Delação de Sérgio Machado impede recomposição da elite política, diz ex-advogado-geral da União

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Image caption Luís Inácio Adams: "elite política apostou que saída de Dilma aliviaria crise, o que não ocorreu"

A delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, que disse ter repassado propina a mais de 20 políticos de diferentes partidos, é um fator novo que está impedindo a reorganização da elite política após o afastamento de Dilma Rousseff, afirmou o ex-advogado-geral da União Luís Inácio Adams.

"Nossa elite política, em que pese todos os problemas, também é capaz de produzir resultados em momentos de crise. A elite política apostou que a saída da Dilma iria aliviar a crise: entra o (presidente interino Michel) Temer, ele recompõe o establishment, e isso não esta acontecendo. Sérgio Machado impediu isso de acontecer com a delação dele", disse Adams, após participar de mesa nesta sexta-feira no seminário Brazil Forum 2016, na London School of Economics, na capital britânica.

Machado teve o PMDB como fiador político de sua indicação à Transpetro e envolveu, em declarações a investigadores da operação Lava Jato, diversos integrantes da cúpula do partido - entre eles o presidente do Senado, Renan Calheiros, e o próprio presidente interino, Michel Temer. Ambos negam veementemente as acusações.

O ex-executivo também implicou políticos de partidos como PT, DEM, PSDB, PC do B e PP.

Para Adams - titular da AGU de 2009 até fevereiro deste ano, quando foi substituído por José Eduardo Cardozo (que hoje atua como advogado de Dilma) -, o diagnóstico que atribui à presidente afastada toda a responsabilidade política pela crise se enfraquece diante dos atuais desdobramentos da Lava Jato.

"Tentou se jogar sobre Dilma a responsabilidade política pela crise. Não respeitou responsabilidade fiscal, aprofundou crise econômica, não soube conduzir o processo da relação com Congresso - em suma: todo o ônus desse processo. Isso não está se confirmando", opinou.

O ex-advogado geral da União, que passará a se dedicar à iniciativa privada, será testemunha de defesa da presidente afastada no processo de impeachment no Senado. Disse que apresentará "um testemunho técnico" sobre a legalidade das chamadas "pedaladas fiscais", base do pedido de impeachment.

Adams também criticou a decisão da nova direção da AGU, que abriu sindicância para apurar a atuação de Cardozo - o objeto seria um suposto desvio de finalidade, por uso do órgão para "defender pedaladas como política de Estado" e classificado o impeachment como "golpe".

"Não precisava. Cardozo cumpriu o papel dele naquele momento. O advogado-geral é um advogado de parte, e defende (a presidente) em um processo de impeachment. Pode-se discordar ou concordar com os argumentos, mas isso faz parte do papel dele", afirmou.

'Melhor momento' da democracia

Em sua participação no painel, que teve como tema "Como reconciliar a governabilidade e as demandas da sociedade", Adams disse considerar que a democracia viva seu "melhor momento" no Brasil.

Para o ex-AGU, a participação política, com manifestações de peso, é o que dá força à democracia hoje, a despeito da crise de representação política que disse existir.

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Image caption Painel com participação de ex-ministro discutiu formas de reconciliação entre governabilidade e demandas da sociedade

Em linha com os demais participantes, Adams apontou a pulverização política, com a multiplicação de partidos, como um dos sintomas dessa crise de representação.

Afirmou ainda que o modelo atual de representação reflete a herança de padrões antigos na história do Brasil, que privilegiam formas intervencionistas e tutelares de ação do Estado.

Debate

Professora de sociologia na City University de Londres, Carolina Matos citou, entre as causas da crise atual, o que identifica como "autoritarismo na sociedade" e a "desilusão com a democracia".

Disse que o desafio colocado ao país agora é a recuperação de um modelo de consenso - tarefa que, para ela, pressupõe maior participação da sociedade civil e uma reforma política, entre outros pontos.

Comentando a polarização atual no Brasil, o filósofo e articulista Luís Felipe Pondé criticou o que definiu como "moralização do debate público" e o chamado "populismo na educação", tendências que segundo ele desqualificariam o pensamento liberal, pró-mercado.

"A grande herança da ditadura foi a destruição da possibilidade de pensamento que não fosse identificado como de esquerda", disse.

Marcus André Melo, professor de ciência política na Universidade Federal de Pernambuco, identificou o Brasil em meio ao que chamou de "tempestade perfeita", rara combinação de recessão econômica, fratura na base governista, escândalo de corrupção e descontentamento popular.

Afirmou, contudo, ser "otimista a longo prazo" e destacou a maior proeminência da corrupção entre as preocupações dos brasileiros, que estariam mais dispostos a punir políticos corruptos nas urnas.

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