Apesar de relação estreita entre Trump e Bolsonaro, investimentos americanos no Brasil não aumentaram

Bolsonaro e Trump no parlatório da Casa Branca, em foto de março, com bandeiras do Brasil e EUA atrás deles Direito de imagem Alan Santos/Presidência da República
Image caption Bolsonaro e Trump em foto de março; dados mostram que abraços e apertos de mão entre presidentes não se converteram em aumento de investimentos ou negócios entre os dois países

De um lado "eu te amo". Do outro "ele é um bom homem". A troca de afagos pública entre os dois atuais presidentes de Brasil e Estados Unidos, Jair Bolsonaro e Donald Trump, é considerada sem precedentes por estudiosos da relação entre os dois países.

Bolsonaro e Trump partilham o posicionamento ideológico de direita, o conservadorismo nos costumes e o estilo populista e online de fazer política. A promessa da política internacional bolsonarista é que esse bom relacionamento ultrapasse o escopo pessoal e se converta em investimentos americanos no país e no aumento do volume de negócios de parte a parte.

"Qualquer país no mundo que queira ser próspero tem que ter uma relação privilegiada com os Estados Unidos", defendeu o secretário especial de comércio exterior Marcos Troyjo em conversa com investidores americanos e brasileiros em Washington D.C. há duas semanas.

Apesar da retórica, no entanto, até agora, abraços e apertos de mão não se converteram em aumento de investimentos ou negócios dos EUA no Brasil.

É o que mostram os dados de investimentos anunciados dos Estados Unidos no Brasil entre janeiro e agosto de 2019, em relação ao mesmo período dos três anos anteriores.

Em 2019, o valor foi de US$ 2,2 bilhões, menor que o de 2017, quando o montante correspondeu a US$ 2,9 bilhões e ligeiramente maior do que os US$ 2 bilhões registrados em 2016.

Em 2018, os americanos investiram US$ 1,3 bilhão no Brasil, mas economistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que esse ano não é relevante como comparativo, já que a disputa eleitoral altamente polarizada e imprevisível afugentou investidores do Brasil.

Os dados são da FDI Markets, o monitor de investimentos internacionais do jornal Financial Times e foram compilados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a pedido da reportagem (veja gráfico).

Já os números da Secretaria Executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex), subordinada ao Ministério da Economia, são ainda mais desanimadores. No primeiro semestre de 2019 não se chegou nem à metade do que foi investido pelos EUA em 2018, já um ano atipicamente ruim, que representou menos da metade do fluxo de investimentos em relação a 2017(veja no gráfico).

A BBC News Brasil pediu à B3 (antiga Bovespa) informações sobre o aporte de investidores americanos em ações no Brasil, mas a Bolsa informou que não divulga o investimento estrangeiro discriminado por país.

Direito de imagem FDI Markets
Direito de imagem Camex

Só clima bom não aumenta investimentos

"Sem dúvida há um clima muito bom entre os dois países, uma janela de oportunidades, mas vai ser muito difícil que os dois países ultrapassem os patamares atuais de investimentos sem que medidas mais robustas sejam tomadas", afirma Diego Bonomo, gerente executivo de comércio exterior da CNI.

A avaliação de Bonomo coincide com a de Cássia Carvalho, diretora executiva do Conselho de Negócios Brasil-Estados Unidos da Câmara de Comércio Americana. "Há um potencial de comércio e investimento muito maior do que a realidade e há ambição política dos dois lados para que isso avance. É um momento único e oportuno, mas a gente sente que está sendo devagar, talvez devagar demais. Certamente poderia andar mais rápido", afirmou Carvalho à BBC News Brasil.

Os Estados Unidos já são o país que mais investe diretamente no Brasil. De acordo com dados da Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham), em 2015, empresas americanas eram responsáveis por 654 mil empregos no país e por uma fração de US$ 37,2 bilhões do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que à época era de US$ 1,8 trilhão.

Ainda assim, o Brasil é apenas o 17º destino de dinheiro americano no mundo. Além das projeções de crescimento ainda magras do país, isso se deve, de acordo com os especialistas, à ausência de três mecanismos capazes de destravar o potencial de negócios bilaterais: um acordo de livre-comércio entre os dois países - que retire as barreiras protecionistas e subsídios aplicados pelos governos, um acordo que evite a bitributação de lucros e dividendos do comércio de produtos e serviços e um acordo de investimentos, que unifique as regras nos dois países.

"A verdade é que os dois setores privados dos países já estão muito mais avançados em termos de negócios do que os dois governos. Os dois lados privados da história já concordam com os termos para facilitação dos negócios, falta os governos concretizarem isso", afirma Bonomo.

Em condição de anonimato, um executivo do setor petroleiro que assistia à palestra de Troyjo em Washington D.C. afirmou à BBC News Brasil que "os negócios vão bem apesar dos dois governos, e não por causa deles".

Irritantes de comércio

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Image caption Em foto de março, Bolsonaro assina livro de visitas da Casa Branca; EUA têm condicionado as negociações a mudanças na posição brasileira em relação aos chamados 'irritantes comerciais', o etanol e trigo

Investidores dos dois lados da linha do Equador têm pressionado os governos para que ao menos anunciem a abertura de negociações, tanto em relação a tributos, quanto ao comércio. Há, no entanto, algumas dificuldades no horizonte.

Embora o governo brasileiro já tenha deixado claro às autoridades americanas a intenção de firmar acordos comerciais e tributários, os Estados Unidos têm condicionado as negociações a mudanças na posição brasileira em relação aos chamados "irritantes comerciais": etanol e trigo.

No primeiro caso, Bolsonaro já aceitou, durante visita aos EUA em março, aumentar a importação de etanol americano sem impostos em 150 milhões de litros . O decreto com a alteração foi publicado em setembro, e acabou mal recebido por parte dos usineiros brasileiros, especialmente os do Norte e Nordeste, que chegaram a tentar a derrubada da medida no Congresso. Já Trump comemorou a conquista com um tweet:

"O Brasil vai permitir que mais etanol norte-americano entre no país sem tarifas, uma decisão que está sendo comemorada por usinas brasileiras. Essa reação, aparentemente contraintuitiva, vem do tom das negociações entre a nação sul-americana por um tratado comercial. Estamos fazendo grandes progressos por nossos fazendeiros. Uma grande lista adicional será submetida e aprovada dentro de duas semanas. Será ainda melhor para o etanol e vamos salvar nossas pequenas refinarias", escreveu o presidente americano.

Em contrapartida, há entre os ruralistas brasileiros a expectativa de uma maior abertura comercial ao açúcar brasileiro e a retomada da importação de carne bovina nacional pelos EUA. Concretamente, no entanto, a gestão Trump não fez nenhum movimento que indique se e quando isso ocorrerá.

No segundo caso, Bolsonaro aceitou criar uma cota isenta de imposto de exportação extra Mercosul de 750 mil toneladas de trigo. Hoje, o principal vendedor do grão ao Brasil é a Argentina, parceira comercial do Mercosul. A medida representará um duro golpe à já combalida economia do país.

"Essa cota ainda não está totalmente implementada por conta do delicado timing, em meio ao processo eleitoral conturbado dos argentinos. O Brasil está estudando como colocá-la em vigor", afirmou Abrão Árabe Neto, vice-presidente da Câmara Americana de Comércio no Brasil e ex-secretário de comércio exterior no governo Temer.

"Mas a gente espera que a discussão bilateral não fique concentrada apenas em questões específicas. A pauta precisa ser mais ampla", afirma Árabe Neto.

Acordo bilateral ou em bloco?

A Argentina e o Mercosul estão ainda no centro de outro entrave para a negociação bilateral entre Brasil e Estados Unidos. Pelas regras do bloco sulamericano, a negociação de tarifas de comércio com um país de fora do grupo só pode ser feita conjuntamente pelos membros da união aduaneira.

Assim, a negociação entre Brasil e Estados Unidos depende da anuência da Argentina ou de sua disposição de abrir mão de participar de um acordo, o que não tem precedentes na história.

Integrantes do governo brasileiro admitem que havia uma boa oportunidade de negociação enquanto Maurício Macri esteve sentado na cadeira presidencial na Casa Rosada. No entanto, o peronista Alberto Fernandez acaba de ser eleito e tomará posse em dezembro, mudando consideravelmente as relações políticas e de força no Mercosul. Bolsonaro já disse que os argentinos "escolheram mal" e adiantou tempos difíceis para o bloco:

"Não digo que sairemos do Mercosul, mas podemos juntar ali com o Paraguai, não sei o que vai acontecer nas eleições do Uruguai, e decidirmos se a Argentina fere alguma cláusula do acordo ou não. Se ferir, podemos afastar a Argentina. Mas a gente espera que nada disso seja necessário. Que a Argentina não queira, na questão comercial, mudar seu rumo", disse o presidente.

Contra o Mercosul conta ainda a indisposição dos Estados Unidos de fazer negociações com blocos. Desde o início do governo Trump, os americanos têm dado preferência a negociações bilaterais, nas quais podem fazer valer seu peso econômico. Os EUA preferiram, por exemplo, fechar um acordo comercial com o Japão a negociar com os demais países do Pacífico em bloco. E reviram seu principal acordo em bloco, o antigo Nafta, com México e Canadá. O Novo Acordo Estados Unidos - México - Canadá ainda depende da aprovação do Congresso americano para ser implementado.

Prioridade de quem?

Direito de imagem Alan Santos/Presidência da República
Image caption Prioridade absoluta ou relativa? Brasil e EUA indicam ter expectativas diferentes sobre relação bilateral

Se, para o Brasil, a relação com os Estados Unidos é uma prioridade absoluta, para os americanos a urgência em fechar acordos com os brasileiros é relativa. Hoje, os negociadores americanos estão dedicados a finalizar o acordo com seus vizinhos, em fechar o miniacordo com o Japão, em encontrar soluções para a guerra comercial com a China - que tem provocado instabilidade na economia global - e rever suas posições em relação ao Reino Unido pós-Brexit e à própria União Europeia.

"O que estamos fazendo é tentar encaixar o Brasil em primeiro lugar na fila, logo depois de todas essas prioridades. É irreal achar que teremos algum grande avanço nos próximos um ano e meio a dois anos", diz Carvalho.

Ela nota, no entanto, que os dois países poderiam tomar medidas de menor complexidade que já trariam alterações relevantes ao cenário: finalizar o acordo de facilitação de entrada de executivos brasileiros na imigração americana, simplificar os tributos sobre produtos estrangeiros, reduzir a burocracia para exportadores - hoje, uma empresa americana leva até 36 horas para ser certificada e poder fazer a transação comercial com o Brasil, com a mudança, o trâmite levaria apenas 4 horas.

"Eu sei que essas medidas não são politicamente sexy, mas são mais viáveis no curto prazo", diz Carvalho.

Embora o discurso político sugira grandes mudanças de patamar entre os dois países muito em breve, dentro do governo há o entendimento de que não se avançará em uma agenda de livre comércio antes de 2021, quando talvez nem mesmo Trump esteja mais na Casa Branca. O Republicano tentará reeleição no ano que vem, no que deve ser um pleito acirrado. Se vencer um democrata, toda a negociação atual poderá retornar à estaca zero, daí a urgência dos brasileiros em ver algo concreto no horizonte.

"Precisamos aproveitar o momento para tentar arrancar resultados concretos. Defendemos que os dois países lancem uma negociação estruturada, ainda que a conclusão desses acordos leve tempo, mas vá trabalhando em conjunto o que já pode ser decidido", diz Árabe Neto.

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