Tim Vickery: O nacionalismo brasileiro é uma contradição gritante com a origem do país

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Na história gloriosa da música brasileira, um dos capítulos mais bizarros - e desafinados - foi a passeata em 1967 contra a guitarra elétrica.

Anos depois, o grande artista Sérgio Ricardo se declarou ainda em harmonia com a ideia por trás da passeata. "Viramos novamente colonizados", resmungou. "Veio a cultura inglesa, aquela coisa de Beatles, guitarra elétrica e não sei mais o quê."

Mais tarde na mesma entrevista (no livro Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil), ele conta que esquentou durante o festival de 1967, porque "eu tenho sangue árabe".

Aí chegamos à contradição gritante de seu modo de pensamento. O Brasil pode aceitar os ancestrais de um Sérgio Ricardo, mas não pode aceitar um instrumento musical.

A dica está lá na palavra. "Brasileiro" tem sufixo não de nacionalidade, mas de profissão. Um brasileiro veio de fora para explorar o pau-brasil. E chegaram milhões. Os africanos, claro, mediante os negócios nefastos da escravidão. Os outros, da Europa, do Oriente Médio, do Japão, fugindo de guerras e pobreza e buscando oportunidades.

Claro, tem uma mistura de raças fascinante no país. Mas, com a exceção dos indígenas, todos têm raízes de fora. Ainda assim, é muito comum por aqui a noção de que um país de colonizadores é uma vítima da colonização.

É impressionante como essa ideia parece que tem raízes fortes na esquerda local - quando, na verdade, é fácil enxergar sua origem na direita.

Durante muitos anos, dá para ver o país como uma grande fazenda, exportando matéria-prima. Essa opção ficou insuficiente em 1929, com a depressão mundial e a queda da procura por produtos brasileiros. Desenvolvimento e industrialização, resistidos por uma elite que temia uma classe operária urbana, agora virou uma necessidade.

Esse cenário, comum na América do Sul e o sul da Europa, explica o crescimento do fascismo. Tratava-se da ideologia da periferia do processo industrial, uma resposta de direita e populista para os dilemas do desenvolvimento.

Alguns regimes - como o Portugal de Salazar - resolveram tentar parar o relógio, cortando o orçamento da educação com o pensamento de que a ignorância era o preço da paz social. Outros, como o Brasil de Vargas, visavam muito mais o desenvolvimento.

Direito de imagem EPA
Image caption Caetano Veloso e Gilberto Gil abriram um novo capítulo da música brasileira ao trazer o espírito dos Beatles para um contexto local, diz o colunista

Iniciou-se um processo de modernização conservadora - uma mistura de indústria capitalista mantendo relações sociais semifeudais. Uma mistura, acredito, que explica muitas contradições do Brasil atual.

Lançou-se um projeto de industrialização nacional, uma tentativa de gerenciar a indústria sem conflito de classe. Daí os sindicatos pelegos utilizados como apêndice do regime varguista. Um processo assim, para juntar elementos com interesses divergentes, precisa de um inimigo, mesmo que somente no campo das ideias.

Vira um "nós contra o mundo", um "gringo explorador" contra as interesses nacionais - muito conveniente para uma estrutura de hierarquia local que sempre existia numa certa harmonia com a elite global, e que sentiu que a desigualdade social era um estado natural das coisas.

E vários elementos da esquerda brasileira - que deveria ser internacionalista - abraçaram uma perspectiva que veio de uma ideologia oposta.

Parece que, no dia daquela marcha contra a guitarra elétrica, Nara Leão chegou à mesma conclusão. Segundo Caetano Veloso, ela assistiu ao evento da janela do hotel, comentando que "estava deprimida, isso parece uma passeata fascista do partido integralista".

Porque o mundo não somente se divide em países. Há grupos sociais, e conflitos entre eles, dentro dos países. Até em países imperialistas.

As primeiras vítimas do Brasil Imperial, por exemplo, foram os paraguaios massacrados na guerra de 1864-70. As segundas vítimas foram os pobres brasileiros enviados para lutar e morrer em massa na guerra.

E a mesma coisa se aplica aos Estados Unidos e à Guerra do Vietnã, um século depois. Daí a força do movimento contra a guerra no próprio Estados Unidos. Para os americanos jovens, não era um assunto de interesse acadêmico. Era uma questão de vida ou morte.

Direito de imagem Reuters
Image caption País passou por um processo de modernização conservadora, comenta o colunista

Além de um ar de contestação na juventude da Inglaterra e os Estados Unidos na década de 1960, também houve um clima de comemoração de uma classe operária em ascensão. Era o pano de fundo para os Beatles e a efervescência cultural daquela época.

Claro, teve e tem uma indústria multinacional usando o seu tamanho e a sua força para vender essa música no mundo todo - o que gera resistência local. Mas há uma resposta mais positiva do que procurar banir um instrumento.

Muito melhor é o diálogo, na mesma forma que aconteceu com o samba e a bossa nova. Incorporar novas ideias, novas perspectivas e sair criando algo novo - assim como, no passado, o Brasil assimilou tantos imigrantes e saiu enriquecido.

E realmente Caetano Veloso, com Gilberto Gil (que, de uma forma bem confusa, até participou na passeata contra a guitarra elétrica), abriu um novo capítulo da música brasileira, trazendo o espírito dos Beatles para um contexto local.

O Tropicalismo, com uma estética visando novas possibilidades de ser, partiu de uma observação bem internacionalista - que a música dos outros países, com a sua "guitarra elétrica e não sei mais o quê", não era necessariamente um inimigo. Era capaz de ser até um aliado.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

Leia colunas anteriores de Tim Vickery:

Tópicos relacionados