Bolsonaro presidente: Em discurso após eleição, Jair Bolsonaro se compromete com governo que siga 'ensinamentos de Deus ao lado da Constituição'

Simpatizantes de Bolsonaro em SP Direito de imagem Getty Images
Image caption Simpatizantes de Bolsonaro em SP; militar reformado teve cerca de 57 milhões de votos

Em suas primeiras aparições após ser consagrado o novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro falou por meio de suas páginas nas redes sociais e, em seguida, em discurso transmitido por canais de TV.

"Com toda certeza, essa é uma missão de Deus. Estaremos prontos para cumpri-la", disse Bolsonaro, antes de anunciar o "discurso da vitória". "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Nunca estive sozinho. Sempre senti a presença de Deus e a força do povo brasileiro".

Na fala, o capitão reformado evocou o respeito às leis, à democracia, à liberdade religiosa e, mais especificamente, ao direito à propriedade privada. Defendeu também uma estrutura administrativa "desburocratizada".

Mais cedo, em transmissão ao vivo por meio das redes, Bolsonaro sinalizou objetivos semelhantes. Confira aqui os principais trechos dos discursos.

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Image caption País inteiro foi às urnas neste domingo

O candidato do PSL foi eleito neste domingo o 38º presidente do Brasil - com quase 100% das urnas apuradas, ele recebeu 55,1% dos votos válidos, enquanto Fernando Haddad (PT) teve 44,9% dos votos.

Bolsonaro teve, assim, cerca de 57,7 milhões de votos, contra 47 milhões de votos em Haddad. Votos brancos, nulos e abstenções somaram aproximadamente 42 milhões.

O que disseram Temer, Haddad e lideranças internacionais

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Image caption Jair Bolsonaro votou nesta manhã no Rio

Já começaram as reações internacionais à eleição. Pelo Twitter, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, escreveu que "felicita o povo brasileiro por uma eleição limpa e democrática" e Bolsonaro por "seu grande triunfo eleitoral", convidando-o para visitar seu país.

A Venezuela, frequentemente refutada por Bolsonaro por sua associação ao que chama de "extremismo de esquerda", também se manifestou poucas horas depois da notícia da vitória do capitão reformado. O chanceler Jorge Arreaza publicou um documento em nome do presidente Nicolás Maduro, que parabeniza o presidente eleito com "sinceras felicitações" pela vitória na "celebração cívica" do segundo turno.

"O governo bolivariano aproveita a ocasião para exortar o novo presidente eleito do Brasil a retomar, como países vizinhos, o caminho das relações diplomáticas de respeito, harmonia, progresso e integração regional, pelo bem-estar dos nossos povos", diz o texto.

Outro mandatário que se manifestou foi Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha, pelo Twitter: "O povo brasileiro decidiu seu futuro para os próximos anos. Os desafios serão enormes. O Brasil sempre contará com a Espanha para conseguir uma América Latina mais igualitária e mais justa, a esperança que há de iluminar as decisões de todo governante".

No Brasil, o presidente Michel Temer relatou, também no Twitter, ter telefonado para Bolsonaro: "Falei com o presidente eleito @jairbolsonaro. Pude perceber seu entusiasmo, não só quando conversou comigo, como agora quando fez declarações que buscam a unidade, a pacificação e harmonia do país. Disse a ele que a partir de amanhã iniciaremos a transição".

Não há registro de que o candidato derrotado Fernando Haddad tenha telefonado para o capitão reformado. Em discurso para militantes em São Paulo, o petista comentou o desenlace do pleito.

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Image caption O candidato do PT, Fernando Haddad, votou em São Paulo, cidade onde foi prefeito

Ele agradeceu aos familiares, correligionários, aliados e eleitores.

"Nós vivemos um período já longo em que as instituições são colocadas à prova a todo instante. A começar em 2016, quando tivemos o afastamento da presidenta Dilma. Depois, com a prisão injusta do presidente Lula; a cassação do registro da sua candidatura, desrespeitando uma determinação das Nações Unidas. Mas nós seguimos, seguimos de cabeça erguida, com determinação. Seguimos com coragem, para levar nossa mensagem aos rincões do país", disse.

"Nosso compromisso é um compromisso de vida com este país. Nós temos uma longa trajetória de militância, de vida pública", disse, clamando por uma reconexão com as "bases" da população.

Brasil foi às urnas dividido por abismo ideológico

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Image caption Em alguns lugares, como este na Rocinha, no Rio, as pessoas fizeram fila para votar logo pela manhã

Neste segundo turno, as sessões de votação ficaram abertas das 8h às 17h em todo o Brasil e nos postos de votação no exterior. Eleitores de 13 Estados e do Distrito Federal também definiram seu governador - nos demais, a eleição foi liquidada no último dia 7, quando também foram eleitos senadores e deputados federais e estaduais.

Já na parte da manhã, os dois candidatos à Presidência votaram. Bolsonaro votou em uma escola municipal na Vila Militar, no bairro de Deodoro, Zona Oeste do Rio. O capitão reformado do exército compareceu às urnas acompanhado de sua mulher, Michele. Já Haddad votou na Brazilian International School, escola localizada no bairro de Moema, Zona Sul de São Paulo. Ele votou acompanhado de sua mulher, Ana Estela.

Se em 2014, os país saiu rachado da votação que reelegeu Dilma Rousseff (PT) com uma diferença apertada, em 2018 chega às urnas dividido pelo "ódio" e por um abismo ideológico, segundo especialista da Universidade Harvard, nos EUA.

Image caption Manifestante comemora vitória de Bolsonaro no Rio de Janeiro | Foto: Júlia Dias Carneiro/BBC News Brasil

A BBC News Brasil entrevistou dois dos maiores especialistas em política e democracia do mundo para entender como se formou essa divisão na sociedade e o que pode acontecer após a eleição.

O possível futuro desenhado por eles não é dos melhores: cenários de extrema divisão dificultam a governabilidade e estimulam a adoção de medidas autoritárias, afirmam.

A eleição afetou você? Não se sinta sozinho

Angústia, medo, tristeza, raiva, insegurança... esses são alguns dos sentimentos que têm atormentado muitos brasileiros nos últimos meses.

Marcada por agressões e ofensas, a disputa presidencial, principalmente no segundo turno, tem ampliado e até estimulado o confronto entre as pessoas.

Conversamos com especialistas e mostramos que esse fenômeno não é exclusividade nossa: na disputa de 2016 nos EUA, da qual Donald Trump saiu vitorioso, mais da metade das pessoas afirmou que a a disputa eleitoral era fonte de estresse.

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