Eleições 2018: por que decidi votar em quem eu não queria no segundo turno

Maria Luiza Vianna, Marcio Monteiro e Renata Betti Direito de imagem Arquivo pessoal/BBC
Image caption Maria Luiza Vianna, Marcio Monteiro e Renata Betti (nessa ordem) explicaram voto à BBC News Brasil

Maria Luiza Vianna se diz antipetista de carteirinha mas, por rejeitar o discurso do Bolsonaro, vai votar em Haddad. Marcio Monteiro não é entusiasta das qualificações de Bolsonaro mas, no segundo turno, resolveu votar no candidato do PSL. Renata Betti afirma estar indignada em ter de escolher um dos dois candidatos à Presidência, e, em protesto, diz estar propensa a votar nulo.

Os relatos dos três brasileiros têm algo em comum: nenhum deles está satisfeito com a própria decisão de voto. Leia os depoimentos concedidos à BBC News Brasil.

Eleitor 1: Não votei em Haddad nem em Bolsonaro no 1º turno, mas agora vou votar em Haddad

Maria Luiza Vianna, administradora de empresas do Rio

Sou antipetista de carteirinha. Defendi o impeachment de Dilma Rousseff e só votei no PT uma única vez em 2002. Assim como muitos brasileiros que acreditaram em Lula, achei que o partido poderia limpar o Brasil da corrupção. Mas me decepcionei. Não vou negar que o governo petista trouxe avanços em diversas áreas, mas os escândalos foram muitos - e claramente comprovados. A prisão de Lula - embora envolvida em muita polêmica - simboliza como o partido se vendeu à velha política. Cheguei a brigar com a minha mãe, que é petista, quando ele foi preso.

Apesar de não querer o PT de volta à Presidência e acreditar que a alternância de poder seja vital para a nossa democracia, nunca daria meu voto a Jair Bolsonaro. Seus comentários vão de encontro a todos os meus princípios e valores. Bolsonaro discrimina gays, negros e mulheres. E não são os opositores deles que inventaram isso. Os comentários saíram de sua boca. Não existe fake news aí.

O problema de votar em Bolsonaro é legitimar esse tipo de violência. Ele defende, por exemplo, que a população ande armada. Fico pensando no que aconteceria durante uma briga de torcidas rivais. Seria uma tragédia. Ou alguém acha que as armas só vão ser usadas contra os bandidos?

Por causa do meu voto no PT, meu pai e minha madrasta, que vivem em Portugal, me bloquearam no WhatsApp. Tive que pedir o intermédio do meu meio-irmão para contornar a situação. Sou sempre a favor do diálogo, mas infelizmente nessas eleições me parece que as pessoas, mais do que nunca, não querem aceitar argumentos contrários aos seus. Estou muito triste.

Direito de imagem Reuters
Image caption Jair Bolsonaro e Fernando Haddad disputam presidência

Eleitor 2: Não votei em Haddad nem em Bolsonaro no 1º turno, mas agora vou votar em Bolsonaro

Marcio Monteiro, publicitário de São Paulo

Não vou votar no Bolsonaro. Vou 'desvotar' no PT. Não tenho nenhuma esperança de que Bolsonaro seja qualificado para a Presidência. Mas diante do perigo que o PT representa para o Brasil na minha opinião, acabei sendo forçado a votar nele. Primeiro porque sou radicalmente contra não votar. Já que sou contra e como minha prioridade política no momento é evitar que o PT retome o poder, não tive outra saída.

Fui eleitor do PT em 1989 e em 2002. Acreditava na promessa de redenção da política brasileira que o PT tinha. Quando vi que o partido, ao contrário do que falava, aparelhou o Estado brasileiro num dos maiores escândalos de corrupção de que se já teve notícia no mundo, me decepcionei muito. Acho que estavam caminhando, enquanto no poder, para transformar o Brasil numa nação socialista. Nunca vi um Estado socialista dar certo.

Meu grande medo é de que se eles voltarem ao poder, não vão sair mais. A Venezuela é um exemplo do que eu não quero que aconteça com o Brasil.

Reconheço que Bolsonaro já fez declarações polêmicas, mas assumo o meu voto. Dos males, é o menos pior. Para mim, Bolsonaro é o PT da direita. É extremamente despreparado e não tem um espírito de estadista. Ou seja, não pensa a política a longo prazo e ao bem do povo. Tenho consciência de tudo de mal que vai acontecer no Brasil com a posse dele. Mas me vi forçado a fazer essa escolha porque, por incrível que pareça, o PT para mim é pior. Mas respeito quem pensa diferente de mim.

Não sofri críticas pesadas ou ameaças por causa do meu posicionamento. Sou muito ativo no Facebook, mas meus seguidores pensam como eu.

Eleitor 3: Não votei em Haddad nem em Bolsonaro no 1º turno, e agora vou votar branco/nulo

Renata Betti, 35 anos, empresária de São Paulo

Minha decisão de anular talvez mude às vésperas das eleições. Mas neste momento ainda não estou convencida de que nenhum dos dois candidatos será bom para o Brasil. Não se trata de uma escolha fácil. E, por enquanto, não me sinto confortável de votar nem em Bolsonaro nem em Haddad. Na verdade, estou indignada de que tenho que escolher entre os dois. Para mim, ambos são muito ruins.

Além disso, não quero entrar nesse furacão de ódio que está acontecendo no Brasil. Abrir o voto já é motivo para brigas e discussões. As pessoas estão extremamente polarizadas. Ninguém vai convencer ninguém de nada.

Por causa da minha posição, fui julgada pelos dois lados. Meus amigos e familiares me disseram que eu preciso me posicionar, sair de cima do muro.

Mas meu voto nulo é um voto de protesto. Não acho justo ter que decidir entre duas opções horríveis. Em outras palavras, se eu quero morrer de "ataque cardíaco ou de câncer".

Não acho que o voto tinha que ser obrigatório no Brasil. Acredito que, ao votar nulo, estou exercendo meu direito de não votar em ninguém. Não quero me sentir responsável por nenhum dos dois lados porque sei que os dois vão ser muito ruins para o Brasil. Vou dormir melhor sabendo que não tomei parte disso.

Sei que o voto nulo acaba favorecendo o candidato que está liderando as pesquisas. Mas é a única forma de protestar contra a atual situação.

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