Independência, abdicação e 'primeiro toma-lá-dá-cá': a história do Brasil testemunhada pelo palácio incendiado no Rio

Museu incendiado no domingo Direito de imagem AFP
Image caption Edifício engolido por incêndio foi a primeira residência da monarquia portuguesa no Brasil e testemunhou momentos-chave da história do país

O incêndio no Museu Nacional, neste domingo, destruiu, além de um acervo de 20 milhões de itens, o interior de um edifício que testemunhou momentos-chave da história da fundação do Brasil.

O antigo Palácio Imperial de São Cristóvão, edificação em estilo neoclássico dentro da Quinta da Boa Vista, foi a primeira residência da monarquia portuguesa no Brasil, servindo de cenário para episódios que, segundo historiadores, já marcariam relações escusas do setor público brasileiro com entes privados.

"Ali moraram o rei D. João 6º, os imperadores D. Pedro 1º e D. Pedro 2º, além da princesa Isabel e de outros príncipes e princesas", diz o artigo Quinta da Boa Vista: De Espaço de Elite a Espaço Público, publicado em 2000 pelo museólogo João Carlos Ferreira e pela professora de arquitetura Angela Maria Moreira Martins.

"Foi o lugar de todos os rituais importantes da monarquia portuguesa e depois da família imperial brasileira", diz à BBC News Brasil a historiadora Mary Del Priore. "É uma página da nossa história que perdemos (com o incêndio)."

Chegada da corte - e do 'toma-lá-dá-cá'

Antes de ser conhecido como Quinta da Boa Vista, o lugar era chamado de "Quinta do Elias", por pertencer ao próspero comerciante e traficante de escravos luso-libanês Elias Antonio Lopes.

Ele cedeu sua propriedade a D. João assim que a corte portuguesa chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, relata o autor e historiador Laurentino Gomes - que vê o episódio como "um símbolo do toma-lá-dá-cá na história política brasileira".

Direito de imagem Museu Nacional
Image caption Ali, no palácio, se desenrolaram também alguns exemplos de 'toma-lá-dá-cá' e 'beija-mão' na política nacional

"Em retribuição pelo generoso presente, o negociante de escravos Elias Antonio Lopes seria um dos homens que mais se enriqueceriam e ganhariam títulos e honrarias nos 13 anos da corte portuguesa no Brasil", escreveu Laurentino Gomes - autor dos livros de história 1808, 1822 e 1889 - nesta segunda-feira em sua página no Facebook.

"D. João 6º havia chegado empobrecido ao Brasil, desfalcado de sua grandeza, e no Brasil a riqueza estava na mão dos traficantes de escravos", explica à BBC News Brasil a historiadora Isabel Lustosa. "E eles queriam agradar o rei, se beneficiar de sua presença. Elias entregou sua propriedade e acabaria recebendo (em troca) importantes concessões de serviços."

Posteriormente, ao longo de sua história como residência da família real, o Palácio Imperial de São Cristóvão foi também palco de algumas das chamadas cerimônias de "beija-mão" - sessões em que os súditos se ajoelhavam perante D. João 6º (e, mais tarde, D. Pedro 1º) para pedir favores e se sentir próximos a seus "pais" (como os imperadores eram vistos à época), prossegue Lustosa.

Processo de independência do Brasil

A Quinta da Boa Vista que fora entregue por Elias Antonio Lopes a D. João 6º "era (uma edificação) simples, mas a família real foi reformando, fazendo cozinha e cocheiras no fundo e mais tarde intervenções internas para se criarem aposentos para a Imperatriz Leopoldina", relata Mary Del Priore.

Maria Leopoldina é, inclusive, uma importante protagonista da vida palaciana. Lustosa conta que a mulher de D. Pedro 1º passou a maior parte da sua vida e morreu no Palácio Imperial de São Cristóvão. Ali, no papel de monarca regente enquanto D. Pedro viajava a São Paulo, ela escreveu as cartas advertindo o marido de que Portugal exigia a volta dele.

Essa viagem de D. Pedro culminaria na proclamação da independência do Brasil, comemorada em 7 de setembro. De volta ao Rio, é no Palácio Imperial que ele oficializaria a documentação da separação do Brasil em relação a Portugal.

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Image caption O Museu Nacional foi idealizado por D. João 6º e transferido ao Palácio Imperial após a proclamação da República

Abdicação de D. Pedro 1º

Na época do Brasil imperial, o principal lugar de onde os monarcas despachavam era o Paço da Cidade, na Praça XV, Centro do Rio. Mas a residência imperial acabava sediando muitos dos encontros e eventos oficiais, explica à BBC News Brasil Marcos Veneu, pesquisador da Casa de Rui Barbosa e professor de história da PUC-Rio.

Foi no Palácio Imperial que D. Pedro 1º escreveu a carta de abdicação ao trono, em favor de seu filho, que viraria D. Pedro 2º.

"Usando do direito que a Constituição me concede, declaro que, hei mui voluntariamente, abdicado na pessoa do meu muito amado e prezado filho, o sr. D. Pedro de Alcantara. Boa Vista, sete de abril de mil oitocentos e trinta e um, décimo da Independência e do Império. Pedro."

A abdicação foi a culminação de um grande processo de desgaste político e crise de popularidade enfrentado por D. Pedro 1º, alvo de crescentes críticas por parte da elite brasileira, a qual se sentia preterida em relação à elite de origem portuguesa.

A transição para a República

Mais tarde, no final do século 19, um levante político-militar abalaria a sustentação de D. Pedro 2º e resultaria na Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

E foi assim que o palácio que abrigou a monarquia se converteu, entre 1890 e 1891, na sede da Assembleia Constituinte republicana.

"Foi nos corredores do palácio imperial que ocorreram os debates da primeira Constituição Republicana do Brasil", explica Marcos Veneu.

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Image caption Aquarela de cerca de 1830-34 do Paço Imperial, com o atual museu ao fundo, que foi doado por traficante de escravos a D. João 6º

Museu de 'curiosidades'

No ano seguinte à Assembleia, em 1892, o palácio passou a abrigar o acervo do Museu Nacional. Este havia sido criado anos antes, em 1818, pelo próprio D. João 6º, e inicialmente fora instalado no Campo de Santana, Centro do Rio.

"O museu foi idealizado por D. João como um gabinete de curiosidades, um museu de história natural, para abrigar acervo de zoologia, história antiga e botânica, por exemplo. As coleções científicas do acervo (incendiado) eram preciosíssimas, inclusive com coleções de (história) de tribos indígenas que já desapareceram", explica Veneu.

"E sempre foi além de um espaço de exposição - era também um local de pesquisa, que nesse sentido continua a existir mesmo após o incêndio."