O médico que ajudou a salvar mais de mil vítimas do Estado Islâmico em 10 meses

Mirza Dinnayi posa para foto em frente a ambulância em que atendeu a crianças yazidi Direito de imagem Arquivo pessoal
Image caption Entre março e dezembro de 2015 a ONG fundada por Mirza Dinnayi levou 1,1 mil mulheres e crianças à Alemanha, onde receberam tratamento médico e psicológico

Às vezes quando fecha os olhos, o médico Mirza Dinnayi ainda vê o rosto queimado de Lamya, os lábios inexpressivos, os olhos sem vida feridos pelos estilhaços da mina terrestre que matou suas companheiras de fuga.

Passaram-se mais de três anos daquele primeiro encontro, em abril de 2016, em um hospital no Curdistão iraquiano. A jovem, então com 16 anos, havia escapado de um ano e meio de violência e estupros nas mãos de militantes do grupo terrorista Estado Islâmico, que a venderam em mercados de escravas de Mossul a Hawija.

"A encontrei cega, muito machucada, sem forças. Ela tinha muita vergonha. Não falava, não tinha vontade de viver. Os médicos não tinham condições de tratá-la no Iraque", lembra Dinnayi, ele próprio da minoria étnica yazidi, em entrevista à BBC News Brasil.

Lamya Haji Bashar foi incluída em um programa de assistência para yazidis sobreviventes do Estado Islâmico (EI) lançado pela organização não governamental Luftbrücke Irak (Ponte Aérea Iraque), fundada em 2007 por Dinnayi, e o governo do estado alemão de Baden-Württemberg.

Entre março e dezembro de 2015 a ONG levou 1,1 mil mulheres e crianças à Alemanha, onde receberam tratamento médico e psicológico.

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Image caption Uma das mulheres que receberam a ajuda do médico recebeu o Prêmio Sakharov do Parlamento Europeu

"Conseguimos salvar um olho de Lamya e, aos poucos, ela foi voltando à vida", recorda o médico e ativista.

"Um dia, ela me disse que queria contar sua história a todo o mundo."

Um ano mais tarde, Lamya ganharia o Prêmio Sakharov do Parlamento Europeu junto a outra sobrevivente yazidi, Nadia Murad, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2018.

Trauma

As histórias de ambas são marcadas por corpos destroçados, impulsos suicidas e surtos psicóticos. São similares às das mais de 7 mil mulheres e crianças yazidi sequestradas, vendidas como escravas e violentadas sexualmente por extremistas islamistas depois que tomaram o controle da região de Sinjar, no norte do Iraque, em agosto de 2014.

Dinnayi entrevistou a maioria dessas vítimas ao selecionar os beneficiados do programa de realojamento na Alemanha.

O trabalho lhe rendeu o Prêmio Aurora pelo Despertar Humanitário este ano, entregue em outubro em Erevan, na Armênia. Mas lhe rendeu também uma depressão e um diagnóstico de estresse pós-traumático.

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Image caption Dinnayi ganhou o Prêmio Aurora pelo Despertar Humanitário em 2019, entregue em outubro em Erevan, na Armênia

"Não havia um caso pior que o outro. Todos eram insuportáveis. Havia crianças que viram a mãe ser estuprada, meninas pequenas estupradas na frente das mães. Não gosto de lembrar", diz, com um suspiro.

O médico de 46 anos, ele próprio um yazidi exilado na Alemanha desde 1994, abaixa os olhos.

"Algumas imagens, eu jamais esquecerei. Imagine ter na sua frente uma menina de oito anos que te conta como foi estuprada sete, oito vezes ao dia durante meses por soldados do EI. No outro dia, uma adolescente com queimaduras de terceiro grau em todo o corpo, que tinha atado fogo em si mesma para se suicidar e escapar do tormento."

Ele fala com pudor, negando detalhes. As cicatrizes que os relatos deixaram em sua alma são, para ele, suficientes para mostrar o tamanho do horror vivido pelas vítimas do EI.

"Eu não conseguia dormir. Chorava várias vezes ao dia ouvindo essas histórias. Quando eu lembro, penso: como esse tipo de coisa pode acontecer em pleno século 21?"

Ponte aérea

Praticantes de uma religião de mais de 4 mil anos, que reúne elementos do zoroastrismo, judaísmo, cristianismo e islã, os yazidi são vistos pelo EI como devotos do diabo.

Só em agosto de 2014, o grupo extremista assassinou mais de 5 mil homens e anciãos da minoria religiosa em Sinjar. Um genocídio, segundo as Nações Unidas.

Imagens que rodaram o mundo na época mostravam milhares de pessoas fugindo sob um calor de mais de 45 graus e se amontoando, impotentes, no alto do Monte Sinjar, cercado pelo EI.

"Quando vi meu povo fugindo pelo deserto sem água ou comida não pude ficar indiferente", afirma Dinnayi.

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Image caption Lamya foi atingida por destroços de bomba que matou suas companheiras de fuga

O ativista, que foi conselheiro especial para minorias no governo de Jalal Talabani, presidente do Iraque de 2005 a 2014, mobilizou seus contatos. O governo iraquiano enviou um helicóptero militar da era soviética para evacuar os refugiados. Dois ou três vôos diários eram realizados em um terreno acidentado, muitas vezes em meio a tiros dos extremistas.

A aeronave chegava ao Monte Sinjar com água e mantimentos e partia levando, em troca, mais pessoas do que podia carregar.

O desespero dos refugiados, que tentavam introduzir-se à força no helicóptero, resultou em tragédias, como a morte de um jovem de uns 20 anos que se agarrou ao trilho de pouso quando a aeronave já iniciava vôo. Poucos minutos depois, quando estavam a cem metros de altura, o rapaz perdeu forças e caiu.

"Não conseguimos alcançá-lo para puxá-lo para dentro. O vi caindo e não pude fazer nada. Foi um dos piores momentos que vivi", lamenta-se Dinnayi, presente em todos os vôos.

Depois de uma semana de resgates, o médico estava "totalmente traumatizado".

"Você pode imaginar como é aterrissar em meio a umas dez mil pessoas. Todo mundo tenta entrar no helicóptero e você só poder levar 15, 20. No final do dia, você salvou umas 300 pessoas, mas ainda se sente culpado por ter deixado para trás outras milhares. Por mais que você faça, nunca é suficiente", afirma.

As operações foram suspensas no final de agosto, depois que o helicóptero sobrecarregado caiu na montanha, matando o piloto. Dinnayi quebrou suas duas pernas.

"Pensei em desistir, voltar à Alemanha e seguir um tratamento psicológico. Mas o sentimento de responsabilidade pela minha comunidade me empurrou a seguir adiante."

Futuro

Sobreviver ao EI não significou o fim do drama para todas as yazidi sequestradas pelos extremistas.

Segundo o fundador da Luftbrücke Irak, muitas delas são impedidas de voltar a seus vilarejos pela própria comunidade, que as considera impuras por terem mantido relações, ainda que forçadas, com muçulmanos.

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Image caption ONU estima que mais de 170 mil pessoas abandonaram suas casas em cinco dias de ofensiva turca

Para as que permaneceram no Iraque, os recentes ataques do exército turco no norte da Síria trouxeram o medo de que combatentes do EI se aproveitem do enfraquecimento das forças curdas, que protegeram os yazidi, para reagrupar-se e voltar a aterrorizar o Sinjar.

A ONU estima que mais de 170 mil pessoas abandonaram suas casas em cinco dias de ofensiva turca, no início de outubro, incluindo habitantes de vilarejos yazidi.

A Turquia afirma querer criar uma "zona tampão" no norte da Síria a fim de manter extremistas curdos longe de suas fronteiras.

"Temo que estejam abrindo as portas para um novo genocídio yazidi", alerta Dinnayi.

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