'Daqui a três dias, infelizmente, já cairá no esquecimento', diz ex-diretor do Museu da Língua Portuguesa sobre comoção com incêndio

Museu Nacional durante incêndio Direito de imagem Getty Images
Image caption Museu fluminense tinha acervo composto de peças únicas, que jamais serão repostas

O produtor cultural e bacharel em Direito Antonio Carlos Sartini reviveu os momentos mais tristes de sua vida quando viu as chamas que consumiam o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Em 21 de dezembro de 2015, ele era diretor do Museu da Língua Portuguesa, instituição cultural do bairro da Luz, em São Paulo, que também sofreu um incêndio de grandes proporções - o museu ainda não foi reaberto ao público.

Há uma diferença fundamental: ao contrário do museu fluminense, cujo gigantesco acervo era composto de peças únicas e que jamais serão repostas, a instituição paulistana, pela própria natureza, continha um material que pode ser reproduzido. O Museu da Língua Portuguesa, afinal, fora criado com essa premissa: seu acervo é a própria língua portuguesa, imaterial, e o material expositivo sempre foi baseado em reproduções, muitas vezes multimídia.

Sartini, na qualidade de ex-diretor do Museu da Língua Portuguesa, conversou com a reportagem da BBC News Brasil a respeito da tragédia que destruiu o Museu Nacional.

BBC News Brasil - O senhor viveu situação semelhante há três anos. O que passa na cabeça de um diretor de museu quando o prédio está em chamas?

Antonio Carlos Sartini - Passam tantas coisas na cabeça de um brasileiro que preza pela cultura e pela sua história, tantos pensamentos. Primeiro, uma tristeza muito grande, que beira quase uma raiva: a de perdermos um acervo tão importante. Em seguida, vem a reflexão: este acervo, do Museu Nacional, era ligado a uma universidade federal. É isso que vem sendo feito com nossas universidades federais?

BBC News Brasil - Como o senhor compara o ocorrido agora com o que aconteceu no Museu da Língua Portuguesa?

Sartini - É importante lembrar que eu era diretor-técnico do Museu da Língua Portuguesa. Havia uma equipe específica no museu para a infraestrutura e salvaguarda.

BBC News Brasil - Mas, como diretor, o que o senhor pensou na época?

Sartini - Não existem palavras que possam definir ou que possam realmente espalhar o que sente um diretor de uma instituição museológica, o que pensa um diretor de museu, quando vê sua instituição sendo consumida pelas chamas. Imagino a situação do Museu Nacional. Em nosso acervo, no Museu da Língua, o conteúdo não era material, pois tudo estava preservado em registro de áudio e vídeo. Tivemos uma perda humana, um bombeiro civil que trabalhava conosco. Mas eu imagino a situação do diretor do Museu Nacional. Deu sua vida, lutou, batalhou pela preservação, da melhor maneira possível de itens importantíssimos do acervo - e todos esses itens acabaram consumidos em questão de minutos, horas. Por um incêndio. Uma sensação que eu acho absolutamente inexplicável.

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Image caption 'Uma sensação que eu acho absolutamente inexplicável', diz ex-diretor de museu sobre incêndio

BBC News Brasil - O Brasil vive um momento de crise econômica e política. Como imaginar investimentos em cultura em um cenário como o atual?

Sartini - Todos sabemos que o País vive uma crise sem precedentes. Ontem mesmo vi publicado nas redes sociais um quadro com os investimentos feitos no Museu Nacional, com recursos dos últimos anos. Não sei se os dados eram verdadeiros ou não. Mas só de olharmos aquele quadro já conseguimos ter um bom entendimento do que acontece, da falta de recursos financeiros.

BBC News Brasil - E tudo isso ainda considerando um prédio histórico...

Sartini - Um prédio antigo, com falta de investimentos. Em edifícios históricos, investimentos precisam sempre ser feitos e refeitos. Há toda uma questão de equipamentos, de segurança contra incêndios, de capacitação de funcionários que trabalham em prevenção e manutenção de equipamentos. O Brasil é um país que prefere investir milhões em novos museus em vez de olhar para os que já existem.

BBC News Brasil - O sentimento é que não se olha para o que já existe?

Sartini - No próprio Rio de Janeiro há bons exemplos de instituições que foram recém-inauguradas, com arquiteturas fantásticas, arquitetos estrangeiros. Verdadeiras obras-primas. Ao mesmo tempo, se esquece daqueles museus que fazem parte da nossa história, que fazem parte do nosso dia a dia, que abrigam nossa memória. Essa é uma grande falha dos administradores culturais, dos nomes responsáveis pela cultura no Brasil inteiro. Todos procurando novidades. Museus e equipamentos culturais novos aparecendo em todos os lugares, cheios de tecnologias, enquanto aqueles mais antigos, que abrigam a nossa história, estão esquecidos, no anonimato. Isto é muito grave. Acredito que estamos em um belo momento para se pensar em uma mudança de políticas públicas e culturais.

BBC News Brasil - O sentimento é de tristeza, impotência?

Sartini - É uma tristeza muito grande estarmos perdendo, dia a dia, nossa memória, nosso rico patrimônio. E pensarmos que este acervo estava sob a guarda de uma universidade federal e de uma universidade do Rio de Janeiro. Precisamos repensar as políticas públicas de educação, construídas ao longo de décadas neste país. Vimos a criação de uma série de universidades federais novas e importantes, mas o esquecimento total, a penúria, daquelas que já existiam. Ao mesmo tempo, uma série de museus novos, de encher os olhos, que atraem turistas e permitem aos patrocinadores a exposição da marca, que acabam viabilizando negócios aos milhões. Mas que acabam desviando recursos de instituições tradicionais, que merecem e precisam da nossa atenção. Foi um pouco da História do Brasil que se consumiu naquelas chamas.

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Image caption 'Em tragédias sempre vemos uma grande comoção, atualmente nas redes sociais, muitas manifestações e isto é importante. Muita indignaçãoo. Daqui a três dias, infelizmente, já cairá no esquecimento'

BBC News Brasil - Acredita que esta comoção pode trazer algum resultado?

Sartini - Em tragédias sempre vemos uma grande comoção, atualmente nas redes sociais, muitas manifestações e isto é importante. Muita indignação. Daqui a três dias, infelizmente, já cairá no esquecimento. É preciso uma postura mais firme, cobrando dos governos federal, estadual e municipal. Estamos em período eleitoral. E chegou a hora de falarmos um 'basta' para os políticos que vierem com projetos de novas obras, novas instituições. Não queremos mais. Queremos que eles olhem pelo que já existe e que não está sendo cuidado. Queremos que os recursos sejam utilizados para recuperar patrimônios como o Museu Nacional. Chegou o momento de mudar a política pública e o comportamento das pessoas, principalmente daqueles que têm a responsabilidade da cultura neste País.

BBC News Brasil - De modo prático: o que fazer para evitar tragédias como a do Museu Nacional ou mesmo do Museu da Língua?

Sartini - Sem dúvida nenhuma, investimento. E investimento adequado. Digo, capacitação de mão de obra, em todos os níveis. E acho que esta mudança de postura tanto por parte daqueles que fazem nossas políticas públicas como da parte das pessoas que atuam na área pública. É preciso um 'chega'. Não precisamos de mais teatros, mais museus, mais lindas e mirabolantes bibliotecas. É o momento de pararmos. Diante de uma crise profunda que o país vive e continuará vivendo nos próximos anos, é hora de fazermos uma análise de como estão os equipamentos culturais.

BBC News Brasil - Não precisamos de novidades, é isso?

Sartini - É esta a questão: precisamos de novidade ou é melhor cuidar daquilo que nós temos, olhar com uma lupa como estão nossas instituições culturais, nossos acervos, nossa história, nossa memória? Vamos parar de ser um país de novidades e pensar um pouco a nossa História. Mais do que nunca é isto que é extremamente importante.

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