A batalha de uma mãe em busca da filha levada por falso cônsul nigeriano - que terminou com final feliz

Laurimar e a filha Direito de imagem Cortesia/Laurimar Pires
Image caption Keke e a mãe Laurimar, no primeiro encontro na Nigéria, três meses depois que a menina tinha sido levada pelo pai

Atinuke Pires Akinruli, de 9 anos, foi levada à Nigéria pelo pai sem o consentimento da mãe em janeiro de 2019.

Desde então, a psicóloga Laurimar Pires acusa o ex-marido de sequestrar a filha e protagoniza uma verdadeira batalha para tentar levar a criança de volta para casa, em Belo Horizonte (MG).

O nigeriano Michael Olusegun Akinruli, que se apresentava como cônsul da Nigéria na capital mineira mesmo sem ocupar o cargo oficialmente segundo o Itamaraty, usou uma viagem de férias autorizada pela Justiça de Minas Gerais para mudar de país e, em seguida, desaparecer com a criança.

Mas essa história terminou com um final feliz para a mãe de Keke, apelido da menina.

Laurimar, que foi no início de abril à Nigéria para procurar a filha, embarcou com a criança nesta sexta (21) de volta para casa, depois de seis meses de batalhas judiciais e de uma busca dramática, que envolveu até a Interpol.

O caso passou a ser tratado como sequestro internacional interparental e o nome do africano entrou para lista de procurados, com um alerta vermelho da Interpol.

Na segunda-feira (17), o pai foi detido na Nigéria, diz Nádia de Castro Alves, advogada de Laurimar. Mas foi preciso convencê-lo, mesmo preso, a autorizar o retorno da filha ao Brasil.

Durante toda a semana, mãe e filha, ficaram no Consulado do Brasil em Lagos à espera da autorização.

"Assim que o Michael concordou em autorizar a viagem ela comprou as passagens e entrou no avião", diz a advogada.

'Impura para ser mãe'

Laurimar e Michael foram casados por sete anos. A separação aconteceu quando a filha tinha três anos de idade.

Os dois tinham guarda compartilhada da criança e tudo parecia normal até o dia em que a psicóloga decidiu se casar com outra pessoa em 2016, conta a advogada de Laurimar.

"Nos processos (que Michael moveu contra Laurimar), o pai sugere que a ex-mulher não era mais 'digna' de ser mãe da filha, que era ela impura por ter ficado com outro homem", explica a advogada de Laurimar.

A advogada conta que desde 2016 Michael Olusegun Akinruli tentava na Justiça autorização para sair do país com a filha.

Em 2016, Michael dizia querer levar a filha para a Disney e outros países numa viagem de dois meses. O processo se arrastava havia anos.

Em dezembro de 2018, um dia antes do recesso do Judiciário, ele conseguiu uma autorização diferente, que lhe assegurava o direito de viajar com Keke à Nigéria sem a necessidade da assinatura da mãe. "Foi uma manobra judicial", diz a advogada.

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Trecho da conversa por telefone entre Laurimar e a filha em fevereiro, mais de um mês depois de terem se falado pela última vez

Mas Michael não contou nem para a filha nem para a mãe da menina que pretendia deixar o país.

A advogada da mãe da garota conta que Michael abriu mão de ficar com a filha durante o Ano Novo, como combinado inicialmente, e, no dia 9 de janeiro, a buscou para passar férias com ele.

"Nem mesmo a menina sabia que estava indo para a Nigéria, já que, segundo Laurimar, a criança relatou, por meio de telefonema, que achou que ela e o pai estavam apenas indo para São Paulo comprar uma boneca que ela queria", escreveu a delegada Renata Ribeiro, da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente em Minas, que pediu a prisão do pai, num relatório.

Laurimar só ficou sabendo da viagem dois dias depois, quando o ex-marido lhe informou, por email, que tinha levado a menina para a Nigéria.

A decisão judicial permitia a Michael ficar com a filha no exterior até o dia 3 de fevereiro. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio de nota, informou que a autorização foi concedida para que a viagem acontecesse no período de férias escolares.

Na nota, o TJMG diz ainda que, "considerando que a criança tem vários familiares na Nigéria, além da finalidade cultural e religiosa, a viagem tinha também a motivação de garantia da convivência familiar da criança com a família" do pai.

Falso cônsul

Ao esclarecer a concessão da autorização de viagem ao nigeriano, o TJMG também apresentou as credenciais do nigeriano.

"O postulante é cidadão nigeriano residente no Brasil há mais de 10 anos, cônsul da Nigéria em Minas Gerais, empresário registrado na Junta Comercial em Belo Horizonte, presidente do Instituto Iorubá (instituto cultural da religião Iorubá) e mestrando em relações internacionais na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com defesa de dissertação agendada para março do corrente ano", diz a nota do TJMG.

O Ministério das Relações Exteriores confirmou à BBC News Brasil que "não dispõe de informações de que o Sr. Michael Olusegun Akinruli tenha sido cônsul da Nigéria no Brasil, embora ele se apresentasse desta forma no país. De acordo com o jornal Hoje em Dia, a Embaixada da Nigéria no Brasil informou que Michael é um contato da embaixada em Minas Gerais, mas que não é cônsul.

Direito de imagem AFP
Image caption Pai levou a filha, inicialmente, para Lagos, na Nigéria

"Ele apresentou algumas informações falsas", diz a advogada de Laurimar, emendando que ele já tinha entregue a dissertação de mestrado.

O TJMG esclareceu ainda que a autorização de viagem foi concedida estritamente para viagem no período de 9 de janeiro a 3 de fevereiro de 2019.

Mas o dia 3 de fevereiro chegou e Keke não voltou à BH.

Nos primeiros dias depois do embarque, diz a defesa de Laurimar, a mãe conseguiu falar com a filha por telefone. O último contato, contudo, foi no dia 17 de janeiro.

A mãe foi à casa do ex-marido, em Belo Horizonte, mas ouviu de um vizinho que não havia ninguém na casa porque todos tinham se mudado.

Desesperada, procurou o juiz que havia autorizado a saída da criança do Brasil e a polícia.

Conseguiu a guarda unilateral da criança e, só depois disso, uma investigação foi aberta em Belo Horizonte, por determinação da Justiça, para apurar o sequestro da criança pelo pai.

No Brasil, segundo a delegada Renata Ribeiro, Michael está sendo investigado por subtração de incapaz, desobediência (por não ter voltado na data determinada), e falsidade ideológica (por ter usado informações falsas para conseguir tirar a filha de Belo Horizonte).

'A gente volta em 2020'

Enquanto tentava desesperadamente falar com a filha, Laurimar foi informada de que Michael entrou com um pedido de custódia da criança na Corte de Família da cidade de Lagos.

Havia mais de um mês que mãe e filha haviam se falado quando, no dia 21 de fevereiro, com a ajuda do Consulado do Brasil em Lagos, na Nigéria, a mãe conseguiu conversar ao telefone com a menina.

"Mãe! Mãe! Meu pai disse que a gente vai voltar em 2020", disse a filha, na conversa. O coração de Laurimar gelou ao ouvir a data, em especial porque sabia que a filha não tinha a dimensão exata do tempo.

Tanto a mãe quanto o pai usaram o viva-voz nesse diálogo, que foi gravado por Laurimar. Na conversa, a filha diz à mãe que está na Nigéria, que está bem e que está indo à escola. "Fica tranquila", pede Keke à mãe.

A mãe pergunta se foi o pai que pediu para ela falar isso. Silêncio do outro lado. O pai tenta intervir. A mãe diz que queria falar com a filha. O tom da conversa fica mais tenso. Ela afirma que o ex-marido conta mentiras. Ele pede para que ela não fale mal dele para a criança.

Keke também contou que estava ficando com uma tia e que o pai passava uns dias fora, trabalhando. Depois, a mãe descobriu que a menina estava numa cidade a 300 quilômetros de Lagos, onde o pai trabalhava.

"Só queria falar que estou com muita saudade. Vou lutar muito, muito, muito para a gente se encontrar rápido", diz a mãe na conversa.

Laurimar preparou as malas para ir à audiência que discutiria a guarda da filha na Nigéria. O visto saiu um dia antes do voo. Ela deixou em Belo Horizonte a filha de um ano de idade, e foi tentar trazer Keke de volta.

Na primeira audiência, o marido não apareceu nem levou a filha, como havia determinado a corte nigeriana, diz a advogada de Laurimar. Alegou que estava com malária.

Image caption Alerta vermelho da Interpol contra Michael Olusegun Akinruli, o falso cônsul que levou a filha mineira para a Nigéria

Ameaçado de ser preso, foi à corte com a filha dias depois. Foi a primeira vez que a mãe se encontrou com a garota desde que ela foi levada pelo pai.

Na ação, o pai alega que, desde a separação, era ele quem cuidava da filha.

Entre 26 de abril e 7 de maio, Laurimar conseguiu se encontrar com a filha algumas vezes. Sempre em lugares públicos, observada de longe pelo ex-marido, conta a advogada.

No início de maio, quatro meses depois de o pai ter viajado com a criança, a Justiça nigeriana declarou que não é competente para se pronunciar sobre a guarda da menina. Depois dessa decisão, o marido sumiu com a filha, diz a advogada de Laurimar.

A psicóloga decidiu não voltar ao Brasil sem a filha. Enquanto procurava Keke na Nigéria, a prisão de Michael foi decretada pela Justiça mineira e o nome dele foi parar na lista de procurados internacionais da Interpol.

"A Nigéria é um dos poucos países onde o alerta vermelho da Interpol vale como mandado de prisão local", conta Nádia de Castro Alves, advogada de Laurimar.

Com a ajuda da polícia nigeriana, a mãe descobriu a escola onde a filha foi matriculada. Keke já não estava estudando lá, mas foram informados o nome e o endereço de quem a levava e buscava na escola. Era uma tia, irmã de Michael, que chegou a ser detida por volta do dia 14 de junho.

A partir da irmã, localizaram o pai e a garota. "Eles estavam muito perto de Laurimar nos últimos dias, cerca de 10 quilômetros", conta a advogada Nádia Alves.

Assim que o pai foi detido, mãe e filha foram para o Consulado, onde Laurimar já estava hospedada.

A volta ao Brasil não foi imediata, contudo. Foi preciso convencer Michael a autorizar a viagem da filha de volta ao Brasil. Cinco dias depois, mãe e filha embarcaram num voo para São Paulo.

Belo Horizonte será o próximo destino de mãe e filha.

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