Cidade que se uniu com vitórias ajudará Chapecoense a se reerguer, diz torcedor

Torcedores da Chapecoense Direito de imagem AFP
Image caption Jornalistas que acompanham time dizem que Chapecoense mudou clima da cidade

Uma cidade de pouco mais de 200 mil habitantes que ganhou repercussão nacional por causa do sucesso recente de um, até então, discreto clube de futebol.

Chapecó é considerada a capital do Oeste Catarinense e da agroindústria brasileira, mas foi a Chapecoense, time que surgiu há apenas 43 anos, que projetou a região para o país inteiro.

Antes da ascensão da equipe, ocorrida na última década, outros clubes do Sul do país dominavam a preferência dos torcedores da cidade - divididos principalmente entre gremistas e colorados.

Mas a partir de 2009, quando a Chapecoense passou a disputar a Série D, quarta e última divisão do Campeonato Brasileiro, a relação dos moradores da região com o futebol se transformou completamente, contou à BBC Brasil Audrei Piccini, jornalista local e torcedor do time desde criança.

"A cidade respira a Chapecoense hoje em dia. O clube mudou a rotina dos moradores aqui, criou um clima difícil de descrever", diz.

"Antes, a cidade era dividida entre torcedores do Grêmio e do Internacional, até pela proximidade com o Sul e com Porto Alegre. Mas hoje isso não acontece mais, todo mundo virou torcedor da Chapecoense."

Nesta terça-feira, porém, a cidade amanheceu de luto após a tragédia que matou pelo menos 71 pessoas, segundo a Polícia do Departamento (equivalente aos nossos Estados) colombiano de Antióquia, com o avião que seguia para Medellín, onde o clube disputaria uma inédita final da Copa Sul-Americana.

Direito de imagem Rodrigo Gourlart, Diário do Iguaçu
Image caption Time surgiu há 43 anos e chegou elite do futebol brasileiro em 2014

Os moradores, que estavam ansiosos para protagonizar o momento ápice do clube, disputando um título internacional contra o atual campeão da Libertadores, agora estão em choque com a notícia da morte da grande maioria dos 22 jogadores que viajavam, do técnico e de boa parte da diretoria responsável pelo auge do clube nos últimos anos.

"A cidade está sentindo muito tudo isso e vai sentir mais, porque tem uma ligação muito forte com o clube, com os jogadores. A ficha ainda não caiu. Isso vai ser lembrado para o resto da vida", disse Piccini, que acompanhou toda a trajetória de evolução do time desde a disputa da Série D até o acesso à primeira divisão do Campeonato Brasileiro, no fim de 2013, e a disputa da Sul-Americana.

Para o jornalista e torcedor, mais do que tristeza, a tragédia despertará um sentimento de solidariedade.

"Tenho certeza de que a cidade vai dar força para o clube se reconstruir, dar a volta por cima", diz.

"Tem que começar tudo do zero agora, porque todas as pessoas que faziam parte desse trabalho se foram. E o time era importante não só para quem é daqui, mas para a região toda do Oeste Catarinense. Mas as pessoas aqui são muito solidárias e acho que elas vão se unir ao clube para fazê-lo ressurgir nesse momento."

Direito de imagem Reuters
Image caption Torcedores se reuniram em frente ao estádio da cidade depois das notícias do acidente

Xodó

Até poucos anos atrás, a Chapecoense nem sequer disputava competições nacionais.

A rotina dos que se atreviam a ser torcedores fiéis do clube se resumia a acompanhar a equipe apenas por quatro meses ou menos no início do ano na disputa do Campeonato Catarinense.

Até havia algumas alegrias ali, como em 2007, quando o time foi campeão estadual pela terceira vez, após 11 anos de jejum.

Mas no restante do ano, a maioria dos fãs de futebol da cidade acompanhava outros times de maior impacto nacional, como o Grêmio e Internacional.

A história começou a mudar em 2009, quando a Chapecoense passou a disputar a Série D e logo foi ascendendo nas competições nacionais - subiu para a Série C (terceira divisão) naquele mesmo ano, depois para a Série B (segunda divisão) e finalmente para a elite do futebol brasileiro, que disputa desde 2014.

"Quando a Chapecoense começou a disputar a Série D, todo mundo começou a cobrar dos gremistas, dos colorados, que não era mais para ir ao estádio com outra camisa, que era para ir com a da Chapecoense. Alterou muito a rotina das pessoas que moram aqui", conta Piccini.

Rodrigo Goulart, jornalista do jornal Diário do Iguaçu, que cobre a Chapecoense há 15 anos, conta que o momento do acesso do time para a Série C foi o grande ponto de virada na relação dos torcedores com o clube - e o momento mais marcante do time, que daí em diante não parou mais de surpreender nas competições nacionais e até internacionais.

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Image caption Com sucesso recente do time, torcedores do país inteiro adotaram a equipe na disputa da Sul-Americana

"O primeiro acesso nacional foi o momento mais marcante. Em 2009, a primeira edição da Série D, a Chapecoense já na primeira chance subiu para Série C. Naquele jogo do acesso caiu granizo em Chapecó, o estádio estava cheio, ele não era tão grande na época, mas tinha lá 5 mil pessoas torcendo embaixo de granizo", conta.

"O gramado ficou branco, choveu pedra, os torcedores tentavam se proteger do jeito que dava, jogadores foram para o banco de reservas para se proteger. A Chapecoense perdeu de 1 a 0 para o Araguaia do Mato Grosso, mas conseguiu o acesso porque tinha vencido por 2 a 1 fora de casa. Eles esperaram 10 minutos para voltar o jogo por causa do granizo. A comemoração foi no barro, porque continuou chovendo, mas a festa foi enorme."

Daí em diante, foi praticamente "só alegria" para o torcedor da Chapecoense.

Se normalmente clubes de cidades menores costumam penar para permanecer na elite do futebol brasileiro, a equipe de Chapecó não saiu mais da Série A desde o acesso, em 2014.

Em 2015, o time passou a encantar até mesmo torcedores de fora de Santa Catarina ao chegar nas quartas de final da Sul-Americana, quando acabou perdendo para o tradicional River Plate, da Argentina.

Neste ano, voltou a surpreender ao eliminar times tradicionais do continente, como os argentinos Independiente - nos pênaltis, nas oitavas de final -, e o San Lorenzo, campeão da Libertadores em 2014 e conhecido como "time do Papa Francisco", chegando a uma final inédita.

Com esse sucesso recente do clube carinhosamente apelidado de Chape, torcedores do país inteiro "adotaram" a torcida pela equipe na final da Sul-Americana contra o Atlético Nacional, da Colômbia.

Após a tragédia, as manifestações em homenagem ao time vieram de todo o Brasil.

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Image caption Jornalista afirma que clube transformou rotina da cidade

"É bem complicado, porque além do clube, tem a história dos jogadores, da diretoria, todo mundo gosta muito dessa diretoria que trilhou toda essa trajetória de sucesso. Quando você imagina que todo mundo estava lá, todo mundo morreu, é uma situação muito triste. A gente foca no trabalho, na cobertura, não se dá conta do que está acontecendo", contou Piccini.

"O clube transformou a rotina da cidade. Teve um impacto enorme para todo mundo e agora será preciso ajudar a reerguer essa história."

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