Blog do Julio Gomes: O que o Brasil está fazendo em Teresópolis?

Essa é uma pergunta que não saiu da minha cabeça desde que botei os pés (pela primeira vez, diga-se) na simpática cidadezinha da região serrana do Rio.

Nada contra Teresópolis, hein?! Aliás, cidade é bonita, tem bons restaurantes e gente simpática (pelo menos as com quem cruzei).

Estamos falando aqui de uma preparação para Copa do Mundo e a decisão tomada pela CBF de ficar na Granja Comary durante todo o período prévio e também durante o Mundial.

Nesta primeira semana de treinos, a seleção viu aqui um clima que passa longe de ser surpreendente. Chuva, frio, neblina. De noite, os termômetros chegam a bater 8, 9, 10 graus celsius. Frio mesmo.

Os jogadores estão acostumados? Claro que estão, a maioria deles joga na Europa e lida com temperaturas bem mais baixas ao longo da temporada. A questão não é essa.

A questão é que o Brasil jogará, durante a Copa, em cidades que pouco se assemelham a Teresópolis em termos climáticos.

É um torneio curto, relâmpago, sem margem de erro. Um craque gripado pode significar derrota e eliminação.

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Image caption Em meio à preparação para a Copa, Seleção enfrenta chuva, frio e neblina

Em São Paulo, é verdade, pode fazer frio. Como pode muito bem não fazer. O inverno é meio louco em São Paulo e, na maioria dos dias, se há Sol, não há tanto frio (é de noite que o bicho pega). Pouco chove.

A umidade de Teresópolis contrasta com o ar seco de São Paulo no inverno. Ar seco que também é marca registrada de Brasília, palco do terceiro jogo. O segundo é em Fortaleza, onde o forte calor, na casa dos 30 graus, e a altíssima umidade são as características principais.

Se ficar em primeiro do grupo, o Brasil passará por Belo Horizonte, Fortaleza (de novo), Belo Horizonte (de novo) e Rio de Janeiro, caso chegue à final. Nada de Curitiba ou Porto Alegre, cidades que possivelmente têm mais semelhanças climáticas com Teresópolis nesta época do ano.

A ideia original era que um centro de treinamento "de primeiro mundo" fosse construído na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde fica também a sede da CBF.O projeto deve estar em Boca Raton ou Andorra, porque ele foi para o vinagre junto com Ricardo Teixeira.

No ano passado, na Copa das Confederações, a seleção teve um período de treinos em Goiânia (política, ela, a política) e, depois, foi pingando de cidade em cidade. Deu certo ou não deu?

De uma forma ou de outra, houve também mais contato com as pessoas de carne e osso, com as ruas. É lógico que deve haver certo nível de isolamento para que haja foco no trabalho, mas aqui em Teresópolis este isolamento me parece exagerado, especialmente pelo fato óbvio: a Copa é no Brasil. Não haverá (porque não há condições para tal) um treino sequer aberto para o público por aqui.

A Granja Comary só seria a sede da seleção na Copa do Mundo se fosse transformada em um centro de excelência. E foi - às custas de R$ 15 milhões que saíram dos cofres da CBF que, se não investe um tostão furado no futebol brasileiro, pelo menos nunca foi mão de vaca quando o assunto era seleção brasileira.

A tal excelência está na boca de todos os integrantes da comissão técnica - e é fato que deve ser valorizada, só não podemos nos esquecer que este não é o único CT-Hotel de primeiro mundo no Brasil.

Se a obra não ficasse pronta, este blog apurou que já estava decidido o plano B: o CT do São Paulo, em Cotia. Claro, se Teixeira, Andrés Sanchez e Mano Menezes tivessem permanecido no poder, o plano B - ou mesmo plano A - seria o CT do Corinthians.

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Image caption Escolhida pela comissão técnica, a Granja Comary passou por reforma de R$ 15 milhões

Estes dois CTs seriam opções melhores do que a Granja, a meu ver. Como também seriam opções melhores os modernos centros do Cruzeiro e do Atlético, em Belo Horizonte.

Argentina, Chile e Uruguai - três vizinhos, vejam só - são as seleções que se aproveitaram melhor do conhecimento sobre a América do Sul e optaram por BH - onde não é quente nem frio, seco nem úmido.

Há condições climáticas sem radicalismos, o que proporcionará às três seleções evitarem qualquer tipo de choque térmico. Além de estarem perto, bem perto, do aeroporto de Confins.

O Brasil, é bom lembrar, deverá sempre pegar uma viagem de uma hora a hora e meia, com serra incluída, para chegar e sair de Teresópolis.

Se o Brasil tivesse ficado na Toca da Raposa ou na Cidade do Galo, nem mesmo precisaria entrar no avião para os jogos de oitavas de final e semifinal. Uma vantagem tremenda, que permitiria treinar mais e recuperar melhor atletas na fase aguda do torneio.

Jornalista é um povo reclamão. Estamos sempre buscando defeitos, e não vejo isso como algo ruim. Exemplo: na reformada Granja Comary, as condições para o trabalho dos jornalistas melhoraram bastante em relação à estrutura anterior.

Mas, em vez de um grande lounge com barbearia, máquinas de lavar roupas e máquinas de café e chá gelado (viva os patrocinadores!), seria bem mais útil termos água e comida para comprar e mesas para trabalhar. Mais banheiros tampouco estaria mal.

A sala de coletiva é grande e boa. Mas, oras, por que seguimos do mesmo jeito que na Copa de 2010? Onde estão as zonas mistas, onde podíamos conversar com todos os jogadores, apurar histórias diferentes, fazer jornalismo, enfim?

Tudo melhorou, mas reclamamos.

Colocar em cheque a escolha da Granja Comary, no entanto, tem pouco dessa veia reclamona da profissão. Tem a ver com o que observamos por aí, com o que vimos na Copa das Confederações e com o discurso que conhecemos bem - em regra, derrotas ou mau jogos vêm acompanhados do "estava muito quente", "muito frio", "muito úmido", "muito alto", muito isso, muito aquilo.

A CBF poderia ter escolhido qualquer lugar do Brasil para receber a seleção e preparar uma sede com instalações ótimas. Qualquer um. Mas cá estamos em Teresópolis. Cidade que pouco tem a ver com o Brasil que pulsa lá no pé da serra.

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