Copa América: o enésimo recado para nos mostrar que está tudo errado

AFP Direito de imagem AFP

Dois anos atrás, a família estava reunida na minha casa. Era um domingo, final da Copa das Confederações, e não poderia faltar um bolão. Lembro que só um ou dois colocaram vitória da Espanha naquele jogo - eu fui um deles. De resto, era tudo Brasil na cabeça. Não era novidade. Era a tônica dos bolões dos quais eu havia participado com a seleção brasileira em campo, durante a vida toda.

Pode ser que as pessoas apostassem na seleção apenas para torcer? Pode. Mas desconfio que o pessoal não goste de perder dinheiro assim à toa. O fato é que apostar no Brasil sempre foi estatisticamente uma boa. Apostar no Brasil, os números mostram, significava ter uma chance maior de acerto do que apostar contra o Brasil.

Neste sabadão, 27 de junho, a família estava novamente reunida em peso. E tinha jogo do Brasil à tarde. Bolão, claro!

Vejam que interessante. Dos 16 palpites, metade eram por empate ou vitória do Paraguai. E tem mais. No passado, sempre pedíamos aos apostadores os autores dos gols, para efeito de desempate. Desta vez, não teve como. “Ninguém conhece os jogadores do Paraguai”, disse um. “Na verdade ninguém conhece nem os do Brasil”, gritou outro do outro lado da sala…

São pequenas historietas como essa, verídicas, que vão nos mostrando no que se transformou a seleção brasileira. Cada vez menos gente confia nela. E poucos conhecem quem joga nela.

Ser eliminado da Copa América pelo Paraguai, nos pênaltis, é uma vergonha? Não. Não é. Basta olhar para o que fez o Brasil ao longo da competição. Basta olhar para as últimas décadas.

Muita gente acha que é vergonhoso, o que já nos dá o indício das razões por que o futebol brasileiro segue a firme trajetória ladeira abaixo. As pessoas não acordam. Não descem no salto.

Direito de imagem AFP

O futebol está nivelado e globalizado faz tempo, são poucos os times e seleções contra quem perder possa ser considerado uma vergonha.

O Paraguai é um país que merece ser respeitado no futebol faz tempo. Sem ir muito longe, tem um representante na semifinal da Libertadores da América, que acaba de eliminar Corinthians e Racing no caminho. Voltando um pouquinho, foi a seleção que mais perto chegou de eliminar a Espanha naquela Copa de 2010, na África (nas quartas de final, mesma fase em que o Brasil foi eliminado).

Hoje, não é tão forte como já foi. Mas o mesmo serve para a seleção.

Em 2011, o Paraguai já havia eliminado o Brasil da Copa América. Por que não poderia repetir a dose, como repetiu?

Acontece que um século de superioridade e um discurso que atualmente não tem sentido fizeram o Brasil ser sempre favorito contra seleções como a paraguaia. O status quo quer continuar tentando convencer as pessoas sobre uma força que não mais existe.

Os recados estão aí. Foram dados ao longo dos últimos 15 anos. Derrotas para seleções de quem o Brasil nunca havia perdido. Times brasileiros enfrentando europeus como zebras absolutas, assumindo a incrível inferioridade jogando por uma ou duas bolas. Número paulatinamente reduzido de jogadores brasileiros com papel de protagonista em grandes clubes da Europa. Fracasso retumbante de treinadores brasileiros lá fora. Campeonatos domésticos cada vez piores e atraindo menos interesse. Entidades que comandam o futebol, nacional ou localmente, afundadas nas mãos de pessoas que pouco fazem por ele. E, claro, o recado dos recados: o 7 a 1.

O status quo quer convencer todo mundo que “o problema da seleção é uma geração ruim de jogadores”. É passageiro. Logo logo aparecem outros craques. Logo logo os títulos voltam.

Direito de imagem Reuters

A cada vitória em amistoso (!!) vinha a história de “superação dos 7 a 1”. Como se houvesse qualquer possibilidade de superar os 7 a 1 um dia na história…

O que poucos querem é discutir a fundo o futebol brasileiro, colocar o dedo na ferida de verdade. A tal “geração” que será mais e mais detonada nada mais é do que um reflexo do que aconteceu nas últimas décadas.

Assim como a geração alemã não é fruto da sorte e, sim, de um trabalho fantástico de base iniciado há 15 anos, a brasileira não é fruto de azar. E, se nada mudar, a próxima será pior. O temor de jogar conta o Brasil, esse já não existe mais. Nenhuma outra seleção entra em campo já perdendo de 3 a 0, como acontecia. O que pode ser perdida também é a competitividade do Brasil, que ainda existe, inegavelmente.

O futebol deste país sentou nas glórias do passado, não se preocupou em estudar o que estava acontecendo em outros lugares, tem uma CBF especialista em concentrar recursos, em vez de distribui-los, um país que só olha para resultados e vive de heróis e vilões. Trata de resumir vitórias à genialidade de alguém ou as derrotas ao erro deste ou aquele outro.

É impressionante, mas a ficha não cai. Basta olhar as declarações de dirigentes, técnicos, ex-técnicos que hoje comentam, ex-jogadores, jogadores, tantos jornalistas, tantos torcedores. A ficha não cai.

Por que Neymar pode passar uma temporada inteira metendo gols no Barcelona em lances de apenas um toque na bola, sem drible algum, mas na seleção precisa resolver tudo sozinho? Por que Neymar é apenas mais um na Europa e aqui transforma-se em um menino mimado e explosivo? Por que Neymar não pode ser apenas profissional, em vez de salvador da pátria?

Direito de imagem Reuters

Quando, afinal, o Brasil perceberá que o jogo de futebol é coletivo? Que indivíduos devem estar a serviço de um grupo, e não ao contrário? Que nas bases o importante é fomentar conceitos de educação e vida e de jogo em sociedade, em vez de ficar garimpando a pepita que pode te dar o título de um sub-17 qualquer? Que torcedor e mídia precisam ter mais olhos para o que é bem e mal feito, em vez de julgar apenas resultados?

É claro que há luz no fim do túnel. Há paixão. Há matéria prima disponível, pois o futebol segue e seguirá sendo uma rota de fuga para garotos que poucas possibilidades têm na vida. Há talento, ainda que cada vez menos lapidado e dependente de aprendizado básico no futebol europeu. Há técnicos mais novos, com outra cabeça e um pouco mais de humildade, tentando aplicar outros conceitos. Há jogadores já consagrados dispostos a mudar as coisas em Brasília. Até o FBI está disposto a ajudar o futebol brasileiro.

A luz no fim do túnel está lá.

Mas é necessário chegar até ela. E essa Copa América bastante ruim dentro de campo e vergonhosa fora dele, é apenas mais um recado. Mais um, nessa lista que está ficando enorme.

O Brasil está parado no tempo há 30 anos, e duas Copas a mais não mudam essa triste verdade. Precisa mudar tudo no futebol. Não para voltar a dominar, porque isso só aconteceu em um momento específico da história, 50 anos atrás, quando poucas nações jogavam bola. Mas para voltar a provocar temor nos adversários, para voltar a disputar títulos de verdade e para voltar a ter o mais importante de tudo: identificação, carinho e confiança por parte dos seus torcedores.

Tem gente que acha que as eliminatórias sul-americanas são uma baba. Afinal, entram 4 de 10, e o quinto ainda joga uma repescagem. Não será uma baba. Será que o Brasil precisa ficar fora de uma Copa para a ficha cair de vez?