Bolsonaro presidente: Como o PSL de Jair Bolsonaro deixou de ser nanico e já almeja virar maior bancada da Câmara

Convenção do PSL que oficializou candidatura de Jair Bolsonaro Direito de imagem Fernando Frazão/Agência Brasil
Image caption Convenção do PSL que oficializou candidatura de Jair Bolsonaro; o presidente eleito se filiou à sigla em março deste ano

Prefeito de Ressaquinha (MG), Manoel da Silva Ribeiro, conhecido na cidade de 4,6 mil habitantes como Dr. Manoel, descreve sua relação com o Partido Social Liberal (PSL) como um "amor longo". Afinal, ele foi eleito pela primeira vez ao cargo em 2000, na primeira eleição municipal à qual concorreu o partido após sua oficialização, em 1998.

Mas, se é longa, a relação de Dr. Manoel com o PSL é também uma espécie de namoro à distância. Ele diz nunca ter tido contato com a representação nacional do partido – só foi uma vez a Brasília, de passagem, onde conheceu alguns dirigentes da sigla dos quais não se lembra o nome. O próprio enlace inicial com o partido foi à distância, resumindo-se no envio de alguns documentos.

"O partido nunca me deu dinheiro para campanha, nunca me deu nada. Mas também não me cobrou nada. Eles ficavam lá e eu aqui, tocando o meu serviço", disse o prefeito mineiro à BBC News Brasil por telefone.

Se reconhece a pouca "rigidez" da sigla, Ribeiro justifica o "amor longo" ao partido como uma união que o permitiu ter uma história "feliz" na cidade, sendo eleito três vezes pela sigla e protagonizando administrações que diz terem sido altamente exitosas.

Partido de 'uma pessoa só'

A expansão avassaladora do PSL, que neste ano saltou de "nanico" a protagonista do pleito presidencial - com ambições de se tornar o maior partido da Câmara -, chega justamente no 20º ano desde a sua obtenção do registro definitivo no TSE, em 1998. A fundação ocorreu quatro anos antes.

O fundador, o empresário pernambucano Luciano Bivar, foi o único candidato do PSL à presidência antes de Jair Bolsonaro – tendo 0,06% dos votos válidos em 2006. Ele próprio disse à BBC News Brasil que ficou surpreso com a decisão de Bolsonaro de se filiar ao partido, no início do ano.

"O PSL era um partido na mão de uma pessoa, o Luciano Bivar. Não tinha um perfil de organização forte, militância, diretórios estaduais, uma agenda programática", aponta Flávia Roberta Babireski, doutoranda em ciência política e pesquisadora do Laboratório de Partidos Políticos e Sistemas Partidários.

Direito de imagem Luis Macedo / Acervo Câmara dos Deputados
Image caption Luciano Bivar: o nome por trás da fundação e projeto de renovação que teve desfecho surpreendente com Bolsonaro

Dos 11 candidatos da sigla eleitos em 1998, o primeiro pleito majoritário do qual o partido participou, oito (deputados estaduais e federais) migraram para outras legendas depois.

Na eleição mais recente, em 2016, foram 30 prefeitos do PSL eleitos em todo o Brasil - que tem mais de 5 mil municípios.

'Refundação'

A mudança começou nos últimos anos. No final de 2015, iniciou-se uma proposta de "refundação" do partido, com vistas às eleições de 2018. Um novo grupo dentro do PSL foi formado, chamado Livres, que após um amadurecimento de nomes e articulações, eventualmente levaria a uma mudança no estatuto, programa e nome do PSL.

"Entre 2015 e 2016, pessoas que faziam parte do movimento liberal no país foram contatadas. A ideia era a de que a Fundação Índigo, vinculada ao partido, fomentasse a formação de novos quadros. O Livres, incubado no PSL, refundaria o partido de forma orgânica. Havia conversas para a vinda de um grupo de cabeças-pretas do PSDB (como é conhecido um grupo de políticos tucanos jovens)", contou Mano Ferreira, diretor executivo do Livres, à BBC News Brasil.

Tudo isso foi acompanhado por Luciano Bivar, mas o protagonismo maior foi de seu filho, Sérgio Bivar.

O início de 2018 trouxe uma ruptura nos planos: Bolsonaro, saído do Partido Social Cristão (PSC), estava em busca de uma nova sigla e começaram a surgir rumores de que ele estava negociando a vinculação ao PSL. Muitos dos novos nomes do PSL, agrupados nos Livres, rejeitavam a figura de Bolsonaro.

Naquele momento, uma nota do Livres chegou a negar rumores, em nome do PSL: "Após solicitação feita por Bolsonaro, o presidente nacional do PSL e também deputado federal, Luciano Bivar, recebeu-o em reunião. Conversaram sobre o Imposto Único, histórica bandeira do PSL. Em função das evidentes e conhecidas divergências de pensamento, o projeto político de Jair Bolsonaro é absolutamente incompatível com os ideais do LIVRES e o profundo processo de renovação política com o qual o PSL está inteiramente comprometido".

Mudança repentina

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Image caption Bolsonaro impulsionou outras candidaturas, como as de Joice Hasselmann (ao centro) e Helio Fernando Lopes (em pé, batendo palmas)

Os desdobramentos, porém, mostrariam que aquela reunião tinha pautas além do Imposto Único.

"A mudança aconteceu em 48 horas. (Luciano) Bivar quebrou o acordo e ignorou todos os planos até ali. Saímos em janeiro de 2018 e hoje somos um movimento suprapartidário", explica Ferreira. Ele diz que, no segundo turno, o movimento não apoiou nem Bolsonaro nem Haddad.

Filho de Luciano, Sérgio foi um daqueles que pediu desfiliação do PSL e hoje está no Livres.

"Aos meus olhos, Bolsonaro é como Lula, um candidato antissistema, carismático, com ares messiânicos de justiceiro, dotado de uma visão estatista e autoritária, que surfa na demagogia. Ainda que ele venha sendo assessorado por liberais no campo econômico, não acho que tenha convicções sobre a matéria, o que faria seu possível governo imprevisível", dizia uma carta interna de Luciano vazada na época da desfiliação, em janeiro.

Decisão pragmática

O que explica essa mudança repentina nos planos?

"Não vou negar que foi considerada a própria sobrevivência do partido, já que poderíamos não passar a cláusula de barreira. Foi algo pragmático", disse à BBC News Brasil uma fonte do PSL, que preferiu não se identificar e que descreve a relação de Bolsonaro com o partido como "saudável".

Segundo a fonte, a lógica do Bolsonaro não conflitava 100% com a lógica do PSL: havia concordâncias em temas como segurança e liberdade econômica. Já o que chamou a atenção de Bolsonaro foi o perfil do partido de não se vender por cargos, ou de ter dirigentes envolvidos em corrupção.

Em entrevista à BBC News Brasil por telefone, Luciano Bivar disse que desde o início apresentou ao candidato as perspectivas modestas da sigla.

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Image caption 'O descrédito na política trouxe esse efeito para a gente', diz fonte do PSL sobre desempenho nas urnas em 2018

"Eu já o conhecia desde 1998, pois fomos ambos deputados federais. Eu sabia da postura dele. Quando ocorreu a aproximação (neste ano), disse que entendia que poderia ser melhor para as perspectivas dele concorrer por um partido maior. Para minha surpresa, ele disse que nada disso, tempo de TV e acesso ao fundo eleitoral, o interessava. Firmamos então esse acordo", conta o empresário, que se elegeu à Câmara dos Deputados por Pernambuco, em sétimo lugar no volume de votos no Estado.

"O partido tem mais de 15 anos de idade e não foi formado para o projeto de uma eleição."

De nanico a gente grande

A filiação de Bolsonaro em março já ampliou, com a janela partidária do início do ano, a bancada do PSL na Câmara. Em 2014, o partido elegeu apenas um deputado federal, mas chegou a uma bancada com oito parlamentares na Casa.

Já os resultados no primeiro turno da eleição de outubro superaram até mesmo as metas do partido, segundo fontes ouvidas pela BBC News Brasil.

Além da eleição de Bolsonaro, o PSL conquistou a segunda maior bancada na Câmara dos Deputados, com 52 das 513 vagas para parlamentares. Ficou atrás somente do PT (56).

Mas representantes da legenda acreditam que o partido será beneficiado pela lei da chamada cláusula de barreira, que permite que políticos eleitos por siglas que não atingiram a cláusula de desempenho migrem para outros partidos sem perder o mandato. Há 14 partidos nessa situação.

"Já devemos começar em fevereiro (início da nova legislatura) com a maior bancada", afirmou à BBC News Brasil um nome da agremiação.

Além disso, o PSL também conquistou quatro das 81 cadeiras no Senado e tem três candidatos a governador concorrendo ao segundo turno nos Estados. Nas assembleias legislativas, as conquistas também foram exponenciais - como a votação recorde de Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, com deputado federal por São Paulo.

"Esperávamos eleger um presidente e 20 a 25 deputados. Foi surpreendente, tudo muito novo e rápido. Mudamos a lógica eleitoral, sem estrutura (como tempo de TV e fundos eleitorais), e varremos as urnas. O descrédito na política trouxe esse efeito para a gente", disse a fonte.

O PSL pós-Bolsonaro

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Image caption Executiva nacional do PSL é dividida entre nomes vinculados a Luciano Bivar e a Jair Bolsonaro - como, neste caso, o presidente da sigla, Gustavo Bebianno (foto)

Os resultados representam um salto nas perspectivas de acesso aos fundos partidários e eleitoral, além de tempo de TV no horário eleitoral.

Segundo um levantamento feito pelo jornal O Estado de São Paulo, o PSL terá a maior fatia do Fundo Partidário entre todas as siglas em 2019, cerca de R$ 110 milhões. Isto é 17 vezes mais do que o recebido pelo partido em 2017: R$ 6,2 milhões.

Apesar de ter eleito menos parlamentares que o PT, o PSL deverá ter mais verbas pois o critério para a distribuição do fundo partidário é a parcela de votos válidos obtidos para a Câmara - nesse caso, o partido de Bivar ficou na frente (11,6 milhões de votos, contra 10,1 milhões do PT).

Liberal ou antiliberal?

Mas para Mano Ferreira, do Livres, esses avanços do PSL vêm atrelados a custos, sobretudo no campo ideológico.

"Vemos uma discordância com Bolsonaro não só na questão dos costumes, mas também na economia. Seu histórico de votações mostra-o como o oposto do liberalismo, como a oposição ao Plano Real. Sobre os direitos humanitários, eles guiam o liberalismo no mundo inteiro, e também em relação a isso ele tem ideias antiliberais", diz Ferreira.

"Historicamente, as siglas têm dificuldade de se consolidar como um partido de direita no país. É lamentável que esta posição seja ocupada hoje por um partido que agora é extremista de direita."

Em um artigo de 2016, a pesquisadora Flávia Roberta Babireski já havia identificado o PSL como o partido de pequeno porte mais localizado à direita no espectro político brasileiro.

Segundo ela, a sigla se associava à ideia do Estado mínimo, do ensino profissionalizante e do estímulo à competição empresarial.

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Image caption Vista aérea mostra Esplanada dos Ministérios em Brasília; PSL teve crescimento avassalador no Congresso e elegeu presidente no segundo turno

Um levantamento da consultoria Arko Advice mostrou que, no primeiro semestre de 2018, o PSL foi a legenda mais fiel ao governo de Michel Temer na Câmara, acompanhando o governo em 67,7% das votações - à frente até mesmo do MDB do presidente (64,3%).

"Sempre defendi esse projeto liberal, sobre o qual escrevo desde a década de 80. Estes novos nomes que chegam hoje ao partido vieram imbuídos desse espírito, da defesa da propriedade privada, do respeito às tradições", diz Bivar, apontando como próximo plano conquistar a presidência da Câmara.

Dependência de Bolsonaro

Para Babireski, porém, o sucesso recente do partido é também uma vulnerabilidade, pois atrela profundamente o seu futuro ao de Jair Bolsonaro.

"O PSL nasceu com essa ideia liberal na economia, mas não tinha esse perfil conservador no sentido moral. Historicamente, o liberalismo tem dificuldade de 'pegar' no eleitor brasileiro, como acontece em países desiguais e pobres como na América Latina", aponta a cientista política.

"O destino do partido está relacionado ao que vai acontecer com o Bolsonaro. Se ele quiser sair do partido, nada o impede de trocar. Acabou ficando refém do líder, dessa figura personalista."

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