Na Champions, o inimaginável. Um dérbi que o Atlético queria, o Real, não

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Image caption Atlético de Madri deixou de ser o 'loser' nos confrontos contra o rival Real

Os "pupas". Esse era o apelido do Atlético de Madri quando eu vivia na Espanha. Há várias traduções aplicáveis para "pupas". Eu acho que a que melhor explica é um termo em inglês: "loser". O perdedor nato. Que pode ter lá seus momentos de alegria mas, fundamentalmente, na hora H, vai decepcionar. E da pior maneira possível. Dando aquela entregada, tendo o gosto da vitória na boca, achando que "hoje, sim" quando, na verdade, sua vida é um eterno "hoje, não".

Desnecessário dizer que ninguém mais chama o Atlético de Madri de "pupas" por lá.

Nesta sexta, o sorteio colocou Real Madrid e Atlético de Madri frente a frente nas quartas-de-final da Champions League, o mais importante torneio interclubes do futebol mundial. É a reedição da última finalíssima. É um dérbi da atual "capital" da bola. E, acreditem. O Atlético está muito, mas muito, mas muito mais feliz que o Real Madrid com o sorteio.

Isso era inimaginável até cinco anos atrás, quando pegar o Real era sinônimo de derrota, sofrimento e humilhação. Mas tudo começou a mudar em 23 de dezembro de 2011, quando Diego Simeone assumiu o comando do time em que tinha jogado e sido campeão, no último momento de glória nacional, no doblete de 15 anos antes.

Já no primeiro ano, Simeone levou o Atlético ao título da Europa League. Parecia ser o máximo que o Atleti poderia atingir. Mas eles foram muito além disso. Meteram 4 no Chelsea na Supercopa europeia, em 2012. No ano seguinte, ganharam a Copa do Rei em cima do Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu, chutando para longe todos os seus fantasmas. E, um ano depois, o Atlético foi campeão espanhol, desbancando não só o Real, mas o Barcelona, donos absolutos da Liga em tempos recentes.

Entre março do ano 2000 e abril de 2013, Real Madrid e Atlético de Madri se enfrentaram 25 vezes. Foram 19 vitórias do Real, 6 empates e nenhuma do Atlético. Desde maio de 2013, desde aquela vitória na final da Copa do Rei, no Bernabéu: 6 vitórias do Atlético, 3 do Real e 3 empates. Os números ilustram bem como a coisa mudou.

Quer mais? Na atual temporada, a 2014/2015, foram seis jogos entre eles (Liga, Copa do Rei, Supercopa da Espanha). Nenhuma vitória do Real Madrid. O último confronto foi em fevereiro, e o Atlético meteu 4 a 0. Só isso.

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Image caption Diego Simeone conseguiu levar o Atlético a outro patamar

A última vez que o Real ganhou do Atlético foi justamente na final do ano passado da Champions League, em Lisboa. O jogo que o Atlético vencia até os acréscimos, quando Sergio Ramos empatou para o Real. Na prorrogação, o Real fez mais três contra um rival devastado fisicamente e chegou à tão sonhada Décima.

Naquela noite, em Lisboa, parecia que o encanto tinha se quebrado. Que, depois de dois anos, o Real voltava a ser "o papai", o Atlético, o "pupas". Mas aí vieram esses seis jogos da temporada atual…

Hoje, o Atlético de Madri vive certa instabilidade na liga espanhola. Mas segue sendo um time com as mesmas características desses anos todos, a digital de Simeone. Muita briga, solidez defensiva, intensidade, organização tática, verticalidade. O time perdeu Diego Costa, Courtois, Filipe Luís. E segue forte, contra todos os prognósticos.

O Real Madrid voou em determinado momento da temporada, mas as coisas começaram a mudar justamente após a eliminação para o Atlético na Copa do Rei, em janeiro, e os 4 a 0 de fevereiro. Desde então, o Real perdeu a liderança da Liga para o Barcelona, perdeu do Schalke 04 nas oitavas de final, em casa (ainda assim, avançou), e vem sendo constantemente vaiado pelos próprios torcedores.

O confronto contra o Atlético é o pior dos cenários para o Real Madrid. Pouco a ganhar, muito mais a perder.

Apesar da freguesia recente, exceto a final de Lisboa, que foi por um triz, o Real Madrid é, aos olhos do mundo, favorito. Para alguns, favoritaço. Ganhar do vizinho pobre e "coitadinho" é apenas obrigação. Perder, humilhação.

Alguns jornalistas espanhóis ligados ao Real já especulam até o seguinte: se perder o clássico para o Barcelona, domingo, ficando quatro pontos atrás na classificação, terá de "abdicar" da competição doméstica para focar na Champions e não perder do Atlético. Duvido que o clube pense assim. Mas já tem gente falando.

Para o Atlético, por outro lado, é o melhor dos cenários. Em um momento em que as coisas não estão dando tão certo, é possível descansar jogadores no Espanhol e focar todas as atenções para os duelos de abril contra o maior rival. Se perder, problema algum. "Normal". Mas, se ganhar…

Era tudo o que Simeone queria, segundo interlocutores. Enfrentar logo o Real Madrid em um momento de instabilidade dos dois, jogando toda a responsabilidade para o outro lado, que vai precisar superar, antes até do plano tático, o bloqueio mental que tem significado jogar contra o Atlético.

"O Madrid é um grande rival. Como os outros sete seriam", foi o que disse Simeone. Meio que dando de ombros. Medo algum no olhar. "Poderia ser melhor, poderia ser pior", disse Butragueño, diretor do Real Madrid.

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Image caption Cristiano Ronaldo é uma das armas do Real Madrid contra o Atlético

Pior? Só se fosse o Bayern. Mas opa, o Real meteu 4 no Bayern ano passado. Será mesmo que haveria sorteio pior? "Somos o Madrid", completou el Buitre. É nisso que o Real vai ter de se apegar daqui para frente, no peso da camisa. Pelo menos no discurso.

Neste momento, até mesmo a "vantagem" de jogar a segunda partida em casa me parece mais uma desvantagem para o Real Madrid. A torcida não costuma ter um papel tão relevante assim no Bernabéu, muitas vezes a pressão mais atrapalha do que ajuda. E se tiver de buscar o resultado? E se não tiver conseguido fazer um gol na ida, no Calderón?

Eu vou na contra mão da maioria. Não vejo favoritismo algum para o Real Madrid. É um confronto 50-50.

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Outros jogos

Além deste Atlético e Real, temos mais um duelo de times que poderiam estar na final. Paris Saint-Germain e Barcelona.

Os dois já se enfrentaram na fase de grupos, e o Paris ganhou a primeira partida e esteve a ponto de beliscar a primeira posição do grupo. Como já escrevi, o PSG deu um passo à frente em sua história com a épica eliminação imposta ao Chelsea em Londres. Passou a acreditar que pode, algo fundamental em competições como a Champions

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Image caption O trio Suárez, Messi e Neymar está em grande fase no Barcelona

O Barça, por outro lado, vive seu melhor momento na temporada, que pode ser potencializado se uma vitória sobre o Real der a folga necessária na tabela do Espanhol. Messi, após duas temporadas abaixo do nível que conhecíamos, parece estar voltando a ser Messi. E ele tem "só" Neymar e Suárez ao lado.

O Barcelona é favorito contra o PSG. Mas não tanto como são Bayern de Munique, que pega o Porto (reedição da final de 87), e a Juventus, que pega o Monaco (que todos queriam no sorteio).

A Juve perdeu Pogba, machucado, mas tem Tevez. Pode voltar a uma semifinal pela primeira vez em 12 anos. Cada vez mais, é necessário ter o olho muito aberto para essa velha senhora, que está de volta. E o Bayern… bem. É o Bayern. Ninguém é mais forte hoje em dia.