Tim Vickery: Um brasileiro enxergou o autoritarismo que transformou o sonho da revolução russa em horror

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Será que a grande tragédia do século 20 ocorreu exatos cem anos atrás?

Sei que há muitos candidatos para esse título e que os feitos nazistas são difíceis de serem superados nesse quesito. Mas, com a sua mistura de ciência moderna e crenças medievais, os nazistas sempre deixaram claro a ruindade de seu projeto.

A Revolução Russa é diferente. Pode-se pensar o que quiser sobre os ideais revolucionários, mas não há dúvida de que, na cabeça deles, pelo menos no início do processo, eles realmente acreditavam que estavam servindo a grande causa da libertação humana.

A tragédia fica no abismo entre o sonho e a triste, sangrenta, totalitária realidade em que se transformou a União Soviética nas décadas seguintes.

Um dos primeiros a cair no abismo foi um brasileiro: Antonio Bernardo Canellas foi delegado no 4º Congresso da Internacional Comunista, em 1922, tornando-se o primeiro brasileiro a visitar a Rússia após a revolução. De Niterói, mas ativo politicamente no Nordeste, Canellas, com 24 anos, era o mais jovem entre os quase 400 delegados.

Ele não parece ter sido uma figura fácil. Falava quando precisava ouvir. Tinha um ego enorme. Brigava com facilidade. E esquecia que, na verdade, não representava quase ninguém. Estava lá como homem do Partido Comunista do Brasil (PCB), organização na época em formação que pleiteava o direito de ser reconhecida pela Internacional. Mas já estava fora do país havia mais de dois anos, desatualizado quanto aos desdobramentos em curso no Brasil.

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Image caption Manifestação durante a Revolução Russa, em outubro de 1917: sonho de libertação humana acabou virando realidade sangrenta e totalitária, diz colunista

Mas Canellas ganhou o direito de votar no Congresso. E, num ambiente em que as decisões eram sempre aprovadas por unanimidade, ele ousou quebrar o protocolo e votar contra.

E justamente em um voto crucial: sobre o direito da Internacional (ou seja, dos russos) de intervir (na prática, mandar) nos partidos comunistas no mundo todo. Até Lênin, debilitado e quase na fim da vida, via o equívoco de uma organização "inteiramente russa, permeada do espírito russo", quando "a experiência dos camaradas estrangeiros deve diferir da experiência russa".

A história mostra que Canellas tinha razão em votar contra. Mas o seu espírito de independência não seria perdoado.

Em consequência de seu voto, o PCB não foi aprovado pela Internacional, e, na volta para o Brasil, Canellas virou alvo de protestos dos outros membros. Seus colegas rapidamente viraram seus inimigos.

Ele acabou rompendo com o partido, que publicou um manifesto a seu respeito, chamando-o de "traidor, indigno e vil... É necessário dissecar este cadáver. É preciso desnudá-lo, rasgar-lhe o couro mau, desfibrar-lhe as carnes ruins, pôr-lhe as vísceras ao sol, espremer-lhe o figado esgorgitado de torpeza".

Isso em junho de 1924, menos de sete anos depois da revolução. O sonho da emancipação da humanidade já começava a virar um terror, que na União Soviética de Stálin transformou-se em pesadelo prolongado.

Como foi que tudo ruiu tão rapidamente em uma farsa mortal?

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Image caption Capa de livro sobre Antonio Canellas, o primeiro brasileiro a visitar a Rússia após a revolução

Me parece que passou batida uma observação da pensadora alemã Hannah Arendt: "Os revolucionários não fazem a revolução. Mas eles sabem onde pegar o poder quando está lá no chão".

Isso se aplica muito bem aos eventos de cem anos atrás. Porque, depois da revolução, os comunistas russos andavam que nem pavões, as grandes estrelas do movimento.

Tem uma ironia deliciosa aqui: em abril de 1917, quando Lênin voltou para o país com um projeto de liderar uma revolução comunista, muito deles eram contra. E mesmo depois de convencidos, não foram eles que fizeram a revolução. Uma sociedade arcaica despencou sobre as necessidades de lutar uma guerra moderna.

Tem quem argumente que o que aconteceu cem anos atrás foi mais para um golpe de soldados do que uma revolução no sentido pleno da palavra.

A ideia original de Lênin e Tróstki foi se aproveitar justamente dessa fraqueza para iniciar uma revolução que logo se espalhasse aos países mais avançados. Não rolou. Ter um Estado comunista somente na Rússia era impensável. Mas acabou acontecendo. E a Internacional Comunista virou um veículo para impor um modelo russo em cima de todos os partidos do mundo.

E esse modelo russo foi altamente autoritário - por necessidade. O novo regime estava lutando uma guerra civil a partir de uma posição muito fraca. Se as dificuldades externas eram grandes, as internas eram mais ainda, algo não previsto pelos articuladores originais de comunismo.

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Image caption Stálin e Lênin durante a Revolução Russa, em 1917; 'Como foi que tudo ruiu tão rapidamente em uma farsa mortal?', questiona Vickery

No fim da vida, Friedrich Engels via com otimismo o progresso possível pelo processo democrático. Décadas antes, em 1848, Karl Marx havia escrito sobre a necessidade na revolução de um curto período de ditadura do proletariado. Mas isso numa sociedade onde a classe operária urbana era grande maioria. Na Rússia atrasada, entretanto, eles fizeram parte de uma minoria pequena de uma sociedade de camponeses.

A ditadura do proletariado russo, então, implicou enganar os camponeses - milhares de pessoas - com promessas de terra até o regime novo fosse forte suficiente para os destruir como força independente, os obrigando a virar funcionários de fazendas coletivas. Com custos altíssimos de vida.

O modelo de partido russo - centralizado e autoritário - mostrou-se totalmente inadequado para outras sociedades. Durante décadas, a Internacional Comunista só acumulou fracassos e até facilitou a ascensão nazista na Alemanha.

Antonio Bernardo Canellas não previu tudo isso. Mas, mesmo com a impetuosidade da juventude e seus excessos de ego, enxergou e entendeu os perigos da ausência de debate. No centenário da revolução, merece ser lembrado.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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