Tim Vickery: Como a América do Sul conquistou as plateias europeias na história das Copas

Tim Vickery Direito de imagem Eduardo Martino

A história anda esquecida ou subvalorizada, mas a Copa do Mundo é um produto de integração sul-americana - e um grande exemplo do que o continente é capaz quando junta forças.

Há exatos 80 anos, o Brasil chegou à semifinal da terceira Copa do Mundo, na França, onde, sofrendo um pênalti bem duvidoso, perdeu por 2 a 1 para a Itália. Mesmo assim, a Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro ficou feliz. "Os brasileiros", declarou o jornal na prosa charmosa da época, "reafirmaram na peleja de ontem o seu valor desportivo e as tradições do 'football' sul-americano".

Olhando sob a perspectiva de hoje, é curioso e fascinante que o jornal coloque a façanha brasileira num contexto continental. Mas, na ótica da época, fazia todo sentido, pois aquele foi o primeiro momento em que o futebol brasileiro mostrou que seria uma potência global. Até então, tinha sido claramente a terceira força do continente, atrás de Uruguai e Argentina.

O crescimento do futebol no Cone Sul no início do século passado é um acontecimento impressionante, que ninguém poderia ter previsto algumas décadas antes. Tem a ver com a explosão da população urbana e da imigração.

Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro e São Paulo cresceram exponencialmente, com milhões de pessoas chegando da Europa e do interior, criando um ambiente sedento por novidades.

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Image caption Copa de 1930, na França, já teve exemplos do bom desempenho sul-americano

O futebol logo conquistou essas pessoas por suas próprias características: é fácil de jogar, aberto para qualquer biotipo e dispensa equipamentos caros. Também foi resultado de um processo histórico em três atos: chegou, nas mãos (ou pés) dos ingleses, cheio de prestígio de primeiro mundo, foi reinterpretado pelos sul-americanos, transformado em um esporte ideal para o jogador com centro de gravidade baixo, e essa reinterpretação resultou em triunfos e reconhecimento internacional - muito importantes numa região tão carente dessas coisas.

O Uruguai liderou esse processo - o que não é nenhuma coincidência. Aconteceu porque a pequena república já contava com um Estado de bem-estar social. Portanto, houve menos resistência à dinâmica em que o futebol baixou da elite para as massas.

A partir da primeira disputa continental de seleções, em 1916, o Uruguai já estava escalando jogadores pobres e negros - algo impensável no Brasil naquele momento.

E essa taça - hoje em dia a Copa América, anteriormente chamada de Copa Sul-Americana das Seleções - desempenhou um papel fundamental. Nasceu mais de 40 anos antes de a Europa começar seu próprio torneio. Em 1916, é claro, as nações europeias estavam ocupadas se massacrando nos campos sangrentos da Primeira Guerra Mundial.

A concorrência sul-americana era bem mais saudável. Nos início, a copa aconteceu quase todos os anos. Os enfrentamentos tão frequentes e tão disputados entre os times de Uruguai, Argentina e Brasil produziram uma elevação incrível no nível do jogo praticado - como ficou evidente quando o Uruguai levou um time para participar no torneio do futebol nos Jogos Olímpicos de Paris em 1924.

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Image caption Brasil x Iugoslávia na Copa de 1930; esporte rapidamente conquistou os brasileiros por ser fácil de jogar, se adequar a qualquer biotipo e dispensar equipamentos caros

Esses desconhecidos de um país pequeno do outro lado do Atlântico não somente ganharam a medalha de ouro com facilidade, como o fizeram com um estilo que deixou maravilhada a plateia europeia.

Gabriel Hanot, um jornalista francês de grande influência na época, escreveu que a grande qualidade do time vencedor foi "uma maravilhosa virtude em receber, controlar e usar a bola. (...) Eles estão perto da perfeição na arte da finta, da guinada e do drible, mas também sabem como jogar direta e rapidamente. (...) Eles criaram um futebol bonito, elegante e ao mesmo tempo variado, rápido, poderoso e eficiente. Esses bons atletas estão para os profissionais ingleses assim como os cavalos puro-sangue estão para os cavalos de fazenda."

É o tipo de descrição que poucas décadas depois seria utilizada para elogiar a Seleção Brasileira. E a referência para os profissionais ingleses é muito importante. As Olimpíadas eram somente para amadores. Na época, os ingleses ainda eram vistos como medida de qualidade no jogo. Nasceu ali a necesidade de um torneio mundial de futebol, aberto para amadores e profissionais, para descobrir quem realmente tinha o melhor time.

Tal sensação só cresceu na Olímpiada seguinte, os Jogos de Amsterdã, em 1928. Daquela vez, a Argentina também enviou uma seleção - e levou a prata, com o Uruguai mais uma vez conquistando o ouro.

Dois anos mais tarde, o Uruguai sediou a primeira Copa do Mundo, e ganhou também, mais uma vez superando a Argentina na final. Ou seja, há uma linha direta entre a decisão pioneira de criar uma taça sul-americana em 1916 e o nascimento, somente 14 anos mais tarde, do megaevento que atualmente prende a atenção do planeta.

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Image caption A enorme e colorida torcida peruana foi destaque nos primeiros dias da Copa da Rússia

Outros países têm a sua história, diz o ditado, mas Uruguai tem o seu futebol. Na verdade, isso se aplica um pouco também para Brasil e Argentina. Para os países do Cone Sul, a Copa do Mundo é um evento de importância cívica enorme. A seleção é o país em chuteiras, aparecendo diante do planeta como vencedora.

Mas o resto do continente também quer participar. É só dar uma olhada nos países onde mais se compraram ingressos para a Copa na Rússia. Em primeiro lugar são os Estados Unidos - que nem se classificaram, mas que abrigam muitos latinos. O Brasil está em segundo lugar, a Colômbia em terceiro, e a Argentina em sexto, seguida por Peru.

A enorme e colorida torcida peruana foi destaque nos primeiros dias de competição. Muitos fizeram loucuras para comprar as passagens para Rússia. E viajaram sem esperancas de vitória. Jogando a primeira Copa desde 1982, os peruanos tiveram uma oportunidade para afirmar sua existência diante de um plateia mundial. "A gente existe", foi a mensagem, "e, como sul-americanos, temos todo direito de fazer parte da festa."

*Tim Vickery é colunista da BBC News Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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