Pesquisadora americana diz que abordagem de seguranças do caso Lochte 'seria diferente se fossem meninos da favela'

Nadadores americanos desembarcam nos Estados Unidos Direito de imagem Getty Images
Image caption Nadadores americanos confirmaram imprecisões em depoimento sobre susposto roubo à mão armada ocorrido na madrugada do último domingo

O desfecho da ação dos seguranças privados que abordaram e apontaram armas para quatro nadadores americanos após uma confusão em um posto de gasolina no Rio teria sido diferente se os protagonistas fossem garotos de uma comunidade pobre.

A avaliação é da antropóloga americana Erika Robb Larkins.

"No Brasil, puxa-se uma arma muito fácil", diz Erika, que também é professora-assistente da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos.

Ela lembra que a segurança privada existe para proteger patrimônio privado, e somente nestas situações está habilitada a agir.

"O segmento de segurança privada tem outros fins, diferentes do da segurança pública. Estamos falando de proteção ao patrimônio privado", ressalta.

Ela diz que o setor cresceu a reboque do medo disseminado na sociedade brasileira, "principalmente pela mídia", o que explicaria também o uso indiscriminado de armas de fogo.

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Image caption Ryan Lochte pediu desculpas por confusão que ele e outros nadadores americanos causaram no Rio

"O nível de medo é alto e tem impacto nas relações sociais", assinala.

De acordo com pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o setor de segurança equivale a 3,7% do Produto Interno Bruto Brasileiro, o PIB, conjunto de todas as riquezas produzidas no país.

Para Erika, embora a reação dos seguranças tenha sido correta, no sentido de proteger o patrimônio privado, a situação seria diferente se o mesmo problema tivesse sido provocado por adolescentes de uma comunidade pobre, negros, e não por estrangeiros.

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Image caption "No Brasil, puxa-se uma arma muito fácil", diz Erika Robb Larkins

"Se não fossem americanos, de olhos azuis, o resultado poderia ser outro, até uma tragédia", avalia ela, que acompanhou de perto, durante dois anos, a formação de vigilantes no Brasil, como parte se sua pesquisa na Universidade de Oklahoma.

Larkins é autora do livro "The Spectacular Favela ─ Violence in Modern Brazil" (Favela Espetacular ─ A Violência no Brasil Moderno, em tradução livre) sobre o uso dos conflitos armados nas comunidades pobres do Rio como mercadoria para consumo pela mídia. Ela agora prepara uma nova obra sobre o impacto da segurança privada na sociedade brasileira.

A pesquisadora lembra que a maior parte da segurança privada não é feita por policiais, mas por vigilantes treinados.

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Image caption Justiça chegou a pedir apreensão de passaportes de nadadores

De acordo com a lei brasileira, as empresas de vigilância devem ter registro na Polícia Federal e pedir o porte de armas para seus profissionais. Os vigilantes têm ainda que passar por exames psicotécnicos.

Ainda assim, Larkins afirma que o nível educacional dos profissionais é muito baixo, assim como os salários.

"Há uma ideia de que muitos policiais trabalham na área de vigilância, mas a maior parte dos policiais envolvidos está na diretoria das empresas ou são donos delas", diz. "Mas o mercado informal no setor é grande, o que merece atenção".

Em seu novo estudo, Erika examinou por dois anos como a segurança privada atua em diferentes áreas da cidade, e de acordo com o público atendido.

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