'Todo mundo gostaria de passar a tarde com um príncipe. Principalmente vocês, mulheres', diz Bolsonaro

Bolsonaro concede entrevista Direito de imagem BBC News Brasil
Image caption Bolsonaro concede entrevista a jornalistas na Arábia Saudita

O texto foi atualizado às 8h21 desta terça-feira (29).

"Todo mundo gostaria de passar a tarde com um príncipe. Principalmente vocês, mulheres, né?"O comentário foi feito na manhã desta terça-feira (29) pelo presidente Jair Bolsonaro a jornalistas, na saída do hotel onde está hospedado em Riade, capital da Arábia Saudita, para uma série de compromissos oficiais. 

O presidente havia sido questionado por uma repórter sobre a pauta que seria discutida entre o líder brasileiro e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, conhecido como MBS — com quem tem três encontros marcados na capital do país árabe.

"Tem uma certa afinidade entre nós dois, desde o ultimo encontro em Osaka (na reunião do G20, no Japão). Acredito que vai ser uma tarde bastante proveitosa", completou Bolsonaro.

Aos 34 anos, MBS acumula as posições de ministro da Defesa, vice-primeiro ministro e herdeiro do trono saudita e vêm ganhando destaque na imprensa internacional graças a seus esforços para modificar a imagem internacional do reino saudita, um dos mais conservadores e fechados de todo o mundo árabe.

Por outro lado, ele também é acusado pela CIA (agência de inteligência dos Estados Unidos) de ter encomendado o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, conhecido crítico das autoridades de seu país, no consulado da Arábia Saudita na Turquia.

O governo saudita nega qualquer envolvimento do príncipe herdeiro com o crime. Em entrevista à rede de TV americana CBS, em setembro, Mohammed bin Salman disse não ter ligação com o assassinato, mas assumiu a responsabilidade pelo ocorrido "como líder da Arábia Saudita".

Bolsonaro abandona entrevista após pergunta sobre STF

Durante a entrevista concedida nesta terça-feira, o presidente se mostrou otimista para a assinatura de acordos bilaterais sobre segurança alimentar e defesa, sem dar detalhes. "Tudo é prioridade", limitou-se a dizer. Quando a BBC News Brasil iniciou uma pergunta sobre o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello, que classificou o comportamento de Bolsonaro como "atrevimento" e falta de "limites", Bolsonaro rapidamente abandonou a entrevista. A declaração do decano do STF nesta segunda-feira se referia a um vídeo publicado no perfil pessoal do presidente no Twitter que mostrava um leão associado ao nome do presidente e um grupo de hienas associadas ao STF, a jornais e televisões, órgãos como a ONU, a OAB e a CUT, e partidos como o PT, PSDB e o PSL, que vive um racha com o presidente, eleito pela sigla. O vídeo foi apagado em seguida."Torna-se evidente que o atrevimento presidencial parece não encontrar limites na compostura que um chefe de Estado deve demonstrar no exercício de suas altas funções, pois o vídeo que equipara, ofensivamente, o Supremo Tribunal Federal a uma 'hiena' culmina, de modo absurdo e grosseiro, por falsamente identificar a Suprema Corte como um de seus opositores", disse Celso de Mello, em nota.

Destaque na 'Davos do Deserto'

O presidente Jair Bolsonaro encerra seu giro de 12 dias pela Ásia e Oriente Médio, que começou no dia 19, na Arábia Saudita com um papel de destaque no maior evento relacionado a mega investimentos de todo o Oriente Médio.

Conhecida como a "Davos do Deserto", a conferência Future Investment Initiative começa nesta terça-feira e terá Bolsonaro como convidado de honra na manhã de quarta. Ele participa de uma mesa com o tema "O retorno à prosperidade: como um novo ambiente de negócios pode colocar o Brasil de volta aos trilhos" para uma plateia com os CEOs dos principais bancos de investimentos internacionais e magnatas do petróleo no mundo árabe.

Além dos principais membros da família real, Bolsonaro também tem audiência com o CEO global do banco Goldman Sachs, John Waldron.

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Image caption Bolsonaro é recebido pelo governador de Riade, príncipe Faisal bin Bandar Al Saud

Foco econômico

O principal objetivo da viagem presidencial é "econômico", afirmou Bolsonaro nesta segunda-feira (28). Ele fica na Arábia Saudita até amanhã, quando se encontrará a portas fechadas com o rei Salman Bin Abdulaziz Al-Saud.As duas prioridades da visita são atrair investimentos sauditas no setor de petróleo e em projetos de infraestrutura do Programa de Parceria de Investimentos (que inclui concessões, privatizações e concorrências para grandes obras) e tratar das exportações de frango para os sauditas.

O presidente mira a participação dos sauditas, principais produtores do planeta de petróleo, para o leilão do pré-sal que acontece em novembro. Segundo uma importante autoridade brasileira envolvida nas negociações ouvida pela BBC News Brasil, o fundo soberano saudita — estimado em US$ 300 bilhões, segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF), que reúne as maiores instituições financeiras mundiais — é a menina dos olhos do governo brasileiro.

Bolsonaro confirmou que vai tentar convencer os sauditas a voltarem a comprar frango da gigante brasileira BRFoods.

"Vou tratar da questão do frango", disse Bolsonaro ao chegar na cidade. "É como toda ferida: será cicatrizada." O país cortou as compras de frango produzido pela BRF nos Emirados Árabes como parte de sua estratégia de reduzir sua dependência do petróleo e aumentar a produção interna de carne.

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Image caption Exportação de frango brasileiro está entre as prioridades da visita de Bolsonaro à Arábia Saudita

Segundo a BBC News Brasil apurou, o CEO global da BRF também veio à Arábia Saudita para acompanhar reuniões entre os dois governos. Com sete escritórios só na Arábia Saudita, a BRF emprega 400 pessoas no país.

A marca Sadia, da empresa, é líder no mercado e tenta se expandir para fornecer carne e embutidos a uma população de aproximadamente 30 milhões de habitantes.

"(A BRF) é um dos assuntos mais importantes para o governo brasileiro", concluiu a fonte.

Abertura saudita ao turismo

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, também é responsável por uma série de reformas que visam reduzir a extrema dependência do país do petróleo. Entre elas está a abertura do país ao turismo

Até 27 de setembro deste ano, visitas ao país eram permitidas apenas a partir de convites vindo de empresas do país ou do governo. O recém-criado visto de turismo é válido para cidadãos aproximadamente 50 países.

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Image caption Cratera vulcânica de Al Wahbah, um dos pontos turísticos da Arábia Saudita

O Brasil não está nessa lista — que permite aos cidadãos dos países listados aplicarem para o visto de turismo eletronicamente. Sendo assim, para obter a autorização, brasileiros vão precisar ir ao consulado mais próximo ou à embaixada da Arábia Saudita em Brasília. Mais informações no site oficial do país.

Antes da nova regra, os únicos países cujos cidadãos podiam visitar a Arábia Saudita eram os vizinhos Emirados Árabes, Kuwait, Bahrein e Omã. Muçulmanos também costumam conseguir vistos especiais para peregrinação a Meca. 

A expectativa da família real saudita é atrair em torno de 1,5 milhão de estrangeiros por ano.

'Vocês estão mais bonitas assim'

Assim que desembarcou do carro oficial em seu hotel na segunda-feira em Riade, capital da Arábia Saudita, o presidente Jair Bolsonaro decidiu comentar o visual das jornalistas brasileiras, que estão vestindo véus e abayas, uma espécie de túnica que esconde as formas do corpo para obedecer a regras de "decência" e "respeito" da sharia (lei islâmica).

"Que maravilha. Vocês estão mais bonitas assim, sabiam?", disse Bolsonaro ao se aproximar dos jornalistas para uma breve entrevista antes de entrar no hotel.

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Image caption 'Vocês estão mais bonitas assim', afirma Bolsonaro a jornalistas brasileiras com vestimenta adequada à lei islâmica

O presidente prosseguiu, enquanto uma jornalista perguntava sobre as expectativas de negócios para o Brasil na Arábia Saudita."Quando a beleza é muito grande, ofusca os olhos da gente. Assim vocês ficam mais bonitas", disse.

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