Estado Islâmico: a ‘bomba-relógio’ dos centros de detenção de integrantes do grupo extremista

Mulheres caminham em campo na Síria, em abril de 2019 Direito de imagem Reuters
Image caption Dependentes de integrantes do Estado Islâmico são mantidos no centro de detenção de al-Hawl, no norte da Síria

Como em um filme ruim cujo final você já viu, uma história conhecida corre o risco de se repetir em um lugar perigoso do Oriente Médio.

Centros de detenção curdos, que confinam dezenas de milhares de combatentes do Estado Islâmico e seus dependentes estão se tornando caldeirões de raiva e frustração.

Neste mês, estimulados pela incursão turca na Síria e incentivados por suas lideranças que conseguiram fugir, eles prometeram se vingar de seus captores e do Ocidente, voltando a se reunir, como fizeram em 2013.

Embora as ações da Turquia certamente tenham transformado um problema conhecido em uma crise — mais de 100 prisioneiros do Estado Isâmico já teriam escapado (alguns relatos chegam a 800) e agora estão soltos — a questão é muito mais profunda.

A falha está principalmente nos governos da Europa. Desde a derrota militar do Estado Islâmico pela coalizão liderada pelos EUA em Baghuz, na Síria, em março, autoridades locais e internacionais tiveram sete meses para resolver a questão dos jihadistas derrotados e seus dependentes, muitas vezes, também fanáticos.

A maioria é da Síria e do Iraque, mas ambos os países passam por diferentes níveis de revolta, e a recente sentença de morte determinada por um tribunal iraquiano de jihadistas franceses desencorajou novas transferências para lá.

O núcleo duro dos combatentes mais obstinados do Estado Islâmico e seus dependentes são quase todos de fora da região — Europa, norte da África, Egito, Arábia Saudita, Cáucaso e Ásia Central.

Relatórios recentes do maior campo, al-Hawl, no nordeste da Síria, retratam uma dominação cada vez maior dentro de seus muros pelo Estado Islâmico, incluindo punições mortais aplicadas por mulheres jihadistas. As crianças estão crescendo sem educação adequada e, em alguns casos, recebem doutrinação de uma ideologia extrema e violenta.

"As pessoas nesses campos são muito extremas", disse Michael Stephens, do think tank britânico Royal United London Institute (RUSI).

"Se eles escaparem ou se puderem continuar criando filhos nesses campos, o problema em 10 anos será grave."

Washington e seus aliados curdos têm pressionado a Europa a recuperar os cerca de 4 mil cidadãos que passaram despercebidos por suas fronteiras e entraram na Síria quando o Estado Islâmico estava no auge.

Radicais perigosos

Mas a Europa não os quer de volta. Agências de inteligência alertam que muitos dos integrantes do Estado Islâmico que sobreviveram aos últimos cercos permanecerão radicais altamente perigosos, brutalizados pelas atrocidades que testemunharam e, em alguns casos, cometeram.

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Image caption O Estado Islâmico decaiu muito em relação a 2014, quando autoproclamou a criação de seu 'califado'

Segundo a revista Der Spiegel, as autoridades alemãs acreditam que um terço de seus cidadãos atualmente nos campos — um total de 27 homens e mulheres — são "capazes de realizar atos violentos, incluindo ataques terroristas". Isso explica a relutância do governo alemão em trazê-los de volta para casa.

Trata-se de um problema duplo. Em primeiro lugar, existe o medo de que, se esses jihadistas forem levados a julgamento em seus países, as evidências acabem sendo insuficientes para condená-los — dadas as circunstâncias pouco claras em que eles foram capturados.

Os governos então seriam acusados ​​de permitir a entrada de homens e mulheres perigosos que seriam libertados e, em seguida, representariam um risco potencial à segurança nacional.

Em segundo lugar, mesmo que fossem condenados, apenas aumentariam o problema crescente da radicalização violenta nas prisões europeias, onde um percentual desproporcional da população carcerária — principalmente na França — é de integrantes de comunidades muçulmanas.

Portanto, o resultado é que a Europa não agiu, e o problema foi deixado de lado. E, assim como jihadistas perigosos, milhares de mulheres e crianças inocentes foram deixadas no limbo nesses campos onde, em alguns casos, aqueles que não seguem as regras draconianas do Estado Islâmico são doutrinados ou punidos.

'Prisão injusta'

É impossível subestimar a importância do conceito de "prisão injusta", na psicologia jihadista. Isso remonta à década de 1960, quando o radical islâmico egípcio Sayyid Qutb foi preso e executado, e seus escritos mais tarde se tornaram um modelo para o pensamento da Jihad (como é chamada a luta armada e fanática contra "infiéis e inimigos" do Islã).

O assassinato do presidente do Egito, Anwar Sadat, em 1981, foi seguido pelo encarceramento em massa de islamistas naquele país, algo que se tornou um grito de guerra para seus seguidores e que contribuiu para a al-Qaeda, organização de Osama Bin Laden.

Após a invasão do Iraque liderada pelos Estados Unidos em 2003, o atual Estado Islâmico teve sua gênese dentro das recém-inauguradas prisões de Abu Ghraib e Camp Bucca, de administração americana.

Homens como Abu Bakr al-Baghdadi — líder do Estado Islâmico cuja morte foi anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, no domingo (27/10) — compartilharam ideias, números de telefone com outros prisioneiros e fizeram planos para uma insurgência quando saíssem. Depois de oito anos sob um governo iraquiano que discriminava a minoria sunita do país, os jihadistas se prepararam e invadiram Mosul e o norte do Iraque em 2014.

O que vem depois é história: foram necessários mais cinco anos para desmantelar o autoproclamado califado.

Então, a mesma coisa poderia acontecer novamente agora? Provavelmente não, dizem especialistas como Michael Stephens, do think tank britânico.

Direito de imagem AFP
Image caption A cidade de Mosul, no Iraque, foi recapturada do Estado Islâmico em julho de 2017

"A verdade é que o Estado Islâmico terá muitas dificuldades para se reconstituir, depois de uma insurgência de baixo nível, mas eles devem ser um motivo de preocupação nos próximos anos", disse Stephens. "Uma fuga da prisão seria altamente preocupante, mas as condições no terreno não são propícias para que simplesmente voltem e preencham os vazios, como fizeram em 2013."

Certamente, é difícil imaginar que o Estado Islâmico seja capaz de se reconstruir no nível de espaço físico e geográfico que ocupou e controlou por cinco anos, em uma grande faixa da Síria e do Iraque. Nas palavras da doutora Emman El-Badawy, que passou anos pesquisando o extremismo islâmico e hoje trabalha para o Tony Blair Institute for Global Change, é "improvável" que o grupo perca as oportunidades apresentadas a ele.

"O grupo deve se aprofundar em áreas onde há vácuos legais e dos governos e estabelecer refúgios seguros para recrutamento e treinamento, alimentando a instabilidade e, sem dúvida, continuando a planejar ataques no exterior, inclusive na Europa e nos Estados Unidos."

Em última análise, o problema se resume a isso. A menos que haja uma resolução segura e humanitária para a questão dos milhares de deslocados pelo colapso do califado do Estado Islâmico, esta será uma bomba-relógio que a Europa e outras partes do mundo poderão ter de desarmar.

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