Tim Vickery: A força de representar o seu país na Copa do Mundo - e os perigos do nacionalismo

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

No sábado passado, na manhã seguinte à eliminação do Brasil da Copa do Mundo, era fácil notar o clima de decepção nas ruas do Rio de Janeiro. Uma conversa triste aqui, uma outra mais raivosa ali, e a sensação temporária parecida ao luto.

Os grandes jogadores do futebol não têm dúvida: o nível mais alto do esporte hoje em dia se encontra na Liga dos Campeões da Europa. É o espaço que concentra os melhores atletas nos maiores clubes e, portanto, é visto como o grande teste de qualidade, onde os craques procuram e ganham o respeito de seus pares.

Mas a Copa do Mundo tem uma grande coisa a mais. Tem pressões extras, que geram mais emoções - e não só porque temos que esperar quatro anos por cada novo torneio.

É também pelo grande poder da representividade. O ato de representar seu país e seu povo traz uma carga emocional incrivelmente forte.

Pudemos ver isso no desempenho de todos os times lá na Rússia que perderam os seus dois jogos iniciais e ficaram sem chance de passar de fase. Mesmo eliminados, disputaram o terceiro jogo com máxima intensidade, querendo pelo menos se despedir da Copa com dignidade e deixar o futebol do seu país bem representado.

Há uma clara conclusão a ser tirada disso. O conceito de Estado-nação ainda mobiliza bastante força em pleno século 21.

Para muitos economistas, isso deveria causar surpresa. Muitos proclamaram a morte desse conceito, obsoleto diante dos fluxos globais de bens e capitais. O Estado-nação não tinha mais lógica ou motivo de ser. O homem, baseando suas decisões numa escolha racional de opções, não precisaria mais da nação, e o conceito minguaria.

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Image caption Torcedores russos na Copa; sentimento de pertencimento aflora durante a competição esportiva

Nada mais óbvio, porém, do que as fraquezas dessa linha de pensamento. Qualquer teoria que parta do indivíduo atomizado fazendo escolhas racionais é fadada ao fracasso e feita de areia movediça em vez de tijolos. Antes de tudo, o ser humano é uma criatura social - caso contrário, não somente a linguagem, mas também os mercados tão queridos dos senhores economistas seriam impossibilitados.

Nada mais natural, então, que o sentimento de pertencimento, de fazer parte de uma certa comunidade, de fincar raízes em um pedaço de terra - seja cidade, região ou país. É um sentimento normal, mas contraditório - às vezes saudável, às vezes perigoso.

O escritor inglês George Orwell caracterizou o patriota como alguém que ama o seu país e um nacionalista como alguém que tem ódio de outros países.

Para Albert Einstein, o nacionalismo era uma doença infantil, o sarampo da humanidade. Esses dois gênios estavam pensando mais no poder nocivo do nacionalismo de afastar pessoas que nasceram em países distintos.

Mas podemos também enxergar as possibilidades de problemas internos, pois a narrativa e os símbolos do país normalmente estarão sob o controle de forças conservadoras que visam à proteção de velhas hierarquias.

Vamos puxar o exemplo dos protestos no Brasil em junho de 2013: um momento poderoso, gerando esperanças mas também perigos.

Nos protestos não houve espaço para partidos políticos. Mas, com todos os seus defeitos e frustações, partidos são parte integral da democracia. Vetá-los é abrir as portas para uma armadilha fácil - de ser tão somente a favor do "Brasil", uma posição que trata diferenças como traição e parte do princípio absurdo de que os interesses do açougueiro são os mesmos que os da vaca.

Então, disperso e sem um rumo definido, o espírito dos protestos de cinco anos atrás foi aos poucos migrando para áreas mais difusas.

O que começou como uma rebelião contra a má qualidade de serviços públicos acabou nas mãos de uma corrente que preferia nem acreditar em serviços públicos e acha que o "livre" mercado é sempre capaz de oferecer a solução.

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Image caption O escritor inglês George Orwell caracterizou o patriota como alguém que ama o seu país e um nacionalista como alguém que tem ódio por outros países

O exército que tomava as ruas vestido de amarelo também manifestava revolta contra os custos da promoção da inclusão social.

Agora, esse pensamento único de nacionalismo de direita tenta ter cada vez mais influência em fazer as pessoas acreditarem que o melhor caminho seja uma intervenção militar.

Aí eu lembro a minha chegada no Brasil, em 1994, com o país ainda festejando o triunfo na Copa do Mundo nos Estados Unidos. A minha grande surpresa e decepção: o país estava (e está) vivendo atrás das grades, com um grau de violência, e um medo do mesmo, altamente nocivos para a vida pública.

O motivo: o governo militar foi incapaz de lidar com a questão social.

Um nacionalismo baseado em manter velhas hierarquias não tem a mínima possibilidade de atender às necessidades do país. Até que o sentimento de pertencer a uma nação, tão forte durante a Copa, seja também uma realidade de pertencer, com oportunidades de desenvolvimento por todos, estaremos presos num 7 a 1 sem apito final.

*Tim Vickery é colunista da BBC News Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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