Ataque a Bolsonaro expõe face violenta da polarização no Brasil, afirmam analistas

Sombra de um homem em frente a bandeira do Brasil exposta em manifestação Direito de imagem EPA
Image caption Sombra de apoiador de Bolsonaro em vigília pela saúde do candidato em São Paulo; para analistas, ataque é reflexo de escalada violenta no discurso político

O ataque ao candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) - esfaqueado nesta quinta-feira durante um ato de campanha em Minas Gerais - é reflexo de uma escalada de violência no discurso político brasileiro que tem se agravado desde a eleição de 2014, avaliam cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil.

Eles destacam o ineditismo de uma agressão dessa gravidade a um candidato presidencial na história brasileira e lamentam que lideranças de diferentes partidos tenham acirrado o discurso contra seus adversários nos últimos anos, alimentando a intolerância.

Há quatro anos, a então presidente Dilma Rousseff (PT) venceu Aécio Neves (PSDB) no segundo turno por apertada diferença, em uma campanha marcada por agressões de ambos os lados. A polarização se acentuou após o resultado com a divisão da sociedade em torno do processo de impeachment da petista.

"A campanha de 2014 já foi extremamente violenta na retórica dos candidatos. E, às vezes, essa retórica violenta ultrapassa a retórica e chega às ruas. Refletir sobre isso é indispensável", afirma o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Marco Antônio Carvalho Teixeira.

Para Rafael Cortez, cientista político da Tendências, o aumento da violência na retórica política é sintoma de um movimento mais amplo de fragilização da confiança na democracia. Ele cita como episódios que alimentaram esse processo os questionamentos sobre o resultado da eleição levantados pelo PSDB na Justiça eleitoral após a derrota de 2014, os ataques do PT ao sistema judiciário, os bate-bocas entre ministros do Supremo Tribunal Federal e o controverso processo de impeachment.

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"O ataque ao Bolsonaro parece ter sido realizado por um homem desequlibrado, sem uma articulação política por trás, mas não é um ato isolado. Pode ser visto como resultado de um processo longo de radicalização, alimentado pelas lideranças políticas", acredita.

Carlos Melo, cientista político do Insper, também considera que a violência na eleição deste ano tem "raízes" no agravamento da polarização entre os brasileiros nos últimos quatro anos.

"A gente vem num crescente de violência desde a campanha de 2014. A coisa começa com o nós contra eles, petralhas e tucanalhas, coxinhas e mortadelas, a desqualificação pessoal do adversário: um momento vai parar na rua", lamenta.

"Ao que tudo indica, foi um sujeito desajustado (que atacou Bolsonaro), não foi uma briga de torcidas ainda, mas precisa ter freio esse tipo de coisa", ressalta.

O professor do Insper lembrou outro ato grave acontecido em março, quando a caravana do ex-presidente Luiz Inácio da Silva foi atingida por tiros em uma estrada do Paraná e criticou o hoje candidato do PSDB a presidente, Geraldo Alckmin, por não ter repudiado com veemência o ataque.

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Image caption Principais lideranças políticas foram unânimes em repudiar ataque a Bolsonaro

"Acho que eles (petistas) estão colhendo o que plantaram", disse o tucano na ocasião.

Já a senadora presidente do PT, Gleisi Hoffmann, subiu o tom no início do ano ao repudiar a possibilidade de Lula ser preso após condenação em segunda instância, o que acabou ocorrendo em abril.

"Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar", declarou em janeiro, dias antes do julgamento do petista no Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

Bolsonaro, por sua vez, tem instigado a violência contra adversários durante toda sua trajetória política, declarações que ganham novo peso agora que lidera a corrida presidencial, com pouco mais de 20% das intenções de votos.

O candidato do PSL já defendeu, em 2000, que o então presidente Fernando Henrique Cardoso deveria ser fuzilado. Já no último sábado, durante campanha em Rio Branco, voltou a usar o verbo contra petistas: "Vamos fuzilar a petralhada toda aqui do Acre!".

Após o atentado contra Bolsonaro nesta quinta, porém, as principais lideranças políticas foram unânimes em repudiar o ato, sinalizando para uma possível moderação da radicalização.

Como fica a corrida eleitoral?

O impacto do episódio sobre a já incerta corrida eleitoral deste ano não está claro. Não se sabe ainda por quanto tempo Bolsonaro ficará impedido de realizar atos de campanha e participar de debates entre os candidatos.

Para Carlos Melo, do Insper, é possível que a comoção em torno do ataque favoreça Bolsonaro em um primeiro momento. Por outro lado, destaca, o eleitorado pode ficar mais crítico ao seu discurso agressivo.

Na avaliação de Rafael Cortez, o episódio não deve provocar um aumento significativo nas intenções de voto no candidato do PSL, mas pode contribuir para consolidar o apoio que ele tem hoje, evitando a esperada "desidratação" do seu eleitorado com início da campanha eleitoral em rádio e televisão (em que ele tem um espaço mínimo de exposição).

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Image caption 'A coisa começa com o nós contra eles, petralhas e tucanalhas, coxinhas e mortadelas, a desqualificação pessoal do adversário: um momento vai parar na rua', diz Melo

Diante do atentado, o candidato com maior tempo de propaganda eleitoral, Geraldo Alckmin, será obrigado a rever sua estratégia de fortes ataques a Bolsonaro, ressalta.

Se mantiver seu patamar atual, de 22% das intenções de voto segundo a última pesquisa Ibope, as chances de Bolsonaro chegar ao segundo turno são altas.

"Esse ataque pode colocar o Bolsonaro no local de vítima, causando uma reação dos seu apoiadores parecida com a que ocorre com parte dos defensores de Lula, que vê o petista como perseguido político", analisa o cientista político da Tendências.

Mesmo condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Lula aparecia nas pesquisas eleitorais com quase 40% de preferência do eleitorado, mas foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na semana passada. A expectativa é que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad seja anunciado como seu substituto pelo PT até terça-feira.

Para Cortez, o atentado contra Bolsonaro pode atrapalhar a transferência de votos do ex-presidente para Haddad caso haja uma percepção de que o ataque partiu de alguém de esquerda, simpatizante do PT. As primeiras informações apuradas pela Polícia Federal, no entanto, não indicam qualquer ligação do suspeito com o partido de Lula.

Adélio Bispo de Oliveira é solteiro, de 40 anos, e morador de Juiz de Fora. Ele foi filiado ao PSOL entre 2007 e 2014. Suas postagens no Facebook indicam um perfil político mais à esquerda, porém com alguns elementos contraditórios como apoio à redução da maioridade penal, tema mais frequentemente defendido pela direita, e rejeição generalizada a políticos. Ele também criticava a ex-presidente Dilma Rousseff.