'PSDB se acha último biscoito do pacote', afirma tucano que disputava candidatura com Alckmin

Arthur Virgílio
Image caption Prefeito de Manaus diz que retirou sua pré-candidatura à Presidência porque prévias caminhavam para 'processo fraudulento' | Foto: Prefeitura de Manaus

"O PSDB sempre foi um partido meio esnobe, meio de nariz empinado", que "não se comunica com as pessoas mais pobres do país". O diagnóstico não vem de algum adversário petista, mas de um tucano histórico, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, que acaba de desistir de disputar com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o posto de candidato da legenda à Presidência da República.

Em entrevista à BBC Brasil, Virgílio diz que retirou sua pré-candidatura porque as prévias para definir o candidato do partido caminhavam para um "processo fraudulento". Para ele, Alckmin não tem "preocupação social" nem "linguagem" para falar com outras regiões do país, por isso não decola nas pesquisas de intenção de voto.

Ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência no governo Fernando Henrique Cardoso e líder do PSDB no Senado durante todo o governo Luiz Inácio Lula da Silva, Virgílio avalia que seu partido vem perdendo sucessivas eleições presidenciais desde 2002 porque fez campanhas "paulistocêntricas", "como se não houvesse vida inteligente no resto do país".

"É um partido que se comove pouco com a pobreza, com a miséria. Por isso não se comunica com as pessoas mais pobres do país. Por isso, teve quatro derrotas nas eleições", atacou.

Na entrevista, Virgílio também defendeu a importância de ser "puro" ao lidar com a coisa pública. Ele não vê problema em empregar na sua administração seu filho Arthur Virgílio Bisneto (chefe da Casa Civil), nem sua mulher Elisabeth Valeiko (presidente do Fundo Manaus Solidária).

Confira os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - Por que o senhor desistiu de disputar as prévias para candidatura presidencial do PSDB?

Arthur Virgílio - A ideia inicial era fazer uma bela colaboração ao país e o partido. Por isso, eu propus dez debates e uma plataforma de internet para fazermos a votação por urna eletrônica. Propus que viajássemos o país inteiro. E eles foram postergando, postergando, postergando, a ponto de tudo se tornar inviável.

Então, eu senti que estava na hora não de desistir, mas de denunciar isso, me afastar de um processo que poderia descambar para o fraudulento.

BBC Brasil - Falta uma cultura de prévias aos partidos brasileiros, ao PSDB em especial?

Virgílio - Ele (Alckmin) gosta das prévias, desde que ele ou os candidatos dele ganhem. A prévia para disputar a prefeitura em 2012 (em que ganhou o atual prefeito João Dória, apoiado por Alckmin) foi de qualquer jeito. Ele não queria uma prévia aberta, correndo riscos reais. Apesar de todo seu controle sobre o partido, ele sabia que iria enfrentar o imponderável, de repente ficar exposto no debate.

Ele quer ser o candidato por exclusão. Por exclusão ele queria ser presidente do partido. Por exclusão, ele queria ser o candidato do partido a Presidente da república. Por exclusão, ele quer chegar ao segundo turno. Por exclusão, ele pensa que pode ganhar a Presidência da República. E ele não combina com os adversários.

É uma pessoa que tanto não sensibiliza ninguém de verdade que o presidente Fernando Henrique Cardoso insistentemente tem proposto alternativas a ele. Duas das quais foram bola fora: o apresentador de auditório (Luciano) Huck, e o empresário Flávio Rocha (dono da Riachuelo). Mas ele tocou no nome do Pedro Parente (presidente da Petrobras). Pelo que fez pela Petrobras no plano nacional, pelo que está fazendo pela Petrobras no plano internacional e negociando as dívidas junto à justiça norte-americana, eu embarcaria de olhos fechados numa empreitada a favor dele.

Se ele aceitasse (ser candidato), o Geraldo Alckmin deveria desistir em favor dele por se tratar de uma pessoa realmente qualificada, que poderia sensibilizar vários setores da sociedade e unir o partido.

Image caption 'Se Alckmin tivesse efetiva força em São Paulo, teria 9% nas pesquisas. Ele nunca teve 9% em pesquisa nenhuma', diz Virgílio | Foto: ABR

BBC Brasil - Por que Pedro Parente teria mais musculatura eleitoral, mais condições de ganhar do que o atual governador de São Paulo?

Virgílio - Porque cada eleição é uma eleição. O Pedro Parente hoje pode não ter essa suposta musculatura eleitoral, mas o Fernando Henrique também não tinha quando começou a ser o executor do Plano Real. Na verdade ele tinha um potencial enorme porque estava trazendo aquele sonho da estabilidade econômica, transformando aquilo em realidade. O Pedro Parente está salvando a Petrobras, mostrando o tipo de executivo que ele é.

Se o Geraldo Alckmin tivesse efetiva força em São Paulo, ele teria que ter só em São Paulo, digamos, 40% (das intenções de voto). Com isso, ele nasceria com 9% nas pesquisas. Ele nunca teve 9% em pesquisa nenhuma. Então ele não tem 40% em São Paulo.

Outro dia vi uma pesquisa, (Alckmin tinha) 1% em Alagoas. Tem uma linguagem para falar com o Norte, para falar com o Nordeste. Eu sentia muito mais fácil eu falar para São Paulo, do que ele falar para o meu pequeno Amazonas.

A gente não percebe o traço da preocupação com o ser humano no discurso dele. Sob a desculpa de dizer que não é populista, na verdade ele não é uma pessoa de preocupações populares. Eu não me sinto populista, mas me sinto como uma pessoa com preocupações populares claras. Ou seja, eu devoto toda minha vida às pessoas que são menos privilegiadas. Não é esse o perfil que eu vejo no PSDB. O PSDB sempre foi um partido meio esnobe, meio de nariz empinado, se sentindo elite, o último biscoito do pacote. E ele tampouco, ele não tem esse perfil (de preocupação social).

BBC Brasil - O senhor diz que tem mais preocupação social do que o governador. Há um dado bem negativo da cidade de Manaus: por exemplo, o saneamento básico é um dos piores do país.

Virgílio - Isso é verdade.

BBC Brasil - Isso não deporia contra o que o senhor está falando?

Virgílio - Temos que olhar os antecedentes. Aumentou bastante a cobertura por esgotamento sanitário. Eu fui prefeito pela primeira vez no final da década de 80, no século passado. Então, eu fiz muita drenagem de águas pluviais, que cabia à prefeitura fazer. A parte de esgotamento sanitário por galeria era obrigação do Estado do Amazonas naquela altura (desde 2007, é responsabilidade das prefeituras preparar o Plano Municipal de Saneamento Básico). Depois foi para privatização dos serviços, hoje tem um serviço privatizado que é fiscalizado por uma agência reguladora, que nós temos aqui em Manaus. Há um plano de investimento muito grande nesse ano de R$ 170 milhões. E temos para trás uma melhoria nos índices sim. Agora, no total, o índice é muito baixo mesmo.

Eu continuo fazendo muita drenagem, você sabe que meu apelido aqui é prefeito tatu, eles dizem que o prefeito tatu é quem enterra votos. E eu faço isso com muito orgulho.

Image caption Virgílio avalia que seu partido vem perdendo eleições presidenciais porque faz campanhas 'paulistocêntricas' | Foto: ABR

BBC Brasil - O PSDB perdeu as últimas quatro eleições presidenciais. Qual o seu diagnóstico para as sucessivas derrotas?

Virgílio - Porque com exceção da eleição do Aécio contra a Dilma (em 2014), em que o Aécio encarnou uma campanha brasileira de verdade, a gente teve campanhas meramente paulistas. Nada contra São Paulo, mas tivemos uma visão 'paulistocêntrica'. Ou seja, se alguém pergunta, conhece alguém técnico? 'Ah, eu conheço alguém da USP'. Como se não houvesse vida inteligente no resto do país. Essa mentalidade paulistocêntrica é responsável por termos esse malogro. Eu não considero que a eleição de 2014 tenha sido malogro, malogro foi depois a decepção que o Aécio causou. Mas as outras foram visivelmente derrotadas. Alckmin perdeu cometendo a proeza de ter menos votos no segundo turno do que no primeiro.

Ele se fantasiou de carteiro (para combater as acusações de que pretendia privatizar estatais). Foi uma campanha vergonhosa. Agora está vestindo outra capa. Ele captou muitas ideias que eu usei, essa coisa das privatizações, de ser especificamente a favor de privatizar tudo aquilo que esteja pronto para ser privatizado pra valer. Ele só não é capaz de avançar na questão comportamental, que ele é uma pessoa pudica, puritana. Eu me considero uma pessoa de respeito aos princípios da moral pública, mas eu não sou um puritano. E desconfio de puritanos, puritanos geralmente escondem alguma distorção por trás.

BBC Brasil - Além das privatizações, o senhor tem defendido o direito ao casamento homossexual, a liberação da maconha. O senhor não vê espaço para essas pautas na candidatura do Geraldo Alckmin?

Virgílio - Não vejo. Ele vai sempre encontrar um eufemismo. No máximo, dizer que certa aplicação da maconha, para fins científicos, talvez, quem sabe, todavia... Ele não é capaz de dizer que (a legalização da maconha) está baixando o nível de criminalidade em Portugal e no Uruguai, por exemplo. Ele não é capaz de olhar por esse ângulo, porque ele olha pelo ângulo vitoriano. Ele seria uma boa pessoa da corte da rainha Vitória da Inglaterra. Aquela figura que prega uma pureza. Eu sempre desconfio um pouco de quem prega muita pureza. Nós somos impuros por natureza, Embora devamos ser puros ao lidarmos com a coisa pública. Isso sim.

BBC Brasil - Falando em pureza no trato da coisa pública, como fica o impacto para o PSDB das denúncias contra o Aécio (denunciado em junho do ano passado pela PGR por corrupção passiva e obstrução de justiça com base nas delações de executivos da JBS)? Isso também pode ser um obstáculo para o partido vencer essa eleição?

Virgílio - Sem dúvida. O partido não foi capaz de chamar a sua comissão de ética para investigar todos os casos que pudessem ter sido suscitados e deviam ter passado pela comissão de ética. Primeira pergunta, passou? Não passou. Segunda pergunta, quem compõe a comissão de ética do partido? Será que uma comissão de ética de pessoas realmente independentes? Ou é uma coisa parecida com a do Senado em que o sujeito já chega lá absolvido? A comissão de ética do partido eu não sei nem quem integra, mas com certeza, se eu conheço o partido, alguém indicou, foi feita para não funcionar. De verdade.

Como as demais instâncias do partido deveriam funcionar. Vim a saber que a presidente do Tucanafro de Roraima (Cândida de Magalhães) é loira. Pelo amor de Deus. Tucanafro só se for da África do Sul, né? Então, falta de seriedade com que se trata militância, os segmentos não funcionam bem. A juventude do partido serve o Geraldo Alckmin, nasceu para aplaudir, não para contestar.

Image caption Virgílio diz que trabalho da mulher e do filho na prefeitura é algo 'perfeitamente dentro da lei' | Foto: Prefeitura de Manaus

BBC Brasil - Para o senhor, então, um dos problemas do partido hoje seria o elitismo?

Virgílio - O que eu vejo é que a preocupação com social, a preocupação com as pessoas, não é demonstrada com ações. Se você pegar o discurso, vai ver que as pessoas não entram em primeiro lugar.

É um partido que se comove pouco com a pobreza, se comove pouco com a miséria, por isso não se comunica com o Nordeste, não se comunica com o Norte, não se comunica com as pessoas mais pobres do país. Por isso teve quatro derrotas nas eleições. Prova de que está faltando alguma mudança profunda no partido, na sua forma de encarar o povo brasileiro.

BBC Brasil - O senhor falou da importância da ética pública, mas empregou na sua administração a sua mulher e o seu filho. Isso não soa antiético?

Virgílio - Não. Meu filho tem feito um bom trabalho aqui como chefe da casa Civil. Eu precisava de alguém com esse viés político. A jurisprudência favorece (refere-se ao entendimento de que a vedação para nomeação de parentes não inclui cargos políticos, do primeiro escalão). Então, eu não me senti incomodado com isso. Agora, a minha esposa, é arquiteta. Fechou o escritório dela para trabalhar aqui. Inclusive ela não é aquela dondoca que dispensa o salário, que não recebe o salário para ficar fazendo bondade. É para desconfiar quando a dondoca dispensa salário porque quem trabalha de graça é relógio.

É uma coisa perfeitamente dentro da lei. Ou seja, quinhentas outras primeiras damas foram chamadas aqui (antes) trabalharam envolvidas nessa questão social. Nunca houve nenhum problema. Eu próprio não questionei porque entendi que era uma ajuda mais que se dava (ter) uma pessoa que está próximo da influência do prefeito, que discute com mais intimidade com o prefeito.

E se a gente olhar é assim nos Estados Unidos, em qualquer outro lugar. Não precisaria do cargo público, mas, em tendo o cargo público, a minha mulher não poderia abrir mão do salário, que eu não sou rico, eu não sou ladrão, a minha mulher não é rica, e ela teria como alternativa não trabalhar aqui e estar trabalhando no escritório dela de arquitetura, que ela tinha e era muito bem resolvido.

Era tão fácil não fazer isso, né? Imagine se fosse esse o pecado dos políticos brasileiros, o Brasil estava salvo, né?

BBC Brasil - A disputa presidencial está indefinida. Qual o cenário vê para o segundo turno?

Virgílio - O páreo presidencial está muito medíocre. Na minha opinião de cidadão, Lula cometeu delitos suficientes para ser apartado da capacidade de se eleger. Mas eu vejo uma plena de candidatos que trabalha com viés muito medíocre, de excluir Lula, e aí sobra no segundo turno, se os números se mantiverem como estão hoje, sobra no segundo turno Bolsonaro.

Todos eles têm como sonho de consumo irem para o segundo turno com Bolsonaro, porque todos sabem que qualquer um que for para o segundo turno com Bolsonaro vence. Todos sabem disso. A eleição se mediocriza cada vez mais porque estão todos torcendo, não para que se faça justiça, mas para que o Lula saia do páreo para dar chances ao fulano, ao beltrano, ao sicrano, de serem o adversário do Bolsonaro. Eu acho isso uma coisa meio estranha, porque o páreo deixa de ser no nivelamento por alto e passa ser no nivelamento por baixo.

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