PSL confirma Bolsonaro e ouve de advogada cotada para vice que seguidores 'buscam pensamento uniformizado'

Janaína Paschoal ao lado de Jair Bolsonaro em convenção partidária no Rio Direito de imagem Reuters
Image caption Bolsonaro minimizou incômodo gerado em dirigentes do PSL com discurso de Janaína Paschoal

"Nossa lagoa é muito pequena para pescar um vice, mas vamos pescar", resumiu o presidenciável Jair Bolsonaro, do PSL, em coletiva ao final da convenção partidária que o chancelou como candidato ao Planalto pela legenda.

A indefinição sobre quem comporá com o deputado federal a chapa presidencial se desenrolou ao longo da última semana: primeiro com a recusa do senador Magno Malta (PR), depois com a negativa do General Heleno (PRP).

Neste domingo, a cúpula do PSL tentou uma saída honrosa para o imbróglio: o anúncio para o posto da advogada e autora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, Janaína Paschoal.

O humor de bolsonaristas, no entanto, era diferente do da própria Janaína, que já nas primeiras horas da manhã, a caminho do evento, revelou seu desconforto com a situação à BBC News Brasil.

Chegada de Janaína foi celebrada por militantes

Recebida pelos cerca de 2 mil militantes que lotavam o salão do centro de convenções, no Rio, sob gritos de "vice, vice", ela foi rápida em anunciar o anticlímax.

"Não aplaudam, não gritem, eu quero conversar com os senhores", anunciou Janaína, esfriando o clima de aplausos, gritos de "mito", dedos emulando armas, selfies e algazarra que dominavam o ambiente.

Diante do silêncio estabelecido, Janaína anunciou que "não é possível tomar uma decisão em dois dias" e afirmou que "estamos dialogando".

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Image caption Janaína Paschoal foi recebida por mil militantes que lotavam centro de convenções no Rio sob gritos de 'vice, vice'

Janaína foi a penúltima a falar. Sentada ao lado de Bolsonaro, ela viu o ex-futuro vice, o senador Magno Malta, dizer que "fazia muito gosto" que ela assumisse o posto deixado por ele. "Espero que eu possa lhe chamar logo de vice-presidente da República".

Pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidenciável, foi comparada ao Coronel Alberto Brilhante Ustra, Chefe do DOI-Codi de São Paulo e considerado responsável pela tortura de presos políticos na ditadura, defendido por Bolsonaro em seu voto pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

"Soldado nosso não fica para trás. Não permitam que demonizem a Dra. Janaína para que ela se torne um novo Ustra."

'Minha fidelidade é ao meu país'

O discurso de Janaína destoava do clima de "já ganhou no primeiro turno" do evento.

"Não se ganha eleição com pensamento único. Não se governa uma nação com pensamento único. Os seguidores, muitas vezes, do deputado Jair Bolsonaro têm uma ânsia de ouvir um discurso inteiramente uniformizado. Pessoas só são aceitas quando pensam exatamente as mesmas coisas. Reflitam se não estamos fazendo o PT ao contrário", disse Janaína.

"Minha fidelidade não é ao deputado Jair Bolsonaro, é ao meu país", arrematou.

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Image caption Discurso de Janaína destoou do clima de 'já ganhou no primeiro turno' do evento'

O mal-estar nos dirigentes do PSL foi evidente. O discurso foi considerado "desalinhado". Janaína devolveu um público frio a Bolsonaro, que fez um discurso menos aguerrido que a média.

"Ela é muito transparente, mas não achei que ela fosse ser tão incisiva, daquele jeito de professora que dá bronca em aluno. A militância sentiu", avaliou o deputado federal Major Olímpio.

"Não se pode ter fogo amigo dentro da chapa. Não vamos levar a noiva para o altar discutindo os termos do divórcio", completou.

Bolsonaro minimizou desforto de dirigentes com Janaína

Bolsonaro tentou minimizar o incômodo: "Ela tem a opinião dela, não posso ter uma vice que vai concordar 100% comigo".

O próprio candidato, no entanto, cogitou a substituição de Janaína por Luciano Bivar, presidente licenciado do PSL, durante coletiva de imprensa. Aliados aventam ainda a possibilidade de que o PROS feche acordo com o PSL e indique o vice.

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Image caption Bolsonaro foi muito celebrado pelos 2 mil militantes presentes no evento

Se for confirmada, Janaína será a primeira mulher a compor a cúpula de poder de Bolsonaro.

Uma das fragilidades eleitorais do deputado é a rejeição do público feminino, a quem ele acenou diversas vezes em seu discurso.

"Todos nós viemos do ventre de uma mulher. Sequer teríamos nascido sem o amor delas". Ele prometeu governar "pelas mulheres, que são em grande parte responsáveis pela criação das nossas crianças".

Questionado sobre a ausência de mulheres em sua equipe, disse que não fará esforço para integrá-las ao time, já que o critério para empregar pessoas é "competência". E disse que seu mau desempenho no grupo se deve aos "rótulos" colados nele pela imprensa.

Privatizações e ministros com 'perfil de Sergio Moro'

Em relação a propostas de governo, defendeu privatizar braços da Petrobras e elogiou a venda da Embraer. "Queremos mais do que privatizar, quem sabe, extinguir a maioria das estatais", disse.

Afirmou que o "Supremo está mais desgastado do que o Congresso" e que gostaria de alterar a Constituição para poder indicar mais dez ministros "com o perfil do Sergio Moro".

Defendeu que não é possível, por falta de recursos, instituir escola em tempo integral, mas que a educação melhoraria com a aprovação da lei "Escola Sem Partido", que prevê punição a professores que expressem opiniões políticas em sala de aula.

Sobre pautas identitárias, afirmou que, "se for feita uma pesquisa entre afrodescendentes, a maioria é contrária às cotas". E criticou o que considera "politicamente correto".

"Não tenho mais a alegria de contar uma piada de cearense, de baiano, de carioca esperto".

'Se estamos em guerra, os dois lados podem atirar'

Na segurança pública, afirmou que manteria a intervenção do Exército no Rio, mas excluiria a possibilidade de punição aos soldados que matassem civis em operações de segurança.

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Image caption Bolsonaro tem até 5 de agosto para definir quem estará ao seu lado na corrida presidencial

"Se estamos em guerra, os dois lados podem atirar. Quero dar meios para o policial não morrer. Se ele não pode atirar, vamos tirar a arma do PM e dar um buquê de rosas pra ele carregar".

Bolsonaro voltou a defender ainda a redução ou mesmo extinção da maioridade penal, pauta da qual Janaína discorda.

O deputado terá até o dia 5 de agosto para definir quem estará ao seu lado na corrida presidencial.

Ciente de que pode ajudar o candidato a melhorar seu desempenho entre mulheres e setores menos radicais da direita, Janaína se mostrou tranquila diante da má repercussão de suas palavras na convenção.

Disse ainda que, para ela, vice deve sim interferir na gestão do presidente. "Talvez o discurso tenha sido mais contundente do que eles esperavam. Se as pessoas se sentiram desagradadas, não há problema, isso é inerente à democracia", afirmou.

E completou: "Não posso trazer os votos e depois não ter liberdade para atuar".

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