'Devemos sempre nos preparar para o pior', diz Bolsonaro sobre reflexos dos protestos do Chile no Brasil

Bolsonaro aparece de perfil falando com jornalistas de dentro de hotel em Abu Dhabi Direito de imagem Clauber Cleber Caetano/Presidência da República
Image caption 'O que poderia acontecer é algo semelhante ao que acontece no Chile. Está um pouco descartado desta forma, mas existe toda e qualquer preocupação', afirmou Bolsonaro em viagem ao Oriente Médio - na foto, em Abu Dhabi

O presidente Jair Bolsonaro voltou a mostrar preocupação sobre reflexos no Brasil dos megaprotestos registrados no Chile, em breve conversa com jornalistas nesta segunda-feira (28/10), em Riade, capital da Arábia Saudita.

"Meu governo não pode deixar de se antecipar aos problemas. Isso faz parte de qualquer país do mundo: é saber como setores da sociedade estão se comportando para você poder negociar com antecedência", disse.

Questionado sobre quais ameaças foram registradas pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Bolsonaro disse que "devemos sempre nos preparar para o pior para poder reagir com serenidade e objetividade".

"O que poderia acontecer é algo semelhante ao que acontece no Chile. Está um pouco descartado desta forma, mas existe toda e qualquer preocupação", afirmou.

Na noite de sexta-feira, uma manifestação em Santiago reuniu mais de um milhão de pessoas. Ponto culminante de uma semana inteira de protestos no no país, a manifestação levou o presidente Sebastián Piñera a pedir, no sábado, que todos os seus ministros coloquem seus cargos à disposição.

Bolsonaro fica na Arábia Saudita até o dia 30. Na noite desta segunda-feira, ele janta com Mohammed bin Salman, Príncipe Herdeiro do Reino da Arábia Saudita. O encontro com o rei Salman Bin Abdulaziz Al-Saud acontece nesta quarta, também a portas fechadas.

O foco da viagem é "econômico", afirmou o presidente. As duas prioridades são atrair investimentos sauditas nos leilões do pré-sal, em projetos de infraestrutura do Programa de Parceria de Investimentos (que inclui concessões, privatizações e concorrências para grandes obras) e exportações de frango para os sauditas.

O presidente voltou, ainda, a comentar a eleição da Argentina, com vitória do peronista Alberto Fernández sobre Mauricio Macri, no domingo — com a ex-presidente Cristina Kirchner como vice de chapa.

"Vi imagem de alguns petistas comemorando a eleição na verdade da Cristina Kirchner, que sempre foi ligada a Lula, Dilma, Chávez, o falecido Fidel Castro, entre outros, Evo Morales. Isso é uma preocupação. Diz-me com quem andas que te direi quem tu és."

Petróleo

A participação dos sauditas, principais produtores do planeta de petróleo, no leilão do pré-sal que acontece em novembro é uma das prioridades da viagem.

"Eles (árabes) e também os chineses devem marcar presença no leilão", disse o presidente na entrada do hotel.

Segundo uma importante autoridade brasileira envolvida nas negociações ouvida pela BBC News Brasil, o fundo soberano saudita — estimado em US$ 300 bilhões, segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF), que reúne as maiores instituições financeiras mundiais — é a menina dos olhos do governo brasileiro.

Tanto o Itamaraty quanto a diretoria da Petrobras vêm mantendo contato com a família real saudita e diretores da estatal Aramco, que detém o monopólio da produção e exploração das reservas de óleo cru do país, o maior produtor do mundo.

"Eles não têm histórico de participação no mercado brasileiro de petróleo", diz a autoridade, "e mostraram interesse dada a grandeza dos leilões e também no plano de desinvestimento de partes da Petrobras".

Direito de imagem Valdenio Vieira/Presidência da República
Image caption Bolsonaro em chegada a Doha; presidente afirmou que foco da viagem é 'econômico'

Carne de frango

O presidente confirmou que vai tentar convencer os sauditas a voltarem a comprar frango da gigante brasileira BRFoods.

"Vou tratar da questão do frango", disse. "É como toda ferida: será cicatrizada."

O país cortou as compras de frango produzido pela BRF nos Emirados Árabes como parte de sua estratégia de reduzir sua dependência do petróleo e aumentar a produção interna de carne.

Segundo a BBC News Brasil apurou, o CEO global da BRF também veio à Arábia Saudita para acompanhar reuniões entre os dois governos.

Com 7 escritórios só na Arábia Saudita, a BRF emprega 400 pessoas no país. A marca Sadia, da empresa, é líder no mercado e tenta se expandir para fornecer carne e embutidos a uma população de aproximadamente 30 milhões de habitantes.

"(A BRF) é um dos assuntos mais importantes para o governo brasileiro", concluiu a fonte.

'Vocês ficam mais bonitas assim'

Direito de imagem Clauber Cleber Caetano/Presidência da República
Image caption Bolsonaro em visita à Grande Mesquita Xeque Zayed, em Abu Dhabi; ele comentou o visual das jornalistas brasileiras que acompanham a viagem presidencial, na qual elas estão vestindo véus e abayas

Assim que desembarcou do carro oficial em seu hotel em Riade, capital da Arábia Saudita, o presidente Jair Bolsonaro decidiu comentar o visual das jornalistas brasileiras, que estão vestindo véus e abayas, uma espécie de túnica que esconde as formas do corpo para obedecer a regras de "decência" e "respeito" da sharia (lei islâmica).

"Que maravilha. Vocês estão mais bonitas assim, sabiam?", disse Bolsonaro ao se aproximar dos jornalistas para uma breve entrevista antes de entrar no hotel.

O presidente prosseguiu, enquanto uma jornalista perguntava sobre as expectativas de negócios para o Brasil na Arábia Saudita.

"Quando a beleza é muito grande, ofusca os olhos da gente. Assim vocês ficam mais bonitas", disse.

A Arábia Saudita é o mais conservador e fechado entre todos os países visitados por Bolsonaro em seu tour pela Ásia e pelo Oriente Médio. Desde o dia 19, o presidente esteve no Japão, China, Emirados Árabes Unidos e Qatar.

Até 27 de setembro deste ano, visitas ao país eram permitidas apenas a partir de convites vindo de empresas do país ou do governo. O recém-criado visto de turismo é válido para cidadãos de 51 países. Nenhum país latino-americano, incluindo o Brasil, está entre eles.

Antes da nova regra, os únicos países cujos cidadãos podiam visitar a Arábia Saudita eram os vizinhos Emirados Árabes, Kuwait, Bahrein e Omã.

Muçulmanos também costumam conseguir vistos especiais para peregrinação a Meca.

A abertura é parte de uma estratégia do governo para reduzir sua dependência de petróleo. A expectativa da família real saudita é trazer em torno de 1,5 milhão de estrangeiros por ano.

As turistas não precisam usar abayas, segundo o governo. A veículos locais, o ministro do Turismo, Ahmed al-Khateeb, disse que ombros e joelhos, no entanto, deverão estar cobertos.

Mas, como a regra é recente, as mulheres que visitam o país a negócios e turismo ainda não vistas em saguões de hotéis e escritórios usando a vestimenta.

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