Tim Vickery: As bancas de revista que viraram mercados, a revolução de dados e o diagnóstico sombrio do Brasil

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Andando pelas ruas do Rio de Janeiro, sem documento, mas com lenço, percebo que hoje em dia "o sol nas bancas de revista" está torrando mais biscoito do que publicação da imprensa. Com o declínio de jornais e revistas, as bancas viraram minimercados.

Entro numa galeria e vejo tantas lojas fechadas, e uma porcentagem cada vez mais alta de salões de beleza.

Vou caminhando no centro da cidade. Passo pelo fórum. De um lado, uma manifestação sobre as mortes da vereadora Marielle Franco e seu motorista. Paro para assistir e ganho um folheto - que não tem nada a ver com o caso. É da OAB, a Ordem dos Advogados, convocando para um ato de protesto contra a criação "de um Centro de Soluções nos quais os conflitos seriam analisados via internet, por um robô, sem a participação de advogados".

Cansado de caminhar contra o vento, paro para tomar uma coisa e refletir sobre a falta de alegria, alegria ao meu redor.

Desde que cheguei ao Brasil, em 1994, sempre me nutri da ideia de um país progredindo - lentamente, na verdade, mas buscando ser uma mãe mais gentil para tantos filhos e filhas de uma terra tão fértil.

Os últimos dois anos forçaram uma reflexão, com um diagnóstico bem mais sombrio.

Chego à conclusão de que a crise, especialmente na vida urbana, tem três aspectos.

Um é estrutural e histórico - o legado nocivo da escravidão, um passado e presente de desigualdade perigoso, um Estado que funciona para poucos e a mentalidade de "salve-se quem puder" que vem como consequência, junto a níveis altíssimos de violência.

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Image caption 'Se o serviço é de graça, então o produto é você', diz frase citada pelo colunista

O segundo é a situação econômica global. Na verdade, o boom do Brasil sempre foi precário, dependente da venda de matéria-prima (já em si um modelo discutível) para a China no momento em que aquele país estava crescendo com uma rapidez claramente não sustentável. As expectativas de dez anos atrás eram muito exageradas. A realidade voltou para morder o Brasil bem naquela parte de anatomia onde o sol não brilha.

O terceiro fator é uma onda gigante, um tsunami ainda misterioso - porque não sabemos ainda por onde ele vai nos conduzir. Trata-se de uma tendência internacional - a destruição de modelos de negócios por meio da tecnologia de informação. Tirando valor por onde ela anda, a internet fecha jornais e revistas e transforma bancas em minimercados, a internet esvazia o varejo e até ameaça os advogados.

Quem lê tanta notícia, agora pode fazer isso online. A loja virou um lugar onde o cliente vai provar roupa e escolher o tamanho adequado, para depois pedir pela internet, pagando bem menos. E até tem robôs "doutores", prontos para exercer funções de advocacia.

Faz parte da dinâmica constante do capitalismo, destruindo coisa velha para construir o novo. Mas agora com uma diferença: o novo modelo custumava pagar mais que o antigo, facilitando a transição. Historicamente, por exemplo, o trabalhador rural perdeu espaço, mas acabou encontrando emprego em fábricas, ganhando mais. Agora não. O novo modelo muitas vezes paga menos. Ou nem paga. Porque a natureza do trabalho está passando por uma mudança histórica.

Vi duas frases muito interessantes sobre o escândalo recente envolvendo Facebook e o polêmico uso de seus dados.

Primeiro: se o serviço é de graça, então o produto é você.

Segundo: dados são o novo petróleo.

Nesta nova fase, do capitalismo de informação, o conhecimento é tudo. Um grande supermercado vai construindo a sua estratégia baseada nas opções feitas por milhões de consumidores. Um gigante de varejo online sabe o que você já pediu, conhece o seu gosto e usa algoritmos para sugerir mais produtos na mesma linha. Um titã das mídias sociais tem acesso a um leque extraordinário de informações sobre você, postadas de livre e esportânea vontade - mas que, em massa, viram um banco de dados de grande utilidade - numa campanha de vendas ou numa campanha de eleição.

O cidadão, então, está num ato de consumo ou até um momento de lazer - mas na verdade, está produzindo, fornecendo informações que têm grande potencial econômico para quem é capaz de pegar, analisar, vender. Quem pega esses dados tem nas mãos o combustível do mundo atual.

É como se a sociedade inteira tivesse virado uma fábrica. O produto é você. Ao comprar ou postar, você está de fato e sem recompensa, trabalhando - servindo aos interesses de vários gigantes globais. São poucas as empresas com escala para se beneficiar. É um modelo altamente concentrado.

Isso é uma preocupação em qualquer praça. Mas, na realidade do Brasil, já marcada por uma concentração de renda impressionante, a perspectiva é alarmante. E acredito que, se quisermos seguir vivendo (e por que não?), temos que achar uma maneira em que a tecnologia da informação funcione em prol da maioria. Talvez, o petróleo nunca na verdade tenha sido nosso. Tomara que a história com dados seja diferente.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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