Duas semanas após morte de Anderson, viúva do motorista de Marielle ainda não consegue voltar para casa

Anderson e sua mulher
Image caption Viúva diz que motorista de Marielle não era o alvo, mas violência é a mesma | Foto: Arquivo pessoal

Nas últimas horas de vida de Anderson Pedro Gomes, Agatha Arnaus Reis trocou mensagens esperançosas com o marido sobre um exame médico do filho Arthur, cujos resultados a mãe buscava interpretar com a ajuda da internet antes da próxima consulta com o endocrinologista.

Anderson não sobreviveu para ouvir a boa notícia que esperava desde o nascimento da criança. Dias após a morte de Anderson, Agatha soube que o atraso no desenvolvimento do filho, de 1 ano e 10 meses - que nasceu prematuro - era provocado pela defasagem de um hormônio e teria solução razoavelmente simples, com injeções hormonais uma vez por mês.

Aos 39 anos, o motorista foi assassinado na noite de 14 de março no Rio. Segundo as investigações, Anderson estava na linha de tiro dos projéteis mirados na vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), que ele levava para casa após mais um dia de trabalho.

"Depois da barra pesada que passamos com o Arthur, é muito difícil ver que o pai que passou por tanta dificuldade não vai conseguir ver o desenvolvimento do filho, agora que ele vai entrar numa fase mais divertida", lamenta Agatha, viúva aos 27 anos.

Quando nasceu, Arthur passou 28 dias no hospital. "Falaram que ele tinha uma síndrome e ia ser cego e surdo. Foram momentos de muito medo", conta Agatha à BBC Brasil. O filho passou por três cirurgias para corrigir uma má-formação no abdômen e quatro exames genéticos. A barra pesou e Agatha se apoiou em Anderson.

"Ele era a pessoa mais maravilhosa que eu conheci na vida", diz. "Um marido maravilhoso, um pai maravilhoso. Brincando com o Arthur, eles pareciam duas crianças."

Longe de casa

Desde a morte do marido, ela ainda não teve coragem de voltar para casa. De lá pegou roupas e documentos e se hospedou na casa da mãe, em Inhaúma, zona norte do Rio.

"É uma das sensações mais estranhas que eu já tive. Entrar num lugar que era pura alegria e saber que está faltando alguma coisa. Acho que vou sentir isso para sempre ali." Os dois eram casados há quase quatro anos.

Anderson e Agatha foram apresentados por um amigo em comum. Depois, ele ligou para ela com uma desculpa esfarrapada, alegando que tinha esbarrado no nome dela sem querer no telefone, afinal os nomes com a letra "A" ficam no topo da agenda. As conversas evoluíram para um namoro e, mais tarde, para o pedido de casamento.

O grito "Marielle, presente! Anderson, presente!" vem ecoando em protestos, homenagens e eventos realizados no Rio e em outras partes do país, sempre evocando a vereadora e o motorista. Agatha diz se sentir consolada por ver que o marido é sempre lembrado.

"Eu sei que a Marielle tem uma visibilidade muito maior por ter sido vereadora. Mas em outros casos eu acredito que o motorista teria ficado apagado", afirma.

Image caption "Em outros casos, acredito que o motorista teria ficado apagado", diz Agatha Reis | Foto: Arquivo pessoal

"Acho que isso também aconteceu porque o Anderson era muito comunicativo. Falava com todo mundo, não tinha uma pessoa que não conhecesse ele. Mesmo sendo só o motorista. O fato de ele estar tendo essa visibilidade é a continuação da pessoa que ele era, expansivo, comunicativo."

Anderson tinha experiência como motorista executivo e chegou a trabalhar com aplicativos de transporte. Por isso, quando um amigo que dirigia o veículo de Marielle se acidentou e quebrou a clavícula, indicou Anderson para substituí-lo em sua licença médica.

Ele sabia que o posto era temporário e semanas antes de morrer, estava entusiasmado com a perspectiva de arrumar um emprego fixo como mecânico de aeronaves, profissão que herdou do pai, um ex-funcionário da Varig.

Os pais de Anderson eram da Paraíba e vieram ao Rio em busca de emprego. Anderson, o segundo dos quatro filhos do casal, foi o primeiro carioca nato da família, e era torcedor do Flamengo.

Mais um trabalhador, pai de família

Agatha diz que gosta de ver as reportagens em que ele aparece nos jornais ou na televisão.

"Não sei se isso é bom ou ruim, mas acho que é por apego, saudade. Gosto de ver o Anderson, em qualquer lugar que seja."

Ela também tem sido voz ativa nos atos ecumênicos de homenagem aos dois. Na semana passada, Agatha subiu no carro de som e, diante de uma multidão no centro de Rio, falou que o marido era como qualquer outra pessoa ali.

"Meu marido representa cada trabalhador, cada pai de família, representa mais uma vítima desse estado incompetente", disse.

Crowdfunding

Servidora pública, Agatha trabalha em um Ciep (escola estadual) em Inhaúma e não sabe ainda como vai fechar as contas no fim do mês. O casal dividia todos os gastos da casa e dos tratamentos do filho.

Image caption Anderson deixou mulher e filho de menos de dois anos | Foto: Arquivo pessoal

Ela diz ter ficado comovida ao saber da criação da campanha "Ajude a família de Anderson Pedro Gomes".

A página do crowdfunding foi estabelecida pelo gerente comercial Rhavi Pinta e pede contribuições para ajudar na criação de Arthur. "Ajude uma família cujo o estado fez o favor de destruir", diz a página, que até agora conseguiu arrecadar R$ 15 mil.

"O Estado fala bonito, mas a gente sabe que não faz nada", diz Pinta. "É uma situação delicada em que uma mulher não vai ter mais o amparo do marido para cuidar de uma criança que precisa de atenção médica."

Os primeiros dias da campanha, entretanto, foram turbulentos. Usuários acusaram a página de ser uma fraude, dizendo que o dinheiro não iria para a família, e acusações chegaram a tirar a página do ar. Depois, Pinta conseguiu contato com Agatha e tudo se esclareceu. "Sou eternamente grata", diz ela.

No lugar errado

Agatha espera que as manifestações, e cobranças de respostas, ajudem a evitar que a história se repita. Acredita que o crime tenha sido político, e que a vítima escolhida era Marielle. Confia que os responsáveis pelo assassinato serão encontrados.

Image caption O casal morava em uma casa na frente de uma das entradas do Complexo do Alemão | Foto: Arquivo pessoal

"Mas não sei se tenho alguma esperança de que alguma coisa possa melhorar na política", afirma. "Estão tentando silenciar quem tenta fazer alguma coisa diferente."

O casal temia a violência no Rio. A casa em Inhaúma que compraram há quatro anos, e cujas prestações ainda estão sendo pagas, fica em frente a uma das entradas para o Complexo do Alemão.

"Não é dos lugares mais tranquilos no Rio, se é que ainda existe algum." Agatha teve medo no período em que Anderson trabalhava à noite com aplicativo de transporte. Mas nunca poderia ter imaginado esse desfecho para a vida do marido.

"Ele com certeza não era o alvo. Foram as circunstâncias. Mas não faz diferença saber que não foi para ele. É a mesma violência, a mesma agressão, a mesma perda", diz Agatha.

Ela aos poucos se prepara para tentar se mudar de volta para casa. E acha que o pequeno Arthur não entende muito bem o que aconteceu. Como ele é muito novo e está com o desenvolvimento atrasado, não sabe se vai entender, ou se precisa explicar.

Mas diz que o menino, quando vê um cartaz que foi presenteado à família com uma grande foto de Anderson, estica os braços em direção à imagem, querendo ir para o colo do pai.

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