O paulistano de classe média baixa que virou líder religioso na Índia – e guru de famosos no Brasil

Prem Baba
Image caption O líder espiritual Prem Baba completou 52 anos em novembro | Foto: Divulgação

Quem vê o líder religioso Sri Prem Baba – com sua enorme barba branca, roupas tradicionais indianas e a prática de ioga – nem imagina que ele não veio direto da Índia, mas do bairro da Aclimação, em São Paulo.

Nascido Janderson Fernandes de Oliveira, filho de uma família de classe média baixa e neto de uma benzedeira, o paulistano adotou o novo nome em 2002, depois de estudar com o mestre hindu Sri Raj Maharaj Ji na Índia - na cidade de Rishikesh, conhecida como a "capital mundial da ioga".

Hoje, reúne milhares de pessoas em eventos, é amigo de celebridades e se encontra com políticos – do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), ao governador do Acre, Tião Viana (PT).

"Estou revendo algumas escolhas minhas nesse sentido", diz ele, ao ser questionado sobre o assunto pela BBC Brasil na comemoração do seu aniversário de 52 anos, em novembro. Ele afirma que seus encontros e aparições públicas com nomes como Marina Silva (Rede) e Marconi Perillo (PSDB) não significam apoio.

Image caption O líder espiritual Sri Prem Baba se divide entre o Brasil e a Índia | Foto: Divulgação

"Infelizmente ainda é difícil pra alguns compreenderam o que eu estou fazendo. Então as pessoas acabam entendo como campanha. E não é nada disso, estou tentando abrir caminhos para compaixão na política", diz Prem Baba.

O líder têm se envolvido com alguns movimentos políticos que pregam renovação na política - como o Renova, que visa financiar candidatos - e o Agora!, que ficou conhecido após a filiação de Luciano Huck.

O Agora! tem, inclusive, diversos membros que são voluntários no grupo religioso de Prem Baba.

"Eu estava desanimado, tinha desistido da vida pública, de tentar mudar o mundo", conta um dos fundadores do Agora!, o economista Fabio Toreta. "Resolvi focar em mim, resolver meus problemas internos. Fui procurar meditação e depois que conheci o Prem Baba me deu vontade de agir novamente, trabalhar pela transformação."

Image caption O líder religioso é muito próximo de artistas como Bruna Lombardi | Foto: Divulgação

O líder diz ficar triste ao ver pessoas com quem se encontrou – como o senador Aécio Neves (PSDB) – envolvidas em escândalos de corrupção. "Quer dizer que (o encontro com ele) não funcionou... Ou então plantei a semente depois. Vai saber?", diz ele, algumas horas antes de uma palestra para uma plateia lotada.

A fala estava marcada para as 17h30, mas as vagas de estacionamento se esgotaram às 10 da manhã. Enquanto o mestre não chegava, diversos "vips" aguardavam no camarim para falar com ele. Voluntários do seu grupo, o Awaken Love, acendiam incensos e deixavam frutas lavadas.

A apresentadora da Globo Mariana Ferrão esperava meditando em uma salinha. Uma mulher – desconhecida dos assessores de Prem Baba – tentou se passar por jornalista para conseguir falar com ele.

"É normal, as pessoas fazem de tudo para chegar perto dele", diz uma assessora.

Vips e Havaí

Prem Baba se divide entre sua casa em São Paulo, o sítio na Chapada dos Veadeiros (GO) onde recebe seguidores e o centro espiritual que lidera na Índia. Quando está no Brasil, uma de suas principais atividades é também dar palestras em eventos – uma das mais recentes foi em Curitiba, onde foi convidado do Congresso da Felicidade.

Ele costuma atrair diversas pessoas conhecidas – como admiradores ou apenas por curiosidade. Já se encontrou com artistas como Reynaldo Gianechinni, Marina Ruy Barbosa, Juliana Paes e Marcio Garcia – além de celebridades internacionais como o ator Will Smith. Também é conhecido entre blogueiros e youtubers brasileiros.

É amigo próximo da atriz Bruna Lombardi – responsável por colocá-lo em contato com boa parte dos famosos tupiniquins. "A gente é muito amigo. Temos uma amizade próxima, uma visão parecida em relação à vida, os mesmos valores", diz ela. "Sempre apresento ele aos meus amigos. Faço jantares na minha casa e cada vez chamo um grupo diferente."

Bruna também tem um projeto voltado à espiritualidade e ao autoconhecimento, a Rede Felicidade – que ela estava montando quando conheceu Prem Baba: ele a convidou para um congresso no Havaí. "Eu não pude ir, mas meu filho foi e gostou muito", relata a atriz. "Depois disso mantivemos contato. Percebi que ambos temos essa vontade de atingir o maior número de pessoas e fazer diferença no mundo."

'Religião é palavra perigosa'

Nem todos os admiradores do líder espiritual se convertem ao hinduísmo, e ele diz que esse não é seu principal objetivo – e sim promover o espiritualismo, o amor e o autoconhecimento.

"Religião é uma palavra perigosa", diz, rindo. "Ela pode ser uma luz no caminho do ser humano quando envolve prioritariamente compaixão, bondade, amizade. Mas também pode ser um outro tipo de religião, uma criação da mente humana para atender uma necessidade social - como diz o sábio Durkheim" (Émile Durkheim foi um cientista social francês considerado um dos pais da sociologia).

"Nem sempre essa religião é espiritual. Nem sempre ela é mesmo ética! Muitas vezes se usa o nome de Deus para provocar guerra e gerar uma série de situações lamentáveis."

Sem citar nomes, ele critica grupos religiosos mais conservadores.

Image caption Prem Baba tem uma filha, Nuyt Ananda | Foto: Arquivo Pessoal

"Religiões que criam divisão, separam, criam rótulos e julgamentos são fermento para o sofrimento humano. Eu não tenho nada a ver com essas religiões. Até transitei por elas, mas não encontrei nenhuma resposta para o sofrimento", afirma.

Três casamentos e uma filha

Formando em psicologia, Prem Baba trabalhou quando jovem como office boy, funcionário de um frigorífico e professor de ioga. Casou-se (e se separou) três vezes. Estava em lua de mel na Índia com sua terceira mulher quando conheceu o guru Maharaj Ji, que o inspirou a seguir o caminho religioso. Mais tarde, sua mulher (hoje ex) também se converteu e trocou de nome de Mara Regina para Prem Mukti Mayi.

Foi com ela que o líder teve uma filha, Nuyth Ananda, que hoje tem 12 anos.

Um de seus passatempos favoritos é passear com a filha no shopping, onde abandona as vestes indianas e usa calça jeans e óculos escuros. Ele costuma dizer que continua sendo homem comum, apenas "desperto".

Image caption Quando está no Brasil, Prem Baba gosta de passear com a filha | Foto: Divulgação

Apesar de ter abandonado a vida de casado depois de avançar em sua trajetória religiosa, diz que é contra a "repressão sexual que algumas religiões acabam reforçando".

"A gente considera que um estado de celibato é um estado de florescimento. Em certo momento, toda a energia se volta pra espiritualidade", afirma. "Mas é um fenômeno natural, não existe proibição. A pessoa brincou com um brinquedo suficientemente e perdeu a vontade de brincar."

Afinal, diz, "tudo aquilo que é proibido acaba sendo mais desejado". "A questão da repressão sexual está muito relacionada à violência, às dificuldades na mente", afirma ele, que destaca o assunto amor e energia sexual em um de seus livros, Amar e Ser Livre.

Espiritualidade para quem?

Para ajudar a espalhar sua mensagem, Prem Baba dá palestras e realiza dezenas de encontros gratuitos. Mas os retiros mais longos e aprofundados são pagos – e não saem barato.

O Retiro do Silêncio que será feito em 2018, por exemplo, custa US$ 900 (R$ 3 mil). O grupo Awaken Love diz que o dinheiro vai para a organização do evento, já que os funcionários são voluntários.

Questionado sobre a composição do público na sua festa de aniversário – muita gente chegando em carros de alto padrão – diz que a percepção de que sua filosofia é só para pessoas mais privilegiadas é muito equivocada.

"Talvez seja assim no Brasil, porque realmente, não é todo mundo que tem um poder aquisitivo e pode viajar e conhecer outras coisas. Mas na Índia, por exemplo, há uma pobreza absurda e a grande maioria é hindu ou budista", afirma.

Image caption Prem Baba resolveu seguir o caminhoso religioso em uma viagem à Ìndia | Foto: Arquivo Pessoal

Prem Baba diz acreditar que haja um certo preconceito em relação à religiões orientais.

"Por conta da predominância do cristianismo, muitas vezes há uma visão única que não dá conta das outras. E aí religiões afro e outras formas de religiosidade muitas vezes são discriminadas" afirma ele. "Não estou falando contra o cristianismo, pelo contrário. Precisamos abrir espaço para o outro. Ver que ele pode orar para uma divindade diferente, mas é humano como você."

Diz que tem pensado muito em como trabalhar o ecumenismo. "Isso precisa acontecer através de movimentos pequenos. Diferentes líderes, numa mesma sala, para falar do que têm em comum. Partilhamos da mesma terra, tomamos a mesma água. Vivemos na mesma cidade, temos que lidar com os mesmos problemas."

E se posiciona contra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de autorizar o ensino religioso de natureza confessional nas escolas públicas. Ele acredita que a tendência seria falar de uma religião só, já que o país é majoritariamente cristão - com os católicos representando cerca de 64% da população (segundo o último censo do IBGE, de 2010), mas perdendo espaço para os evangélicos.

"É uma limitação muito grande achar que uma forma específica de cristianismo é a única religião possível. É triste, porque perdemos uma chance de sair desse quadradinho que vivemos", afirma. "Não podemos perder as oportunidades de falar de outras coisas e eliminar tudo aquilo que provoca preconceito, que provoca divisão, separação", diz ele.

O movimento Awaken Love, que lidera, propõe que as escolas tenham espaço para os alunos buscarem o autoconhecimento e a meditação - que não precisariam estar ligados ao hinduísmo.

Tempo de crise

Prem Baba acredita que a busca por autoconhecimento e a resolução pessoal de conflitos internos é "a única saída para a polarização (política)".

"É a ampliação do entendimento a respeito das leis que nos governam. Somos conduzidos por impulsos inconscientes. A pessoa é tomada por um impulso de ódio e não sabe nem por quê! Ela usa uma rede social pra falar mal do outro, pra disseminar ódio, guerra, sem nem mesmo saber o que a está levando a fazer isso. Ela não consegue atentar para as consequências disso – que são danosas pra ela mesma".

"A pessoa pode perceber que é cocriadora (da crise política e econômica) e começar a se transformar, ou pode querer acusar alguém, achar um culpado, um inimigo, porque não está madura para perceber que ela também criou isso."

"Isso é uma das causas desse aparente retrocesso, que faz com que tantos neonazistas tenham conseguido cadeiras no Parlamento na Alemanha. Isso explica essa onda nacionalista no Brasil que está pedindo volta da ditadura militar. Isso que fez os EUA elegerem o Donald Trump, que é uma pessoa que claramente tem essa tendência a dividir, a julgar, a criar guerra", afirma.

Ele diz que mesmo quem teve de passar por um episódio de violência na vida tem de olhar para dentro de si para entender as causas do que enfrentou.

"Eu sempre procuro abrir um caminho para que a pessoa que sofreu uma violência possa compreender porque aquilo aconteceu com ela. Independentemente de todos os distúrbios factuais, da violência que está se manifestando aqui e ali, existe algo dentro dela que acabou atraindo aquilo", afirma.

"Estou sempre levando a pessoa a entender porque ela precisou passar por aquela experiência difícil - e o que ela pode aprender através disso", diz ele. "Como ela pode, a partir dessa dor tão profunda, se melhorar mais, ampliar a capacidade dela em todos os sentidos - inclusive a capacidade de amar."

Para o líder espiritual, ao conviver com a violência as pessoas têm duas possibilidades. "Ou ela fica parada no trauma, com raiva, querendo se vingar, ficando estagnada ou regredindo - e sem conseguir processar aquele ódio, acaba reproduzindo mais violência – ou ela pode usar isso como um impulso para crescer, para transformar o veneno em remédio."

Ele afirma que nosso sistema penitenciário é um exemplo do "mal produzindo mais mal". "O criminoso é depositado numa cela apertada, onde continua comandando sua organização criminosa. A pessoa que não é [da organização] aprende a ser, se alia."

"É preciso combater o ódio com o amor. Não é ok bater em um nazista, porque não adianta. Você só vai aumentar a vontade dele de machucar mais ainda", conclui, antes de se dirigir à ansiosa plateia que o aguardava para ouvi-lo.

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