Champions League: PSG tem ‘sangue nos olhos’ que ainda falta ao City

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Image caption Jogadores do PSG comemoram vitória em jogo contra Chelsea

Três meses atrás, quando o sorteio emparelhou os classificados às oitavas de final da Champions League, eu dizia: "City e PSG têm a revanche e a chance de dizer a que vieram". Os dois "novos-ricos" do futebol europeu enfrentariam, pela segunda temporada seguida, Barcelona e Chelsea no mata-mata. E o que vimos? Um andou para frente. O outro, para trás.

O Paris Saint-Germain deu um passo importante em sua história, enquanto o Manchester City segue esperando que o sucesso venha até ele. No esporte, como na vida, desconfio que seja mais fácil buscar o sucesso do que esperá-lo sentado.

Se dividirmos a história do futebol em eras, os livros nos contarão que lá pelo fim dos anos 1990, início dos anos 2000, começou a era atual. A que vemos na TV. A era da globalização, dos times multinacionais, das enormes quantidades de dinheiro, do domínio absoluto do futebol europeu, centralizando tudo o que há de bom no futebol. E, claro, dos investimentos, incluindo compras de agremiações por magnatas de variados lugares do planeta.

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O Chelsea talvez tenha sido o mais famoso dos "novos-ricos". Um time tradicionalíssimo de Londres, com torcida, história e uma longa seca de títulos. O Chelsea demorou dez anos, praticamente, para cumprir o ciclo que todos sonham. Comprou jogadores, vendeu, trocou, gastou, começou a se classificar constantemente para a Champions League, ameaçou ganhar a liga doméstica, ganhou a liga doméstica uma vez, duas, mais, começou a ameaçar na Champions, perdeu, perdeu, perdeu, ganhou de grandes, perdeu decisão e, afinal, conquistou o título europeu. Hoje, é respeitado. Mudou de patamar.

PSG e City são os outros "novos-ricos" que seguem os passos do Chelsea. Times tradicionais, de camisa, de torcida, de história, mas de pouca importância nos maiores cenários do continente.

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O time de Paris conseguiu dar o passo a mais em 2015. É um passo que não será esquecido, o momento em que o PSG deixou de ser coadjuvante para ser protagonista. Na listinha que usei para o Chelsea ali acima, o item "ganhou de grandes" acaba de ser acompanhado por um visto na lista de tarefas do clube francês.

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Image caption "City, nestes quatro anos, fez muito pouco do que é necessário para se transformar em um time que verdadeiramente briga"

Vai ser campeão? Pode ser. Vai perder nas quartas? Pode ser. Se perder logo na próxima fase, não muda nada. A partir de agora, da heroica classificação em Stamford Bridge contra o melhor time da melhor liga, o PSG mostrou a que veio. Mostrou que pode. Vai ter momentos melhores, piores, jogadores chegarão, sairão, mas o fato é que o PSG deu o passo a mais que precisava dar. E os outros virão, a seu tempo.

O mesmo não se pode dizer do Manchester City. Foram dois títulos domésticos, mas não dá para não se surpreender com a impressionante apatia em todas as Champions Leagues disputadas na fase "rica" do ex-primo pobre de Manchester.

Na primeira vez, 2011/12, caiu na fase de grupos. Na segunda, 2012/13, nenhuma vitória e eliminação na fase de grupos novamente. Na terceira, ano passado, vaga para as oitavas e derrota para o Barcelona. Nesta temporada, era a hora do passo a mais. Mas a classificação na fase de grupos já foi dramática e, nas oitavas, o City não deu nem pro cheiro contra o Barça.

A impressão é que esse grupo de jogadores, que é fundamentalmente o mesmo ao longo dos anos, acredita mesmo no discurso do ciclo, que eu fiz acima e que mais gente já fez. "As coisas vão acontecer naturalmente, conforme os anos passem. O City naturalmente vai dar os passos que são esperados dele."

Mas, senhores... tenho uma novidade. As coisas não caem do céu! É preciso batalhar, brigar, morder, querer. E o City, nestes quatro anos de Champions League, fez muito pouco do que é necessário para se transformar em um time que verdadeiramente briga por coisas grandes.

Não estou falando apenas de resultados. Mas de atitude, de sangue nos olhos.

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Exemplo prático para comparação: O que fez o PSG em Londres após a expulsão de Ibrahimovic. O que (não) fez o City em Barcelona após o pênalti perdido por Aguero.

Independente do que aconteça daqui até setembro, quando a próxima Champions League começar, o Paris será um dos candidatos ao próximo título europeu. O City, não.

E o que teremos pela frente na atual Champions, que afunila?

São três grupos: Bayern de Munique, Real Madrid e Barcelona, os favoritaços. Paris Saint-Germain, Atlético de Madri e Juventus, os que podem, no meu ponto de vista, ganhar de qualquer um. Mas que estão abaixo dos três primeiros em alguns aspectos. E Monaco e Porto, que são os mais fracos, ainda que tenham muitos méritos por terem chegado até aqui.

Ao longo de 2015, o Real Madrid derrapou e sofreu para se classificar no que parecia o duelo mais tranquilo, contra o Schalke 04. Já o Barcelona se fortaleceu e encontrou um novo meio de jogar futebol. Que não abre mão da posse de bola, mas tampouco abdica de acelerar o jogo e aproveitar o trio de ataque mais forte do mundo: Neymar, Suárez e um renovado Messi, que voltou a jogar pela direita - onde começou, lá atrás, em 2005, com Rijkaard. O Real, campeão europeu, foi alcançado pelo Barça em uma questão de meses. Mas ambos continuam um pouquinho atrás do super Bayern, de Guardiola.

O Atlético de Madri não foi campeão por segundos em Lisboa. Ninguém pode duvidar desse time. Sim, perdeu um goleiro e um atacante monstros, está perdendo pontos na Espanha que normalmente já deveria ter perdido ano passado, não fosse a tarefa hercúlea que precisava cumprir para ser campeão. Mas, ainda assim, merece crédito. Do PSG, já falamos.

E aí tem a Juventus. A maior campeã da Itália não chega à final europeia há 12 anos. Passou por muitas e boas neste período e foi a grande decepção da Champions passada. Mas tem uma camisa pesadíssima. Um time completo, um atacante fenomenal. Eu nunca duvidarei desta senhora.