G20: governo francês 'descobriu pela imprensa' que Macron teria reunião bilateral com Bolsonaro

O presidente francês Emmanuel Macron passa pelas bandeiras dos países participantes do encontro do G20 em Osaka, no Japão Direito de imagem EPA
Image caption Governo de Macron nega que reunião com Bolsonaro estivesse nos planos

Uma das reuniões mais aguardadas da agenda do presidente Jair Bolsonaro no G20, uma reunião bilateral reservada com o presidente francês, Emmanuel Macron, aparentemente só existiu no cronograma do governo brasileiro.

Do lado da França, segundo disseram à BBC News Brasil membros da delegação de Macron, só havia a previsão de uma breve conversa informal com Bolsonaro, após o almoço dos líderes, que de fato aconteceu. Mas, na agenda do presidente brasileiro, havia uma reunião bilateral formal marcada para as 14h25.

Na manhã desta sexta-feira (28), o Itamaraty e a Presidência informaram que a reunião bilateral havia sido cancelada, mas não deram motivo. A BBC News conversou com dois integrantes da delegação francesa em Osaka, no Japão, que mostraram a agenda de Macron e afirmaram:

"Nós soubemos pela imprensa que havia reunião bilateral. Nunca houve essa previsão. O que há é uma conversa informal, após o almoço, num ambiente comum."

Questionado sobre por que uma reunião bilateral havia sido marcada, depois cancelada e transformada num encontro informal, o porta-voz da Presidência, general Rego Barros, afirmou que as duas delegações estavam negociando uma reunião formal entre Bolsonaro e Macron para a tarde desta sexta.

Mas, segundo ele, o governo francês teria ligado para a delegação brasileira sugerindo que o encontro ocorresse às 23h de quinta, horário que teria sido considerado muito tarde pelo governo do Brasil.

"O presidente declinou e ficamos ao longo do dia buscando uma possibilidade de viabilizar esse bate-papo. Conseguimos um encaixe de horário e esse bate-papo ocorreu. Sob o ponto de vista diplomático (o encontro bilateral) não ocorreu", declarou.

A imprensa brasileira fez uma série de perguntas para tentar esclarecer por que a reunião bilateral foi cancelada e por que a delegação francesa disse não ter sido informada sobre a reunião.

O porta-voz, então, disse que não responderia mais a perguntas sobre o tema por considerá-lo irrelevante diante de outras questões relacionadas ao G20.

As reuniões bilaterais entre presidentes ocorrem em sala reservada, na presença dos dois líderes e dos membros das delegações que forem selecionados para participar. Normalmente, há espaço para que a imprensa faça fotos e grave imagens.

Conforme havia dito a delegação francesa, após o almoço dos líderes do G20, Bolsonaro e Macron tiveram uma conversa informal de cerca de 20 minutos.

Segundo o porta-voz da Presidência, durante a breve reunião Bolsonaro convidou o presidente francês a "conhecer a Amazônia" e teria reforçado que o Brasil continua a fazer parte do Acordo de Paris.

"O objetivo dessa visita (de Macron à Amazônia) seria colaborar à narrativa verdadeira sobre o esforço que o presidente Bolsonaro vem realizando para que o meio ambiente seja preservado, mas que tenhamos a possibilidade de agregar a esse processo o desenvolvimento econômico", disse Rego Barros.

Acordo comercial

O encontro entre Bolsonaro e Macron era considerado um sinal importante para o andamento das negociações de um acordo comercial negociado entre Mercosul e União Europeia.

No meio da tarde (horário de Brasília), foi anunciado em Bruxelas que os blocos haviam chegado a um entendimento - após uma longa negociação que se arrastou por 20 anos.

A França era justamente quem mais vinha impondo restrições a fechar o acordo, sob o argumento de que o governo brasileiro não tem se mostrado comprometido com o Acordo de Paris – pelo qual as nações se comprometem a assumir metas de redução de gases causadores do efeito-estufa.

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Image caption Bolsonaro com Shinzo Abe, o premiê japonês; agenda ambiental brasileira tem sido alvo de críticas

Durante a campanha, Bolsonaro disse que retiraria o Brasil do Acordo de Paris, seguindo os passos do presidente americano, Donald Trump. Mas, depois que tomou posse, ele recuou e afirmou que, "por enquanto", o país permaneceria.

Na manhã desta sexta-feira (28), em reunião antes da cúpula do G20, os países que integram os Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) divulgaram comunicado conjunto declarando compromisso com o Acordo de Paris.

"Continuamos comprometidos com a plena implementação do Acordo de Paris, adotado sob os princípios da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC)", diz o documento, também assinado por Bolsonaro.

Mas os líderes das cinco nações também aproveitaram a oportunidade para cobrar dos países ricos compensações aos países emergentes e pobres pela preservação.

"Instamos os países desenvolvidos a fornecer apoio financeiro, tecnológico e de capacitação aos países em desenvolvimento para aprimorar sua capacidade em mitigação e adaptação. Esperamos que a Cúpula de Ação Climática da ONU, a ser realizada em setembro deste ano, produza resultados positivos."

Críticas de Merkel

Macron foi o segundo líder europeu a adotar, nesta semana, um tom crítico em relação à política ambiental do governo Bolsonaro.

Na quarta (26), em sessão do parlamento alemão, em Berlim, a chanceler Angela Merkel disse que está "muito preocupada" com a atuação do presidente brasileiro na área de meio ambiente e afirmou que considera a situação "dramática".

Ela havia sido questionada pela deputada do Partido Verde Anja Hajduk sobre se o governo alemão deveria continuar investindo nas negociações por um acordo comercial entre União Europeia e Mercosul em um momento em que ambientalistas e defensores dos direitos humanos denunciam a deterioração de direitos relacionados a essas questões no Brasil.

"Eu, assim como você, vejo com grande preocupação a questão da atuação do novo presidente brasileiro. E a oportunidade será utilizada, durante a cúpula do G20, para falar diretamente sobre o tema, porque eu vejo como dramático o que está acontecendo no Brasil", respondeu Merkel.

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Image caption Angela Merkel criticou a política ambiental do governo brasileiro, o que provocou reação de Bolsonaro

'Alemanha tem muito a aprender com Brasil'

Na quinta (27), ao chegar a Osaka, Bolsonaro criticou as declarações de Merkel e disse que a Alemanha tem "muito a aprender" com o Brasil sobre meio ambiente.

O presidente também afirmou que o Brasil precisa ser respeitado e que o governo brasileiro não está no G20 para "ser advertido".

"Nós temos exemplo a dar à Alemanha sobre meio ambiente. A indústria deles continua sendo fóssil, vem parte do carvão. E a nossa não. Eles têm muito a aprender conosco", disse.

Visivelmente irritado durante e entrevista coletiva com jornalistas em Osaka, Bolsonaro disse que o atual governo não "aceitará" tratamento que, segundo ele, presidentes anteriores receberam de líderes de países desenvolvidos.

"O governo do Brasil que está aqui não é como os anteriores que vieram aqui para serem advertidos por outros países. A situação é de respeito com o Brasil", disse.

"Não aceitaremos tratamento como alguns chefes de Estado anteriores receberam antes."

Perguntado se encarou como desrespeitosa a fala de Merkel, Bolsonaro aproveitou para por em dúvida a credibilidade da imprensa em geral.

"Eu vi o que está escrito. Lamentavelmente grande parte do que a imprensa escreve não é aquilo", disse.

"Foi a imprensa alemã que escreveu", rebateu um jornalista.

"A gente tem que fazer a filtragem para não se deixar contaminar por parte da mídia escrita principalmente", continuou o presidente.

A fala de Merkel foi televisionada – ocorreu dentro do parlamento, durante uma sessão pública.

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Image caption Governo francês tem sido duro em negociações sob o argumento de que Brasil não parece comprometido com o acordo de Paris

Desgaste para Brasil

A política ambiental do governo Bolsonaro tem se revelado o ponto de maior desgaste para o Brasil durante o G20 deste ano.

Em entrevista à BBC News Brasil, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que o governo insistirá na mensagem de que é preciso explorar as possibilidades econômicas da Amazônia, diversificando as atividades dentro e no entorno da floresta.

Ele ainda disse que o governo brasileiro vai exigir que países ricos paguem compensações a produtores rurais brasileiros se quiserem que o Brasil conserve mais a floresta.

A Floresta Amazônica é essencial para o controle das mudanças climáticas já que ela absorve e transforma, por meio da fotossíntese, parte significativa do CO2 da atmosfera.

Meio ambiente também pode afetar negociação da OCDE

O diretor do grupo de estudos do G20 da Universidade de Toronto, John Kirton, também adverte que o Brasil terá que adotar um discurso "mais respeitável" em relação ao combate às mudanças climáticas, se quiser o apoio da União Europeia para o pleito de integrar a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE).

Entrar para esse seleto grupo integrado pelas mais ricas economias mundiais é um dos principais projetos do governo brasileiro. Fazer parte da OCDE funciona como uma espécie de selo de boas práticas comerciais e de desenvolvimento.

Um dos primeiros ganhos da nova relação do Brasil com os Estados Unidos foi conseguir apoio formal dos americanos para entrar na OCDE. Mas o governo brasileiro ainda precisará convencer os outros membros do grupo.

"O Brasil quer entrar na OCDE e praticamente todos os países que integram o grupo, com exceção dos Estados Unidos, acreditam numa solução multilateral liderada pela ONU para controlar as mudanças climáticas", destacou Kirton em entrevista à BBC News Brasil.

"Se o Brasil quer avançar no seu desejo de fazer parte da OCDE, vai ter que adotar uma posição mais respeitável sobre mudanças climáticas, o que Bolsonaro não tem feito até agora."

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