'Ninguém está representando aqui', diz Cardozo sobre choro

Janaína Paschoal e José Eduardo Cardozo saíram do Plenário com lágrimas nos olhos Direito de imagem AGPT
Image caption Janaína Paschoal e José Eduardo Cardozo saíram do Plenário com lágrimas nos olhos

No penúltimo dia de julgamento do processo de impeachment de Dilma Rousseff no Senado, os ânimos dos advogados dos dois lados ficaram exaltados ao final de suas declarações. Tanto Janaína Paschoal, a primeira a ter direito de fala como advogada de acusação - e uma das autoras do processo que pede o afastamento da presidente -, quanto José Eduardo Cardozo, advogado da petista, deixaram o Plenário com lágrimas nos olhos.

O ex-ministro se emocionou ao falar sobre a honra de Dilma e disse que esta foi apenas a segunda vez que se emocionou no exercício da profissão - a última havia sido há 30 anos.

"Houve outro momento em que isso aconteceu na minha vida. Foi quando eu estava numa reintegração de posse, eu tinha certeza de que estava com a razão", disse a jornalistas na entrada do Senado.

"Foi em uma favela e a decisão judicial foi muito arbitrária. Eu não escondi minha emoção", afirmou. "Isso foi em 1986. Eu ganhei em primeira instância. Eu estava certo. O desembargador me disse que eu estava certo. Mas falou: 'este é um bairro rico, não dá para ter uma favela aqui'".

Nesta terça-feira, o advogado de defesa de Dilma Rousseff disse ter chorado "pela luta daquilo que acha justo". A emoção foi motivada principalmente por uma frase de Janaína Paschoal.

Direito de imagem Agência Senado
Image caption Dilma fez seu discurso de defesa no Senado na segunda-feira

"Eu peço desculpas porque eu sei que a situação que ela está vivendo não é fácil. Eu peço desculpas porque eu sei que, muito embora esse não fosse o meu objetivo, eu lhe causei sofrimento. E peço que ela um dia entenda que eu fiz isso pensando também nos netos dela", afirmou a advogada de acusação, também com lágrimas nos olhos, durante a sessão do julgamento, na manhã desta terça-feira.

Cardozo reagiu. "Eu acho inadmissível alguém pedir a condenação e dizer que o faz pelos netos dessa pessoa. Eu não posso aceitar isso."

"Em situações de injustiça com pessoas que você conhece, é impossível que você não fique indignado. No dia em que as pessoas perderem a sua capacidade de indignar, elas acabam se desumanizando. Eu não pretendo que isso aconteça comigo."

Durante a conversa com jornalistas, Cardozo recebeu uma ligação de Dilma Rousseff. "Chorou, hein?", disse a presidente, em tom de brincadeira, na primeira conversa após a defesa do advogado. Segundo o ex-ministro, Dilma elogiou e agradeceu pela fala dele.

'Teatro'

Questionada sobre a reação de Cardozo a suas afirmações, Janaína Paschoal classificou o episódio como "teatro".

"Pelo que conheço deles todos, é um teatro. Eles são muito articulados. Ele se emocionou? Pode até ser que sim, ele está nessa causa e não é fácil", afirmou.

Cardozo novamente respondeu aos comentários a jornalistas. "É muito importante que se saiba que ninguém está representando aqui. É a luta pelo que acreditamos, pelo que achamos justo."

Direito de imagem BBC Brasil
Image caption 'É próprio do ser humano se emocionar com injustiças', disse Cardozo

"É próprio do ser humano se emocionar com injustiças", prosseguiu Cardozo. "Toda vez que você se sente injustiçado, você extravasa."

A jornalistas, a advogada Janaina Paschoal disse que não se excedeu ao citar os netos da presidente afastada.

"Vocês podem ter ficado indignados, o doutor Cardozo pode ter ficado indignado, até a presidente pode ter ficado indignada. Mas a opinião de cada ser tem de ser respeitada. Não estou brigando para dizer que estou certa, falei o que estava sentindo", afirmou.