os jornais mais sensacionalistas, os inimigos número um da civilização e dos bons modos - uma posição confirmada alguns meses mais tarde, quando a banda lançou God Save The Queen, uma música zombando o jubileu da rainha.

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Image caption Sex Pistols chocaram e encantaram ao mesmo tempo, relata colunista

Com 11 anos naquele dia, 40 anos atrás, cheguei numa conclusão rápida: uma coisa capaz de deixar o meu pai tão zangado deve ser legal mesmo.

Com o tempo, entendi que tinha muito mais ali além de um desejo de chocar. Para quem não sacou, The Sex Pistols e o movimento punk pareciam uma manifestação niilista. Para quem curtiu, foi exatamente o contrário - um "sem futuro" a não ser que você tome uma atitude de construir o seu futuro.

O espírito de "faça você mesmo" foi contagiante. Posso afirmar que muitas decisões na minha vida - desde formar uma banda com 14 anos até me deslocar para o Brasil em 1994 - foram inspiradas pelo espírito daquela época.

E agora, por meio de um livro de Arthur Dapieve (Brock - O Rock Brasileiro dos Anos 80), aprendi que os Pistols também tiveram um efeito inspirador por aqui.

Claro que, em tempos bem anteriores à internet, uma coisa tão radical não iria chegar aos ouvidos de todos os brasileiros. Alcançou principalmente um público de classe média alta - filhos de diplomatas, pessoas com a capacidade de entrar em contato com tendências estrangeiras.

Pegou uma geração com raiva de uma ditadura já em frangalhos e cansada de uma linguagem de MPB presa em metáforas. Um público, então, pronto para uma coisa mais primária, uma mensagem mais direta.

Aí, ao descobrir The Sex Pistols, essa gente esqueceu os seus discos de rock progressivo e tomou um outro rumo - criando a trilha sonora de redemocratização.

Sim, The Sex Pistols também fazem parte de Que País é Esse? - a prova de que, quando se joga uma pedra verdadeira na água, as ondulações podem chegar bem longe.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

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