Josef Mengele: os 40 anos da morte do médico nazista que viveu 17 anos em SP

Romeu Tuma analisa ossada de Mengele Direito de imagem Ass. Nac. dos Delegados de Polícia Federal
Image caption Então superintendente da Polícia Federal em São Paulo, Romeu Tuma analisa a ossada de Josef Mengele

Bertioga, 7 de fevereiro de 1979. O cabo da PM Espedito Dias Romão já se preparava para passar o plantão e ir para casa quando atendeu a uma chamada de emergência. Do outro lado da linha, alguém avisava de um corpo na Praia da Enseada. Ao chegar ao local, por volta das quatro da tarde, encontrou a praia deserta.

Na areia, apenas o banhista morto e um casal de austríacos, Wolfram e Liselotte Bossert. "Não havia mais nada que pudesse fazer. Ele já fora resgatado da água sem vida", recorda Romão, hoje aposentado, aos 72 anos. "Por se tratar de um mal súbito, acredito que tenha sido fulminante. Mas, não posso garantir."

A documentação apresentada por Wolfram identificava o defunto como Wolfgang Gerhard, um austríaco de 54 anos. Só em 1985, Romão veio a descobrir que Gerhard era um dos muitos pseudônimos que Josef Mengele - acusado de ter enviado milhares de prisioneiros para a morte em campos de concentração e de ter realizado experimentos crueis em mais de três mil gêmeos - usou para viver incógnito depois da Segunda Guerra. O verdadeiro Gerhard morreu em 16 de dezembro de 1978 e foi sepultado em Graz, na Áustria, sua terra natal.

Direito de imagem Arquivo pessoal
Image caption Cabo da PM só descobriu seis anos depois que homem que se afogou em praia onde trabalhava era Josef Mengele

A lista de nomes falsos adotados por Mengele é extensa e inclui, entre outros, Fritz Ullmann, Helmut Gregor e Fausto Rindón. Só no Brasil, foram dois: Peter Hochbichler e Wolfgang Gerhard. "Nosso país nunca foi uma opção para Mengele por causa da presença de índios e negros. Na América do Sul, ele preferia a Argentina. Por ter muitos alemães e simpatizantes do nazismo, se sentia em casa", explica o jornalista e historiador Marcos Guterman, autor de Nazistas Entre Nós - A Trajetória dos Oficiais de Hitler Depois da Guerra (2016).

"Mengele só fugiu para cá porque temia ser capturado como Adolf Eichmann", completa o historiador, referindo-se a outro criminoso de guerra, capturado em maio de 1960, na Argentina, e enforcado em junho de 1962, em Israel.

O médico e o monstro de Auschwitz

Quando a derrota na Segunda Guerra tornou-se uma questão de dias, os oficiais nazistas só tinham três decisões a tomar: suicídio, prisão ou tentativa de fuga. Em 17 de janeiro de 1945, quando tropas soviéticas estavam a dez dias de tomar Auschwitz, Mengele optou pela terceira alternativa. Sob o pseudônimo de Fritz Ullmann, trabalhou, por quatro anos, numa plantação de batatas no sul da Alemanha.

Em junho de 1949, seguiu para a Argentina, onde trocou novamente de identidade e virou Helmut Gregor. Quando a Alemanha pediu sua extradição, fugiu para o Uruguai. Em 1959, migrou para o Paraguai e, dois anos depois, para o Brasil.

"Mengele era de família rica. Na Argentina e no Paraguai, contou com a ajuda de outros ex-oficiais nazistas. Chegou a ser dono de uma farmacêutica na Argentina, de onde tirava um bom dinheiro", relata Guterman.

Direito de imagem Museu Memorial do Holocausto dos EUA
Image caption Sob o pseudônimo de Fritz Ullmann, Mengele (segundo da esquerda para a direita) trabalhou, por quatro anos, numa plantação de batatas no sul da Alemanha antes de fugir para a Argentina

Josef Mengele nasceu em Günzburg, na Alemanha, no dia 16 de março de 1911. Seu pai, Karl, era um rico industrial do ramo de equipamentos agrícolas. Mas, em vez de assumir os negócios da família, preferiu estudar medicina em Frankfurt.

Formado em 1938, foi admitido em Auschwitz cinco anos depois, como coronel-médico da SS, a tropa de elite do regime nazista. Logo, ganhou o título de O Anjo da Morte. "Mengele foi o mais sádico e cruel de todos. Como se estivesse brincando de Deus, selava o destino dos prisioneiros que chegavam a Auschwitz. Enquanto uns seguiam para o campo de trabalhos forçados, outros eram jogados nas câmaras de gás", explica o jornalista americano Gerald Posner, autor de Mengele - The Complete Story (2000).

Um terceiro grupo, formado por gêmeos, anões e deficientes físicos, era usado como cobaia de experimentos macabros no pavilhão batizado de "zoológico". Suas pesquisas, que nada contribuíram para a ciência, consistiam, entre outras atrocidades, em testar os limites do ser humano em temperaturas altíssimas - como caldeirões de água fervente - ou injetar cimento líquido nos úteros das prisioneiras para avaliar os efeitos da esterilização em massa.

Recluso, gostava de ler poesia e ouvir música clássica

Assim que chegou ao Brasil, em 1961, Mengele passou a se chamar Peter Hochbichler e foi morar em Nova Europa, a 318 km de São Paulo. Por intermédio de Wolfgang Gerhard, um simpatizante de Hitler que morava no país desde 1948, foi apresentado ao casal Geza e Gitta Stammer.

Como estavam à procura de alguém para administrar sua fazenda de café, resolveram contratá-lo. Um ano depois, se mudaram para Serra Negra. "De tão campesino, nosso município não tinha sequer asfalto. Era o lugar ideal para alguém se esconder", afirma o historiador Pedro Burini, autor de O Anjo da Morte em Serra Negra (2013). "Como os Stammer eram húngaros, Mengele ficou conhecido na região como Pedro Hungarês. Ou, simplesmente, Pedrão."

Direito de imagem Museu Memorial do Holocausto dos EUA
Image caption Filho de um rico industrial do ramo de equipamentos agrícolas, Josef Mengele nasceu em Günzburg, na Alemanha, no dia 16 de março de 1911

Sob o pretexto de observar pássaros, Mengele mandou construir uma torre, com cerca de seis metros de altura, no telhado do sítio. Munido de binóculos, passava horas lá em cima, vigiando quem entrava e saía da propriedade.

"Mengele vivia sob constante tensão. Tinha pavor de ser capturado por agentes do Mossad, o serviço secreto de Israel", relata o jornalista francês Olivier Guez, autor de O Desaparecimento de Josef Mengele, previsto para ser lançado, ainda este ano, pela editora Intrínseca.

"O pavor era tanto que deixou o bigode crescer. Acreditava que, por debaixo dele, ninguém o reconheceria. O problema é que, de tanto mastigar os fios do bigode, formou-se uma bola de pelos em seu estômago, que o obrigou a fazer uma cirurgia."

Direito de imagem Pedro Burini
Image caption Ex-médico nazista Josef Mengele viveu 17 anos em cidades paulistas

Paranoico, Mengele raramente saía de casa. Passava os dias recluso, lendo Goethe e ouvindo Strauss. Quando precisava ir à cidade, vestia capa e chapéu. Não satisfeito, ia escoltado por uma matilha de cães que ele mesmo adestrou.

A amizade com os Stammer chegou ao fim em 1975, quando Geza descobriu que Mengele e sua mulher tiveram um caso. Foi quando o criminoso de guerra mais procurado de todos os tempos se viu obrigado a mudar de endereço. Dali em diante, perambulou por diversas cidades paulistas, como Caieiras, Diadema e Embu.

Procura-se vivo ou morto. Recompensa: US$ 3,4 milhões

Seu último esconderijo foi a residência dos Bossert, no bairro do Brooklin, na capital paulistana. À época, Gerhard precisou regressar para a Áustria e deixou toda sua documentação com Mengele.

De saúde frágil, o médico de Auschwitz queixava-se de insônia, hipertensão e reumatismo. À noite, não ia para a cama sem esconder uma velha pistola Mauser, uma semiautomática de origem alemã, sob o travesseiro. Faz sentido. Sua cabeça valia, na ocasião, um prêmio estimado de US$ 3,4 milhões, algo em torno de R$ 12 milhões.

Direito de imagem Pedro Burini
Image caption Esqueleto de Mengele é usado desde 2016 como material didático em aulas de medicina forense da USP; na imagem, torre de sua casa em Serra Negra

Em outubro de 1977, quando morava na Estrada do Alvarenga, próximo à represa Billings, Mengele recebeu uma visita inusitada: Rolf, seu filho. Ao longo de duas semanas, quis ouvir do pai sua versão sobre Auschwitz.

Em entrevista ao programa The Phil Donahue Show, de 17 de junho de 1986, Rolf Jenckel, hoje advogado em Munique, na Alemanha, relata que, em nenhum momento o velho demonstrou culpa ou remorso: "Não admitiu que fez nada de errado. Disse apenas que estava cumprindo ordens."

Sob o nome falso de Wolfgang Gerhard, o corpo de Mengele foi sepultado no cemitério de Nossa Senhora do Rosário, em Embu das Artes. Provavelmente estaria lá até hoje se, em maio de 1985, a polícia alemã não tivesse interceptado cartas dos Bossert endereçadas a Hans Sedlmeier, um ex-funcionário da família Mengele.

Desconfiadas, as autoridades alemãs acionaram a polícia brasileira que, sob a responsabilidade do superintendente da PF em São Paulo, o delegado Romeu Tuma, resolveu fazer buscas na residência do casal e descobriu toda a verdade.

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Image caption Boletim de ocorrência do afogamento de Mengele foi registrado com um de seus nomes falsos

O corpo de Mengele, então, foi exumado e seus restos mortais examinados pela equipe do legista Daniel Romero Muñoz, então diretor do setor de antropologia do Instituto Médico Legal de São Paulo. Seu laudo, de julho de 1985, foi confirmado, sete anos depois, por um exame de DNA feito na Inglaterra: a ossada era mesmo de Mengele.

Como o filho nunca requisitou o corpo do pai, seu esqueleto é usado, desde 2016, como material didático em aulas de medicina forense da USP. Diante disso, Israel deu o caso por encerrado.

Encerrado? Não para o historiador polonês naturalizado brasileiro Henry Nekrycz. Em Mengele - A Verdade Veio à Tona (1994), Ben Abraham, como era mais conhecido, sustenta que tudo não passou de uma farsa. O corpo enterrado no Brasil em 1985 não era do médico nazista e, sim, de um sósia.

"Consigo entender quando um sobrevivente do Holocausto, como Ben Abraham, não se conforma que seu carrasco, Mengele, tenha morrido placidamente numa praia paulista, sem pagar pelos crimes que cometeu. Mas o fato é que Mengele morreu e foi enterrado em São Paulo. O resto é teoria da conspiração", avisa Guterman.

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