Tim Vickery: A importância do 'Deixa Ela Trabalhar' e de enxergar além da sexualidade

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

Todo o apoio a "Deixe Ela Trabalhar", uma campanha das jornalistas esportivas femininas, cansadas com o assédio que sofrem nos estádios brasileiros.

Trata-se de uma iniciativa brilhante; é uma voz das mulheres se fazendo ouvir com clareza e força moral. A campanha já ganhou manchetes nos quatro cantos do mundo e provoca debates, reflexões e reações.

É preocupante ouvir, das pioneiras femininas neste ramo, que o assédio dos homens hoje em dia é pior do que nas décadas de 1980 e 1990. Na verdade, não sei exatamente como interpretar isso. Como acontece em tantas situações, fica difícil definir se o país está andando para frente ou para trás.

Por um lado, relatos de um aumento do assédio são, obviamente, ruins. Por outro, podem ser um fruto indesejável de um certo progresso, já que hoje há mais mulheres trabalhando na área.

Tenho a felicidade de conhecer várias jornalistas engajadas na campanha, através da convivência nas tribunas de imprensa. São ótimas profissionais, e tenho orgulho (agora mais ainda) de tê-las como colegas. O que vem em seguida não é, de forma alguma, uma crítica à sua luta. Acredito e espero que seja uma observação pertinente.

Elas têm um certo perfil. Todas são relativamente jovens e seriam consideradas bonitas. Ou seja, para conseguir o direito de trabalhar neste ramo, tiveram que passar por uma peneira de considerações estéticas - uma seleção construída por homens, e que funciona dentro de uma estrutura do comando masculino, mas que não se aplica aos homens.

Isso acontence globalmente dentro do jornalismo esportivo, mas é especialmente forte no Brasil.

Estamos num país onde um careca gordo pode declarar que "as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental" - e essa frase, com uma arrogância enorme e uma falta de "semancol" ultrajante, ainda é tratada como uma pérola da sabedoria.

Image caption Campanha de jornalistas femininas pede fim de assédio e ofensas no exercício do seu trabalho

Acredito que a sexualização da mulher brasileira coloca a sociedade inteira numa camisa de força.

Entendo isso como uma prova gritante da falta da maturidade social, e também como uma sequência enorme de oportunidades perdidas, de chances para trocar ideias e experiências, e - sobretudo pelos homens - de ouvir a voz do futuro, já que, inevitavelmente, as próximas décadas vão ser mais femininas.

Já se passaram quase 60 anos desde o lançamento de pílula anticoncepcional, que deu à mulher mais controle sobre a reprodução, liberando-a para outros voos.

Desde então, houve bastante tempo para que as possibilidades criadas por essa revolução fossem incorporadas pela outra metade da população humana.

Nesta altura do campeonato, então, deveria ser mais fácil enxergar além de sexualidade. Claro, estamos pisando aqui num campo minado.

Entendo a sexualidade como a nossa maior benção, um portal de prazer e espiritualidade. Mas também trata-se de um grande perigo, uma força que nem sempre é fácil de controlar e que também pode ser cheia de armadilhas - especialmente quando se mistura com poder, e em uma estutura de poder masculino que se sente ameaçado.

No fundo, o sexo é uma maneira adulta de brincar, mas brincadeira tem hora. No resto do tempo, precisamos ter maturidade para separar as coisas.

E isso quer dizer: deixe ela trabalhar; deixe ela ser do lar, se assim quiser; ou deixe ela virar chefe e mudar os padrões de seleção de funcionários; deixe ela desenvolver os seus talentos na sua plenitude.

Porque o resultado final do livre desenvolvimento de cada um - e, especialmente, de cada uma - é a vitoria de todos.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

Leia colunas anteriores de Tim Vickery: