Eleições 2018: Juntos, Bolsonaro e Haddad têm menor intenção de voto para primeiros colocados desde 1989

Jair Bolsonaro (à esquerda), Fernando Haddad (à direita) Direito de imagem Reuters
Image caption Bolsonaro e Haddad tem, juntos, metade das intenções de voto - a outra metade está dispersa entre outros candidatos ou brancos e nulos

Os líderes das pesquisas Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) têm, juntos, metade da intenção de votos dos brasileiros. Só em 1989 os dois primeiros colocados tiveram tão pouco, a essa altura da disputa presidencial. Faltam 11 dias para o primeiro turno das eleições 2018.

Segundo pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira, Bolsonaro lidera com 27%, seguido por Haddad, com 21%. A outra metade dos eleitores está dispersa entre os demais 11 presidenciáveis (34%) ou não têm candidato (brancos, nulos ou pessoas que não sabem são 18%).

É muito mais do que nas últimas eleições presidenciais. Em 2014, os eleitores que não votavam nos dois primeiros representavam 33% do total. Em 2010, 23%. Em 2006, um 21%. Em 2002, cerca de 40%. Em 1998 e 1994, em torno de 30%.

Já em 1989, Fernando Collor e Lula foram para o segundo turno com, juntos, apenas metade dos votos - algo semelhante com o cenário traçado pelas últimas pesquisas para as eleições 2018.

"A eleição nunca esteve tão fragmentada. O eleitor foi colocado diante de diversas opções. A direita, que antes se unia em torno do PSDB, está dispersa entre várias candidaturas. Por outro lado, à esquerda, há o PT e um candidato que reúne a ala desiludida com o partido", afirma Marcia Dias, professora de ciência política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

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A BBC News Brasil analisou as últimas duas pesquisas Ibope e destaca abaixo esse e outros pontos mais importantes.

1) No 1º turno, metade do eleitorado diz que não vota nem em Bolsonaro nem Haddad

A intenção de voto nos dois primeiros colocados é baixa se comparadas com as últimas eleições presidenciais. Desde 1994, o primeiro colocado das pesquisa tinha 40% ou mais. Junto com o segundo colocado, aglutinavam a maioria dos eleitores - ao contrário de hoje.

Em 2014, faltando cerca de 10 dias para o primeiro turno, Dilma Rousseff tinha 40% da intenção de voto e Marina Silva, naquele momento em segundo lugar, somava 27%, segundo pesquisa Datafolha da época. Assim, 33% dos eleitores não optavam nem por uma nem por outra.

Já em 2010, na reta final da campanha, a então candidata Dilma marcava 49%, seguida de José Serra, com 28%, também de acordo com o Datafolha. Os demais eleitores eram 23%.

Em 2006, Lula, candidato à reeleição, tinha 50% da intenção de voto há pouco mais de uma semana do primeiro turno. Seu oponente, Geraldo Alckmin, tinha 29%. Assim, apenas 21% dos eleitores tinham outras escolhas.

Em 2002, Lula tinha 44% e Serra 19%. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso tinha 46%, contra 25% de Lula. Em 1994, os candidatos eram os mesmos, o primeiro com 47% e o segundo com 22%.

"Até 2014, PT e PSDB aglutinavam o sistema político em torno de si. Nessa eleição, o sistema político se diluiu. Nenhum partido parece ter força e credibilidade para aglutinar tantos votos em torno de si. Houve essa fragmentação. Nesse aspecto, é uma eleição mais parecida com 1989", compara o cientista político Carlos Melo, do Insper.

Naquele ano, Collor foi para o segundo turno com apenas 30% dos votos; Lula, com 17%. Mais da metade do eleitorado optou por outro candidato, votou branco/nulo ou se absteve.

Direito de imagem EPA
Image caption Ciro Gomes e Geraldo Alckmin ocupam a terceira e a quarta colocação, respectivamente, e tentam conquistar uma vaga no segundo turno na reta final das eleições

2) Eleitor que não vota em Bolsonaro ou Haddad está dividido

Na última semana, cresceu a especulação em torno da união dos candidatos que estão abaixo de Bolsonaro e Haddad, com objetivo de desbancar um dos líderes e chegar ao segundo turno. Juntos, os demais candidatos somam 34% da intenção de voto, no Ibope desta quarta-feira. A hipótese mais aventada era o apoio conjunto a Alckmin - do PSDB, que esteve no segundo turno nas últimas seis eleições.

Um encontro entre os candidatos chegou a ser convocado, mas naufragou. A este respeito, Marina disse que não se convida "para tirar as medidas com a roupa pronta". Ciro declarou que "é mais fácil um boi voar de costas" do que ele abrir mão da candidatura em favor de Alckmin.

O eleitor também não parece dar sinal de abandonar o bote dos seus candidatos. Ciro, Alckmin, João Amoêdo (Novo), Alvaro Dias (Podemos), Henrique Meirelles (MDB) estão estáveis. Apenas Marina está perdendo eleitores, pesquisa após pesquisa. "Não há nenhuma candidatura colada às duas primeiras, ou com qualquer tendência de crescimento, que possa agregar os eleitores", afirma Marcia Dias, da Unirio.

"Por que 50% do eleitorado que não está na polarização trocaria Jair Bolsonaro e Fernando Haddad por um desses outros candidatos?", pergunta Carlos Melo.

3) Diferença entre Bolsonaro e Haddad cai de 18 para 6 pontos em duas semanas

A diferença entre Bolsonaro e Haddad está em queda. Em 11 de setembro, quando a candidatura do petista foi registrada em substituição à de Lula, Bolsonaro estava 18 pontos à frente - 26% x 8%. Já na última pesquisa Ibope, a vantagem caiu para um terço, 6 pontos.

Analistas acreditam que essa diferença pode cair ainda mais. Primeiro, porque Bolsonaro parou de crescer nas pesquisas, pela primeira vez. Segundo, porque Haddad continua a apresentar tendência de alta.

Desde agosto, Bolsonaro vinha subindo ininterruptamente nas pesquisas: tinha 20% da intenção de votos, foi para 22%, então 26% e depois 28% - dados do Ibope. No Ibope de segunda-feira, manteve os 28%.

Já Haddad começou com 4% da intenção de voto, no final de agosto, quando ainda era candidato à vice na chapa de Lula. Subiu para 6%, em seguida 8%, disparou para 19 e chegou em 22%, também de acordo com o Ibope.

Em relação à semana passada, Haddad é o único candidato que cresceu. Além disso, outros números apontam que ele tem potencial de subir ainda mais. Ao serem questionados se votariam em Haddad caso ele fosse apoiado por Lula, 26% dos entrevistados pelo Ibope responderam "com certeza". Outros 19% dizem que poderiam votar no candidato de Lula.

Direito de imagem Reprodução Twitter Flávio Bolsonaro
Image caption Bolsonaro está impossibilitado de fazer campanha, se recuperando do atentado a faca que sofreu em 6 de setembro

4) Bolsonaro tem 33% dos votos válidos, longe do necessário para se eleger em 1º turno

Para ser eleito em primeiro turno, um candidato precisa ter 50% dos votos válidos mais um. Mas, nesse momento, os líderes das pesquisas estão muito longe desse patamar.

Segundo a última pesquisa Ibope, Bolsonaro tem 33% dos votos válidos - que excluem os votos brancos e nulos. Já Haddad, tem 25% dos válidos.

O ex-capitão do Exército não venceria em primeiro turno em nenhuma região do país, faixa de renda, escolaridade ou qualquer outro grupo pesquisado. Seus melhores resultados são entre homens (41% dos votos válidos), pessoas de maior renda (43%), na região Sul (44%).

Haddad não chega a 40% dos votos válidos em nenhuma faixa pesquisada. Seus maiores percentuais são no Nordeste (38%), menos escolarizados (33%), mais pobres (36%).

"Não acredito em vitória no primeiro turno em 2018. Só se houvesse um fenômeno igual da eleição para a Prefeitura de São Paulo em 2016, quando um terço dos eleitores não foi votar ou votou branco ou nulo", diz Carlos Melo, do Insper. Naquele ano, João Doria (PSDB) foi eleito prefeito com menos votos do que o total de votos nulos, brancos ou abstenções.

5) Aumenta rejeição de Bolsonaro entre as mulheres

Segundo o Ibope de segunda-feira, 54% das mulheres rejeitam Bolsonaro. Na semana passada, eram 50%. Entre uma pesquisa e outra, ganhou corpo na Internet a campanha #EleNão, em que mulheres postam a frase e se declaram contra a candidatura de Bolsonaro.

Para o próximo sábado, 29 de setembro, estão sendo planejadas manifestações de rua de mulheres contra Bolsonaro, em diversas cidades do país. "Vamos ver qual vai ser o tamanho desse movimento e qual vai ser o impacto no eleitorado", diz Marcia, da Unirio.

Se dependesse das mulheres, Bolsonaro não lideraria a corrida eleitoral. Entre elas, o candidato está empatado com Haddad, com 21%. A vantagem do ex-capitão do Exército é só entre os homens: 35% x 22%.

As mulheres são 53% do eleitorado. O baixo desempenho de Bolsonaro entre elas freia o crescimento do candidato e vai representar um grande desafio caso ele vá para o segundo turno. Em entrevista para a BBC News Brasil na semana passada, o cientista político Bruno Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais, exemplificou: "Se Bolsonaro conseguir 30% dos votos das mulheres, ele vai precisar de 70% dos votos dos homens para vencer. Fica difícil".

6) Metade dos eleitores de renda mais alta rejeita Haddad

Tanto a intenção de voto e como a rejeição a Bolsonaro e Haddad mudam completamente de acordo com a renda.

Na média, 30% dizem que não votariam de jeito nenhum em Haddad. Já entre quem tem maior renda, o percentual salta para 50%.

O caso de Bolsonaro é o oposto. O ex-capitão do Exército tem 46% de rejeição no total da população. Já entre os de maior renda, a rejeição cai para 38%. Entre os mais pobres, sobe para 57%.

Os números são mais positivos para Haddad, já que a quantidade de pobres é muito maior.

7) 6 de cada 10 eleitores de Bolsonaro dizem que apoiam suas ideias

A pesquisa Ibope divulgada nessa quarta-feira e contratada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) perguntou como o entrevistado definiria o apoio ao seu candidato. Gosta do candidato e apoia suas ideias? Gosta, mas tem dúvidas sobre algumas de suas ideias? Gosta, mas não conhece suas ideias? Gosta das ideias, mas não da pessoa?

No caso dos eleitores de Bolsonaro, líder das pesquisas, 62% responderam que gostam do candidato e apoiam suas ideias. Fazendo as contas, dá 17 pontos dentre os 27 de Bolsonaro. É uma espécie de núcleo duro, que diz estar de acordo com as opiniões do ex-capitão do Exército.

Na outra ponta, 18% dos eleitores de Bolsonaro dizem que têm dúvidas sobre algumas das suas ideias.

Image caption Ibope perguntou se as pessoas abririam mão de seus benefícios sociais, como aposentadoria e Bolsa Família, "para ajudar o Brasil sair da crise"

8) 6 de cada 10 eleitores não recebe nenhum benefício social

A pesquisa Ibope de segunda-feira, contratada pela TV Globo e pelo jornal O Estado de S. Paulo, incluiu duas perguntas não relacionadas ao cenário eleitoral, mas sobre benefícios sociais oferecidos pelo governo federal.

Primeiro, os entrevistadores apresentaram uma lista com os nomes dos benefícios e questionaram se a pessoa recebe algum deles. O resultado é que 6 de cada 10 entrevistados não recebe nenhum. Uma pequena parcela, 10%, recebe aposentadoria. Outros 12% têm Bolsa Família e 9% sacaram FGTS.

Em seguida, o entrevistador perguntou: "Pensando nesse benefício que você recebe, para ajudar o Brasil a sair da crise", você abriria mão totalmente dos benefícios, abriria mão de alguns, abriria mão por tempo indeterminado ou não abriria? O resultado foi um retumbante não: 3 de cada 4 disseram que não abririam mão "de jeito nenhum".

Os outros benefícios questionados são pensão por morte, seguro-desemprego, auxílio-doença, benefício de prestação continuada (o BPC, um pagamento de um salário mínimo para pessoa com deficiência ou idoso em situação de pobreza), tarifa social de energia elétrica, passe livre em transporte público, isenção de Imposto de Renda, FIES (programa de financiamento de mensalidades no ensino privado), carteira do idoso, farmácia popular, auxílio-maternidade.

Segundo o Ibope, a pergunta foi introduzida no questionário a pedido dos contratantes da pesquisa.

Informações técnicas sobre as pesquisas:

- a pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira (26) entrevistou 2 mil pessoas, entre 22 e 24 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%. O contratante da pesquisa é a Confederação Nacional da Indústria. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral com o número BR04669/2018.

- a pesquisa Ibope divulgada na segunda-feira (24) entrevistou 2.506 pessoas, entre 22 e 23 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos e o nível de confiança é de 95%. Os contratantes da pesquisa são a Globo e o jornal O Estado de S. Paulo. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral com o número BR06630/2018.

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