Porteiro diz que suspeito de matar Marielle pediu para ir a casa de Bolsonaro no RJ, mas visitou outro acusado, diz Jornal Nacional

Direito de imagem RENAN OLAZ/Câmara Municipal do RJ
Image caption Marielle Franco em foto de 2018; ela e o motorista Anderson Gomes foram assassinados em março daquele ano

Reportagem atualizada às 17h de 30/10.

O nome do presidente da República, Jair Bolsonaro, teria sido mencionado nas investigações sobre a morte da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) e do motorista dela, Anderson Gomes. Eles foram assassinados na noite de 14 de março de 2018. A citação a Bolsonaro poderá levar a investigação sobre os assassinatos para o Supremo Tribunal Federal (STF), pois Bolsonaro possui o chamado foro privilegiado.

As informações foram divulgadas na edição de terça-feira (29) do Jornal Nacional, da TV Globo.

A apuração se baseia no depoimento de um porteiro do condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. No dia do assassinato, um dos suspeitos do crime dirigiu até o condomínio, horas antes do crime. Ao porteiro, o ex-policial-militar Élcio Vieira de Queiroz disse que iria à casa de número 58 — que pertence ao presidente.

Uma vez dentro do condomínio, Élcio não foi à casa de Bolsonaro: ele dirigiu até o imóvel 66. É onde mora Ronnie Lessa, acusado de fazer os disparos que mataram Marielle e Anderson.

Ao receber Élcio na guarita, o porteiro ligou na casa 58 para confirmar se o visitante poderia entrar, e alguém na residência autorizou a entrada do veículo, um Renault Logan. Em dois depoimentos à Polícia Civil do Rio, o porteiro disse ter reconhecido a voz de quem atendeu como sendo a do "Seu Jair", segundo o Jornal Nacional.

O advogado do Presidente da República, Frederick Wassef, disse que é impossível Bolsonaro ter falado ao interfone — o presidente estaria em Brasília no dia da morte de Marielle, conforme registro de votações da Câmara dos Deputados e vídeos postados por Bolsonaro nas redes sociais.

O porteiro também disse que acompanhou a movimentação do carro pelas câmeras de segurança do condomínio, depois da entrada de Élcio. Quando percebeu que o veículo tinha ido para a casa de Ronnie, e não para a de Bolsonaro, ligou novamente para o imóvel do presidente. Na segunda ligação, um homem que o porteiro disse acreditar ser o "Seu Jair" disse saber para onde o carro estava indo.

Pessoas ligadas à investigação disseram ao Jornal Nacional que Élcio e Ronnie deixaram o condomínio minutos depois da entrada do primeiro; mas estavam no carro de Ronnie. Em seguida, embarcaram no carro usado no crime num local próximo ao condomínio.

No entanto, na tarde desta quarta-feira, 30 de outubro, a revista Veja publicou que a procuradora do Ministério Público Simone Sibilio, chefe do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (GAECO), afirmou que o porteiro mentiu em seu depoimento.

Quem teria autorizado a entrada de Élcio Queiroz no condomínio do presidente seria Ronnie Lessa, suspeito de ter feito os disparos, de acordo com a procuradora.

De acordo com a Veja, o porteiro prestou dois depoimentos. No primeiro, teria dito que ligou para casa de Bolsonaro. No segundo, ao ser confrontado com registro em áudio da chamada feita no horário informado, manteve sua versão, mas os investigadores colocam em questão sua veracidade.

"O porteiro mentiu, e isso está provado por prova técnica", afirmou Simone Sibilio, segundo a revista.

Caso pode subir para o STF

A menção ao nome de Bolsonaro pode fazer com que a investigação sobre as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes deixe a Justiça do Estado do Rio e vá para o Supremo Tribunal Federal (STF). Isto porque o presidente da República possui o chamado "foro privilegiado".

Neste caso, quem tocaria a investigação seria a Procuradoria-Geral da República (PGR), hoje comandada por Augusto Aras.

Os investigadores do Ministério Público do Rio que cuidam do caso chegaram a se encontrar com o presidente do STF, o ministro Dias Toffoli, para saber se deveriam continuar nas investigações ou se o caso iria para Brasília. Toffoli ainda não respondeu, segundo a apuração do Jornal Nacional.

Direito de imagem EPA/ALI HAIDER
Image caption Citação ao nome do presidente pode levar caso ao STF, já que ele tem foro privilegiado

Bolsonaro estava em Brasília no dia, diz advogado

O advogado de Bolsonaro, Frederick Wassef, disse que o depoimento do porteiro era contraditório com o registro das sessões da Câmara — na tarde e na noite daquele dia, Bolsonaro usou suas digitais para votar em projetos que estavam sendo discutidos na Câmara.

"Jair Bolsonaro, no dia 14 de março de 2018, encontrava-se em Brasília, na Câmara dos Deputados, e inclusive existe registro de entrada dele lá, com o dedo", disse Wassef ao Jornal Nacional.

"Eu afirmo com a mais absoluta certeza e desafio qualquer um no Brasil a provar o contrário. Isso é uma mentira, uma fraude, uma farsa, para atacar a imagem e a reputação do presidente da República. E é o caso de uma investigação por este falso testemunho", disse.

Naquele dia, Bolsonaro também postou vídeos em suas redes sociais. Nas gravações, ele aparece dentro de seu antigo gabinete de deputado federal, na Câmara, e em outro local do Congresso, de acordo com a reportagem do JN.

Em live, Bolsonaro ataca Globo, Witzel e Polícia Civil do Rio

Pouco depois da divulgação da reportagem, o presidente da República transmitiu um vídeo ao vivo em sua conta no Facebook. A transmissão foi ao ar pouco antes das 22h em Brasília, ou cerca de 4h da manhã em Riade, na Arábia Saudita, onde Bolsonaro se encontra.

Na transmissão, Bolsonaro acusou o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC) de ter vazado as informações para a TV Globo — o processo corre em sigilo.

"Digo mais, seu governador Witzel... Também diz aqui na (revista) Veja que o senhor teria vazado esse processo, que está em segredo de Justiça, para a Globo. O senhor só se elegeu governador porque o senhor ficou o tempo todo colado com o Flávio Bolsonaro, meu filho. Ao chegar ao governo, a primeira coisa que o senhor fez foi transformar-se inimigo dele", disse Bolsonaro na transmissão.

A transmissão durou cerca de 20 minutos. Ao fim, o presidente pediu desculpas por ter se exaltado.

"Qual é a intenção disso tudo? A intenção é sempre a mesma: o tempo todo ficam em cima da minha vida, dos meus filhos, quem está próximo de mim. O processo corre em segredo de justiça e de repente vaza. Vaza pra quem? Pra Globo. É sempre a Globo dar o furo (de reportagem)!", disse em outro momento o presidente.

"TV Globo, vocês tiveram acesso a um processo sigiloso. Vocês têm que ser investigados no tocante a isso", disse.

O presidente também acusou a Polícia Civil do Rio de ter orquestrado uma "farsa" e disse acreditar que o porteiro pode ter sido levado a assinar algo que não correspondia ao seu verdadeiro depoimento. "Ou o porteiro mentiu, ou induziram o porteiro a cometer o falso testemunho, ou escreveram algo que o porteiro depois assinou embaixo (sem checar o teor)", disse.

Em nota, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, afirmou não transitar "no terreno da ilegalidade", negou ter vazado qualquer informação da investigação à TV Globo e disse ter sido atacado injustamente.

"Lamento profundamente a manifestação intempestiva do presidente Jair Bolsonaro. Ressalto que jamais houve qualquer tipo de interferência política nas investigações conduzidas pelo Ministério Público e a cargo da Polícia Civil."

E acrescentou: "Não farei como fizeram comigo, prejulgar e condenar sem provas".

(Colaborou Mariana Alvim, da BBC News Brasil em São Paulo)

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