Para secretário Marcos Troyjo, acordo entre Mercosul e União Europeia pode acelerar outras negociações

Marcos Troyjo Direito de imagem Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Image caption Troyjo é descrito nos bastidores como o principal articulador da negociação com os europeus pelo acordo, cujas tratativas já se arrastavam há 20 anos sem conclusão

O recém-anunciado acordo de livre-comércio entre membros do Mercosul e da União Europeia deve "acelerar a conclusão" de novas negociações comerciais, na visão do economista e cientista político Marcos Troyjo, secretário-especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia.

No alvo do Brasil e dos membros do mercado comum sul-americano estão parcerias com Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Canadá e com os quatro países da Efta (Associação Europeia de Comércio Livre) - grupo formado por Suíça, Islândia, Noruega e Liechtenstein, que não fazem parte da União Europeia.

Os planos reforçam, na opinião do secretário, o que ele chama de "ruptura" com as quatro últimas administrações petistas, que priorizavam relações econômicas com países em desenvolvimento e economias emergentes - com ênfase na América do Sul, África e membros do grupo dos Brics, formado por Rússia, Índia, China e África do Sul, além do Brasil.

Descrito nos bastidores como o principal articulador da negociação com os europeus pelo acordo, cujas tratativas já se arrastavam há 20 anos sem conclusão, Troyjo refuta a tese, no entanto, de que o acordo tenha sido fruto de um maior poder de barganha dos europeus frente à dura crise econômica que atinge as duas principais economias do Mercosul - Brasil e Argentina - como foi aventado por críticos, como o ex-chanceler Celso Amorim.

"Não existe um único milagre econômico nos últimos 70 anos - Japão, Alemanha, Cingapura, Coreia do Sul, China - que não tenha sido turbinado por forte presença do comércio exterior e acordos internacionais. E em muitos casos, quando essas economias entraram em entendimentos comerciais internacionais, elas se encontravam também em uma situação de desempenho aquém de outros momentos históricos. Ainda assim, o comércio foi o grande impulsionador de novas fases de crescimento", diz o secretário especial, em entrevista por telefone à BBC News Brasil.

Troyjo também diz acreditar que a afinidade demonstrada pelos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump "foi um dos muitos fatores que ajudaram na conclusão do acordo nessa conjuntura", já que a aproximação entre Brasil e EUA "aguça a vontade dos europeus" - mas não teria sido determinante. O contrário também vale:

"Na medida em que se tem um avanço no entendimento com os europeus, isso aumenta as perspectivas com os EUA", diz. "Saber modular esses vários vetores em operação é uma das características mais importantes do comércio internacional."

Durante a conversa, o secretário especial também fala sobre China, Lava Jato e Brexit - ele afirma, inclusive, que o governo já mantém conversas informais sobre possíveis acordos bilaterais caso a saída do Reino Unido da União Europeia se confirme.

Leia os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil - O senhor falou sobre um novo momento para o Mercosul, uma busca por uma marca maior no comércio global. Estamos conversando com outros países ou blocos? O que se pode esperar do comércio internacional daqui para frente?

Marcos Troyjo - Nesses últimos seis meses, temos tentado mudar o modelo de inserção internacional não apenas do Brasil, mas também do Mercosul. No caso do Brasil, a nossa lógica sempre foi muito impactada pelas antigas doutrinas de substituição de importações. Isso fez com que o Brasil deixasse de embarcar nessa nave dinâmica que foi a prosperidade a partir do aumento da proporção do comércio exterior dentro do PIB brasileiro. Se você somar tudo o que o Brasil importa com tudo o que o Brasil exporta, dá só 22% ou 23% do PIB. É uma das menores proporções dentre as maiores economias do mundo. O Mercosul também foi muito influenciado por essa visão de mundo. Não só no Brasil, mas também na Argentina, que também ficou muito atrelada a esse tema de substituição de importações.

De repente, com essa conjunção positiva entre o presidente Bolsonaro e o presidente (Mauricio) Macri, essa mudança de modelo tornou possível não apenas a conclusão do acordo com a União Europeia, mas também outros avanços e modernizações institucionais do bloco. Estamos trabalhando para reformar a chamada tarifa externa comum, que na sua média é muito mais elevada do que em países com desenvolvimento relativo, e temos uma conversa bem avançada com uma série de parceiros.

BBC News Brasil - Quais?

Troyjo - A Efta (Associação Europeia de Comércio Livre - grupo formado por Suíça, Islândia, Noruega e Liechtenstein), o Canadá, a Coreia do Sul, o Japão.

Mesmo com os EUA: a Casa Branca tem à sua disposição um Trade Promotion Authority, que é o documento que o Congresso Americano oferece ao poder Executivo para que ele negocie acordos internacionais. É válido até julho de 2021, então temos mais ou menos dois anos para mergulhar numa negociação com a maior economia individual do mundo. Esse é o grande quadro de modernizações de comércio exterior que estamos fazendo a partir da plataforma do Mercosul.

BBC News Brasil - Quais dessas conversas devem render frutos mais cedo? O que está mais adiantado?

Troyjo - Efta. Devemos ter notícias positivas já no segundo semestre. Entendemos que o próprio resultado do acordo com a União Europeia vai acelerar a conclusão dos entendimentos. Coreia do Sul tem um mercado muito importante com o qual a gente tem um grande intercâmbio na área tecnológica. Estes estão mais perto. E há outros casos como, por exemplo, o México, com quem o Brasil há alguns meses optou pelo livre comércio no setor automotivo, e isso vai abrir outras oportunidades em áreas que o Brasil tem grandes vantagens comparativas, como é o caso do agronegócio.

BBC News Brasil - A simpatia ou proximidade entre Trump e Bolsonaro sugeriu para muita gente que o Brasil endossasse essa perspectiva mais nacionalista, protecionista, populista do presidente americano. De repente, surge o acordo com a União Europeia, que parece ser o maior aceno multilateral do Brasil em décadas. Este é um governo globalista? Acredita no multilateralismo?

Troyjo - O acordo Mercosul-União Europeia é um acordo entre blocos, é um acordo plurilateral. É um acordo em que a soberania e os destinos estão nas mãos de cada um dos países e seus povos no âmbito dessa negociação. O presidente Bolsonaro nos deu uma instrução muito clara em várias ocasiões de fazer negócios sem viés ideológico com todos os países do mundo. O Brasil faz parte de uma união aduaneira, o Mercosul, então precisamos, sempre que a negociação envolver tarifas e cotas, negociar a partir dessa plataforma.

E, por outro lado, nessa parte multilateral, e por multilateralismo se entende sobretudo a Organização Mundial do Comércio, o Brasil se associa a vários outros países no entendimento de que precisamos reformar e modernizar o sistema multilateral do comércio, ele precisa ser tornado mais eficiente. Agora, o (acordo entre) Mercosul e União Europeia não é algo multilateral, é plurilateral, entre regiões, entre blocos.

BBC News Brasil - O senhor reforça muito essa diferença entre plurilateralismo e multilateralismo. Em relação ao multilateralismo, que tem a dizer?

Troyjo - No multilateralismo, defendemos a reforma e a modernização da OMC.

BBC News Brasil - Que fatores levaram a essa convergência entre Mercosul e União Europeia para finalmente fecharem esse acordo? Por que foi anunciado agora?

Troyjo - São duas economias complementares, duas economias que precisam aumentar os seus negócios internacionais. Os dois principais sócios do Mercosul têm baixa participação de corrente de comércio na composição das suas riquezas. É importante reverter essa tradição histórica de insularidade. A visão do presidente Bolsonaro, associada com outros líderes da região, como o caso do presidente Macri, permitiu uma mudança de rumo.

O Mercosul deixa de ser uma caixa de ressonância de uma visão ideológica de mundo e passa a ser algo enxuto, eficiente, que vai trazer resultados concretos para suas populações. Isso, claro, foi objeto também de uma visão nossa de que hoje, com as cadeias globais de valor, é importante que se tenha regras de origens mais flexíveis, que se possa tratar de temas que vão permitir a entrada dos nossos países na chamada quarta revolução industrial.

Além disso, falando especificamente no caso brasileiro, a experiência da administração pública no Brasil às vezes leva a política econômica para um lado e a política comercial para outro totalmente diferente. Nesse governo, a política comercial foi para o centro da politica econômica, então a gente consegue buscar esses objetivos - reforma tributária, da previdência, administrativa, privatizações, concessões - e a abertura comercial de uma forma coordenada. Isso permitiu um avanço muito importante nas negociações.

BBC News Brasil - Hoje a China é o nosso principal parceiro comercial e agora se abre este mercado gigantesco. Nós passamos a depender menos da China? Isso é bom para o Brasil?

Troyjo - A noção de dependência no comércio internacional precisa ser revisitada. Hoje, é muito difícil pensar em qualquer país do mundo que não tenha uma relação muito volumosa de comércio com a China. Isso vale para investimentos também. Eu dou um exemplo: o principal destino de investimento estrangeiro direto chinês no mundo são os EUA. O principal destino de investimento estrangeiro direto americano no mundo é a China. O principal parceiro comercial da China são os EUA. O dos EUA é a China. Então, mesmo em meio a essa chamada guerra comercial e esse processo de ajuste duro que está sendo feito na relação comercial bilateral entre China e EUA, não se deixa de reconhecer a importância desse parceiro.

É o que nós fazemos também. Mas nós também precisamos levar em consideração que a relação comercial do Brasil com os EUA está muito aquém do desejado. Tem potencial muito maior do que o visto até agora. Em relação à União Europeia, somados os PIBs de todos os países membros, a União Europeia é o maior PIB do mundo. Então é natural para um país com as características econômicas do Brasil fazer negócios com todos esse parceiros.

BBC News Brasil - Muita gente também especula que a aproximação entre Bolsonaro e Trump teria levado a União Europeia a acelerar as negociações do acordo com o Brasil. Faz sentido?

Troyjo - Acho que se você pensar que o Brasil é um mercado de 210 milhões de habitantes, o Mercosul com 260 milhões, o Brasil é um parceiro com quem se quer fazer negócios seja de uma perspectiva americana ou europeia. Na medida em que se tem um avanço no entendimento com os europeus, isso aumenta as perspectivas com os EUA. Quando se melhora o entendimento comercial com os EUA, isso aguça a vontade dos europeus. Saber modular esses vários vetores em operação é uma das características mais importantes do comércio internacional.

BBC News Brasil - Isso fez parte da estratégia? O peso da proximidade com os EUA ajudou no poder de barganha brasileiro na negociação com os europeus?

Troyjo - Nós jamais usamos isso de uma maneira frontal. Claro, nós todos queremos melhorar o nosso intercâmbio comercial com os EUA que, como falei, tem potencial muito mais alto a alcançar, mas provavelmente esse foi um dos muitos fatores que ajudaram na conclusão do acordo nessa conjuntura.

BBC News Brasil - O ex-chanceler Celso Amorim mostrou algum ceticismo em relação ao acordo, já que ele teria vindo em um momento de fragilidade econômica no Brasil e na Argentina, o que elevaria o poder de barganha aos europeus. Como vê a análise?

Troyjo - Essa visão de mais fraco ou mais forte para fins comerciais dá ideia de um comércio internacional mercantilista, como se o comércio fosse um jogo de soma igual zero. Como se a sua fatia for maior, a minha será necessariamente menor. E comércio não é assim. Comércio deve ser uma relação de ganho e ganho. Não existe um único milagre econômico nos últimos 70 anos - Japão, Alemanha, Cingapura, Coreia do Sul, China - que não tenha sido turbinado por forte presença do comércio exterior e de acordos internacionais. E em muitos casos, quando essas economias entraram em entendimentos comerciais internacionais, elas se encontravam também em uma situação de desempenho aquém de outros momentos históricos. Ainda assim, o comércio foi o grande impulsionador de novas fases de crescimento.

Além disso, essa negociação trouxe vitórias espetaculares para o Mercosul em termos de acesso a mercados, tecnologias, exportações de carne de frango, bovina, etanol, açúcar. Ou seja, em várias áreas em que temos os chamados interesses ofensivos, isso vai render bilhões e bilhões de dólares para o Mercosul.

BBC News Brasil - Portanto a ideia de fragilidade como um gancho para o interesse europeu não faz sentido na visão do senhor.

Troyjo - Não, de maneira alguma.

BBC News Brasil - Me chamou atenção a possibilidade de empresas europeias participarem de licitações públicas, algo que hoje é muito restrito.

Troyjo - E vice-versa.

BBC News Brasil - Sim. Eu me lembrei da Lava Jato: a chance dessas empresas europeias participarem de licitações no Brasil cobre de alguma maneira o vácuo deixado pela Lava Jato na construção civil? A chance de empreiteiras europeias entrarem no mercado brasileiro preenche essa área, hoje mais fragilizada desde as revelações da operação?

Troyjo - Um dos principais capitais humanos que o Brasil tem são seus engenheiros. É natural, ainda mais pelo comércio do século 21 ser muito pautado pelo setor de serviços, quando esses acordos preveem não apenas comercio de bens manufaturados ou bens agrícolas, mas também serviços, isso venha gerar uma grande expansão não apenas da contratação de serviços em si, mas também dos investimentos acessórios que por vezes precedem tais atividades ou se fazem acompanhar por elas - acontecem ao mesmo tempo, contemporaneamente: construção, consultoria e assim por diante. Acho que essa vai ser uma grande oportunidade para criar mais negócios para setores que, por conta do desempenho econômico brasileiro, acabaram diminuindo muito o seu ritmo.

BBC News Brasil - Reforço a pergunta: esse "vácuo" que foi deixado pelo comprometimento das empreiteiras brasileiras e exposto pela Lava Jato pode ser preenchido de alguma forma graças a este acordo?

Troyjo - Tenho certeza de que todo o setor de serviços, de obras públicas, de construção, de consultoria vai passar por uma expansão de oportunidades com essa nova moldura negocial, seja nos países do Mercosul seja na União Europeia.

BBC News Brasil - Do outro lado eu me lembro do mercado de carne, na mesma lógica: houve aquele baque forte na JBS (com a Lava Jato e a Carne Fraca) e agora se abre um mercado gigantesco com novas fronteiras de exportação.

Troyjo - Nessa nova configuração, seja para frango ou para carne bovina, o Mercosul como um todo, mas particularmente o Brasil, vai exportar muitas vezes o que dois dos atores mais importantes deste cenário - EUA e Austrália - conseguem vender para os europeus juntos.

É importante ressaltar a cooperação e a sintonia dos vários atores do governo brasileiro. Ministérios da Economia, Relações Exteriores, Agricultura, Infraestrutura. Esse é um acordo que envolve mais de 90% do PIB do Mercosul e mais de 90% de todo o PIB europeu. Então se precisa de um esforço nesses últimos seis meses realmente multiagências para que se possa ter posições conjuntas e conseguir esse resultado extraordinariamente positivo.

A gente acabou de concluir o maior acordo comercial em termos de expansão de área geográfica e número de participantes da história do comércio mundial. Nenhum outro acordo que tem tantos participantes cobre uma área tão grande.

BBC News Brasil - O acordo ainda precisa de uma série de aprovações vindo de todos os países envolvidos. Qual é o horizonte para que o acordo já renda frutos? Em quanto tempo será possível ver uma transformação efetiva nessa relação comercial?

Troyjo - Os efeitos positivos começaram no fim da tarde de sexta-feira passada. A economia é o resultado de fundamentos e de expectativas. As expectativas agora são muito melhores para a inserção internacional do Brasil. Se você analisar a trajetória do investimento estrangeiro do Brasil nas últimas décadas, vai perceber que esse fluxo se destina sobretudo a um mercado fechado, protegido por barreiras protecionistas altíssimas. Então, a principal motivação de investimento estrangeiro direto para países como Brasil e no Mercosul era o grande mercado interno. A atividade do investimento no Brasil era simplesmente para suprimento do mercado interno e não para fazer do Brasil uma plataforma de exportações.

Direito de imagem REUTERS/Paulo Whitaker
Image caption Ministério da Agricultura brasileiro afirmou que produtos nacionais terão tarifas eliminadas

Com esse novo acordo, se acrescenta um novo perfil à produtividade do mercado brasileiro. Você continua tendo acesso a esse grande mercado interno brasileiro, mas você pode cada vez mais fazer do Brasil um elo importante nas chamadas cadeias de produção global. Então acontece uma mudança qualitativa do perfil de investimento externo que vem para cá. Você vai ter uma metamorfose qualitativa do perfil de investimento estrangeiro direto que vem para cá, por exemplo: montagens de centros de pesquisa, de design, de inovação, coisas que geralmente ficavam em outros mercados, tendo no Brasil apenas subsidiárias, isso tende a mudar de maneira importante.

Como uma parcela significativa desse tipo de investimento estrangeiro é de maturação média, com a perspectiva de que o Brasil e os países do Mercosul tenham esse grande acordo com a maior economia do mundo no seu agregado, automaticamente isso começa a fazer parte do planejamento estratégico das empresas e da contabilidade de desembolso de investimentos. O impacto é imediato.

BBC News Brasil - Sobre o Brexit: Brasil e Mercosul enxergam oportunidades com a saída do Reino Unido da União Europeia? Já há conversas com a primeira-ministra britânica, Theresa May?

Troyjo - Isso é um tema de ordem da política britânica , mas, claro, em se confirmando o Brexit, o Brasil e o Mercosul teriam todo o interesse em estabelecer um acordo comercial com o Reino Unido pós-Brexit.

BBC News Brasil - Já existem diálogos nesse sentido?

Troyjo - Tenho conversas informais, obviamente temos que aguardar a conclusão do processo, mas já sinalizamos todo o interesse em fazer negócios com o Reino Unido depois do Brexit.

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