Como foi o primeiro 'Lula livre' em 1980, quando ex-presidente foi preso pela ditadura

Lula é carregado por sindicalistas durante assembléia em São Bernardo do Campo, em 1979 Direito de imagem Claudinei Petroli/AFP
Image caption Lula foi preso em 19 de abril de 1980, acusado de ser o principal 'agitador' das paralisações de operários

"Foi Marisa, sua mulher, quem viu, deu grito avisando que ele vinha a pé. O motorista da Veraneio do Dops ficou com medo quando viu aquela multidão perto da casa do Lula e o deixou no meio do caminho. E o líder metalúrgico, recém-saído da cadeia, chegou a sua casa a pé, carregando uma pequena mala. Mas, antes, a peãozada que invadiu sua casa e as ruas vizinhas, assim que deu a notícia no rádio, ergueu Lula nos braços, estouraram rojões e voltou-se a ouvir em São Bernardo do Campo: 'Luuuuula, Luuuuuula, Luuuuuula'."

Foi assim que, no dia 21 de maio de 1980, o jornalista Ricardo Kotscho iniciou a descrição, em reportagem no jornal Folha de S.Paulo, da chegada de Luiz Inácio Lula da Silva a sua casa depois de 31 dias de prisão.

O então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC havia sido detido no dia 19 de abril por policiais do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgão de repressão da ditadura militar que governava o país.

Os motivos do encarceramento de Lula eram bem diferentes da recente detenção, que foi encerrada com a decisão do Supremo Tribunal Federal (SFT) de suspender prisões após condenações apenas em segunda instância. O órgão decidiu que os processos precisam transitar em julgado em todas as instâncias para que o réu seja preso. Nesta sexta-feira (08/11), a Justiça Federal de Curitiba determinou sua soltura com base na decisão do Supremo.

Dessa vez, Lula passou por um processo criminal e foi condenado à prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato — ele nega todos os crimes. Nos anos 80, o então sindicalista foi detido sem mandado judicial, apenas com base na Lei de Segurança Nacional.

Em abril de 1980, Lula liderava uma greve de metalúrgicos que já durava 17 dias em fábricas da região de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, área industrial na Grande São Paulo.

A paralisação vinha na esteira de outras mobilizações em anos anteriores, e a ditadura temia que ela se prolongasse demais. Ou seja, a esperança dos militares era de que a prisão de Lula e de outros líderes sindicais desmobilizasse greve.

Isso não aconteceu, no entanto. A detenção do proeminente sindicalista fortaleceu o movimento e estimulou a opinião pública a tomar partido de suas demandas.

Mas como Lula foi parar nos calabouços da ditadura militar? O que a prisão significou para o período e para o futuro presidente da República? Como foi o momento em que ele foi solto? Para entender essas questões, a BBC News Brasil consultou depoimentos, conversou com ex-companheiros de Lula e com pessoas que participaram das mobilizações do período.

As greves antes da prisão

As grandes greves dos metalúrgicos do ABC começaram em 1978, na montadora Scania. Depois, elas se espalharam para outras empresas da região — o setor tinha cerca de 140 mil funcionários no ABC paulista, região fabril que englobava originalmente as cidades de Santo André, São Bernardo e São Caetano (posteriormente, Diadema também passou a fazer parte do "cinturão").

Mas o descontentamento dos trabalhadores vinha de antes. Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV), que investigou crimes cometidos pela ditadura, Lula lembrou que arrochos salariais e perdas de benefícios começaram ainda no final dos anos 1960.

"Até então, cada metalúrgico da indústria automobilística recebia todo santo mês um aumento de salário. Se você pegar a carteira de um trabalhador da Volkswagen em 1967, vai ver que ele recebia aumento em janeiro, fevereiro, março. Em abril tinha antecipação do dissídio coletivo... Em 1968, as empresas passaram a diminuir esses aumentos e acabar com alguns privilégios que a gente tinha. Fomos sendo sufocados... Isso criou um clima de animosidade [entre companhias e trabalhadores]."

Direito de imagem Acervo Público Estado de São Paulo
Image caption Posse de Lula na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em 1978, dois anos antes da prisão

Segundo Francisco Macedo, doutor em história pela USP e professor do Instituto Federal de Minas Gerais, as primeiras greves de 1978 foram realizadas dentro das fábricas. "Os trabalhadores entravam na fábrica e cruzavam os braços, porque, na ditadura, não havia espaço para expressão fora desse ambiente", conta Macedo, cuja dissertação de mestrado foi sobre o sindicalismo do ABC.

Os operários saíram vitoriosos naquele ano, conseguindo um aumento substancial de salários e outras melhorias.

No ano seguinte, 1979, as companhias decidiram expulsar da linha de montagem quem parasse dentro da empresa — uma maneira de separar grevistas de quem continuava trabalhando. Isso levou os sindicalistas para o portão e às manifestações nas ruas.

"Nesse período, houve forte repressão do aparato estatal. Houve uma intervenção no sindicato, afastando Lula e outros dirigentes da direção, o que enfraqueceu a greve", conta Macedo.

A contragosto, os trabalhadores aceitaram uma proposta das empresas, encerrando a paralisação naquele ano. Lula conta que saiu da assembleia "xingado de traidor" por ter aceitado negociar com os patrões enquanto boa parte dos companheiros queria continuar parada.

Greve preparada

Depois do fim da intervenção no sindicato, em julho de 1979, Lula e os colegas começaram a se preparar para a campanha salarial do ano seguinte. "Começamos as mobilizações mais de seis meses antes da data-base do dissídio, que era 1º de abril", lembra Djalma Bom, de 80 anos, tesoureiro do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC na época.

Djalma conta uma história curiosa sobre a criação do fundo de greve, uma arrecadação de dinheiro e alimentos que teve grande importância para que o movimento de 1980 se prolongasse por 41 dias.

"Em uma das assembleias, um companheiro me indicou a leitura de Germinal, do Émile Zola. No romance, os trabalhadores da indústria mineral da França criam uma arrecadação para que eles consigam sobreviver durante a greve. Tive a ideia de fazer o mesmo."

Nos meses anteriores, o sindicato e a Igreja Católica, que apoiava os trabalhadores, abriram as portas de templos do ABC e da Zona Leste de São Paulo para angariar recursos. A ideia era suprir as necessidades dos grevistas que não receberiam salários durante a paralisação. "Na greve, o fundo ajudou 32 mil famílias, distribuímos 480 tonelada de alimentos", diz Djalma.

Para o historiador Francisco Macedo, a preparação para 1980 teve outra inovação: membros do sindicato visitaram a casa dos funcionários para conversar sobre o movimento com as famílias. "A ideia era explicar para os parentes a importância da paralisação e de sua continuidade, porque, no momento da greve, os trabalhadores poderiam sofrer pressão dos familiares para retornar ao trabalho."

Djalma se lembra de outro aspecto importante para fomentar os trabalhadores e a opinião pública. "O Lula teve uma compreensão de que nossa luta não era apenas por melhores condições de salário e de trabalho, mas sim pelo restabelecimento da democracia no Brasil. A luta deveria ser mais política", diz.

Macedo concorda com essa análise. "Os trabalhadores perceberam que todo o aparato repressivo do Estado estava contra eles, e não apenas as empresas. A luta passou a ser não apenas pelo aumento salarial, mas pela democracia também. Eles perceberam que sem democracia a luta nunca chegaria a um resultado."

A greve começou no dia 1º de abril, mas, nos dias seguintes, as empresas se recusaram a negociar melhorias. No entanto, como havia uma sensação de derrota em relação ao ano anterior, o sindicato acreditava que deveria "ir até as últimas consequências", segundo Macedo.

Por outro lado, nos dias seguintes, boa parte trabalhadores se desmobilizou: eles queriam voltar a receber salários depois de dias sem nenhum avanço tangível nas negociações.

Nesse sentido, Djalma conta uma conversa que teve com Lula antes de uma assembleia no estádio municipal da Vila Euclides: "Lula me falou: 'Djalma, para a greve continuar, para os trabalhadores continuarem mobilizados, precisa acontecer alguma coisa extraordinária'".

Lula não imaginava, mas esse fato "extraordinário" iria ocorrer no dia 19 de abril.

A prisão dos sindicalistas

Direito de imagem Acervo Instituto Lula
Image caption Lula fichado pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), onde ficou preso por 31 dias em 1980

Por volta das 6h30, oito homens armados com metralhadoras cercaram a casa de Lula, no bairro de Ferrazópolis, em São Bernardo. "Na minha casa estava o Geraldo Siqueira Filho (então deputado estadual) e o Frei Betto."

"Quando eles (militares) bateram na porta, o Frei Betto falou: 'a polícia tá aí'. Eu não tinha nem lavado o rosto ainda. Falei para eles: 'espera que vou me trocar'. Eles disseram: 'não, não pode esperar'. Voltei para dentro de casa e fui me trocar", contou Lula, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade.

Vários sindicalistas do ABC foram presos no mesmo momento. Entre eles, o próprio Djalma Bom e Isaias Urbano da Cunha, hoje com 79 anos. "Abri a porta de casa, e era o pessoal da Polícia Federal. Me deram socos e me algemaram com as mãos para trás. Meu filho tinha oito anos e saiu correndo pela casa, assustado. Me levaram preso de pijamas, descalço", diz Isaias, que na época era dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André.

O advogado José Carlos Dias, que defendia presos políticos do regime militar, também foi detido no mesmo dia. "Soube que o Lula tinha sido preso. Decidi sair de casa, mas logo me disseram que havia vários homens de terno e gravata na rua. Achei que havia algo grave acontecendo, e peguei meu passaporte. Falei para minha mulher: 'se eu não ligar em 20 minutos é porque fui preso'."

Na praça Panamericana, Zona Oeste de São Paulo, ele foi detido por "homens com metralhadoras". "Havia umas 15 pessoas presas no Dops, entre elas vários clientes meus. Não há nada pior que você ser advogado e acabar preso com seus próprios clientes", conta Dias, que foi solto no mesmo dia e, anos depois, viraria ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Na época, o chefe do Dops era o delegado Romeu Tuma (1931-2010), que depois se tornaria senador por São Paulo. Ao contrário de outros presos políticos, que foram torturados e até mortos nos porões da repressão, Lula conta que foi bem tratado pelo então policial. "O Tuma me tratou dignamente, com humanidade. Minha mãe estava com câncer. Ele me deixou sair algumas vezes à noite para vê-la", contou.

Eurídice Ferreira de Melo, conhecida Dona Lindu, morreu de câncer no dia 12 de maio, enquanto o filho estava preso. Djalma Bom se lembra do momento em que Lula soube da morte. "Ele foi chamado na direção do Dops. Quando voltou para a cela, tinha lágrimas nos olhos e disse: 'Djalma, minha mãe faleceu'."

O sindicalista foi autorizado por Tuma a ir ao velório. Coincidentemente, anos depois, dois parentes do ex-presidente morreram enquanto ele estava preso em Curitiba: um irmão e um neto — no primeiro caso, a Justiça Federal não autorizou sua ida ao velório.

O efeito da cadeia

Em 1980, a prisão de Lula e outros sindicalistas acabou tendo o efeito contrário do que pretendia a ditadura militar: a greve se fortaleceu.

"Os militares cometeram a burrice de me prender com 17 dias de greve. O que aconteceu depois? Foi um motivo a mais para greve continuar. Houve passeatas e mobilização [contra as prisões], até com o [poeta] Vinicius de Moraes", disse Lula.

Em 22 de abril, por exemplo, um operário da Volkswagen, uma das fábricas mais afetadas, contou como a detenção de Lula foi vista por seus companheiros e até pela família: "Um vizinho meu, fura-greve, só parou (de trabalhar) por causa da prisão do Lula. Ele me falou: 'isso não pode acontecer'. Até meu sogro e minha sogra que eram a favor do governo, agora viraram contra", disse o operário à Folha de S.Paulo.

Dentro da cadeia, o clima era de incerteza: os sindicalistas chegaram a fazer uma greve de fome por quatro dias.

Isaias, que ficou 28 dias preso, relata uma conversa que teve com Lula na cela. "Lula me disse que não sabia se a gente sairia vivo ou morto, mas que entraríamos para a história. Ele disse que nossos netos ou bisnetos chegariam no governo um dia. Ele não disse que ele seria o governo, o presidente, mas sim os nossos netos."

Para o historiador Francisco Macedo, as mobilizações dos metalúrgicos tiveram outros componentes favoráveis: a cobertura massiva da mídia e uma certa abertura do regime militar com ações como a anistia e o fim do bipartidarismo. "Esse contexto fez com que Lula surgisse como um líder bastante popular, iniciando as conversas para a criação do Partido dos Trabalhadores."

Com o aumento da repressão e uma pressão interna pelo retorno às fábricas, os trabalhadores encerraram a greve sem que suas demandas fossem atendidas pelos empresários.

Para Macedo, no entanto, os metalúrgicos tiveram vitórias simbólicas nos anos seguintes à paralisação de 80, como a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do PT, além da retomada da democracia em 1985. "O principal legado da greve de 1980 é simbólico: a ideia de que os trabalhadores são sujeitos ativos, que se organizam e lutam por suas reinvindicações no espaço público", diz.

Para a indústria, o efeito foi um prejuízo material: 75 mil veículos deixaram ser produzidos no período, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

'Nas mãos dos metalúrgicos'

Direito de imagem Reuters
Image caption Militantes e sindicalistas foram até sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para acompanhar Lula antes de sua prisão, em abril de 2018

Lula foi liberado do Dops por volta das 20h naquele 20 de maio. O juiz Nelson da Silva Machado Guimarães considerou que não era mais necessário manter a prisão dos sindicalistas depois do fim da greve. "A ordem pública não se acha mais perturbada", afirmou o magistrado.

Uma multidão esperava Lula em São Bernardo com fogos de artifício e cachaça para comemorar a soltura do líder. Ao chegar, ele deu uma entrevista ao jornalista Ricardo Kotscho em cima dos ombros dos companheiros. "Esse é um dos momentos mais felizes da minha vida", disse. Kotscho depois viraria secretário de imprensa do governo Lula no início do primeiro mandato do petista.

No dia, Lula afirmou não ter medo de ser detido novamente. "Se eu tiver de ser preso pelos mesmos motivos, por representar os anseios da minha categoria, eles podem me prender mais 500 vezes."

Embora as discussões sobre a criação do PT já estivessem em curso, o sindicalista foi lacônico sobre seu futuro: "Sou um homem que nunca fez planos para o futuro. Meu destino sempre foi traçado pela categoria, está nas mãos dos metalúrgicos".

Por coincidência, foi também das mãos dos metalúrgicos que Lula saiu para ser preso novamente pela Polícia Federal, mas 38 anos depois, em 7 de abril de 2018, dessa vez condenado em terceira instância pelo caso do tríplex do Guarujá. Uma imagem do ex-presidente sendo carregado pela multidão em frente ao sindicato virou um símbolo daquele momento.

Hoje, seus companheiros de ativismo sindical têm visões conflitantes sobre as duas prisões.

Para Isaias, por exemplo, elas não têm nenhuma relação. "A diferença é grande: em 1980 ele foi um preso político. Dessa vez, não: foi preso por desfalques, por desvios de dinheiro, e não conseguiu provar sua inocência. Ele foi preso como um criminoso, naquela época ele era um herói", afirma.

Já Djalma pensa diferente: "Para mim, Lula continua sendo a mesma pessoa. Ele foi o preso político mais importante do mundo. A prisão foi uma armação para que ele não pudesse concorrer à Presidência no ano passado", afirma.

'Junto a Lula'

Preso ou não, Lula continua sendo um assunto importante mesmo para ex-companheiros que deixaram o ABC paulista e o sindicalismo para sempre.

José Alves Bezerra, de 71 anos, por exemplo, conheceu o petista no final dos anos 1970, em São Bernardo. Junto ao líder, participou de assembleias e greves no ABC, o que lhe rendeu um casamento (ele a conheceu a esposa no sindicato) e uma demissão da Volkswagen, onde trabalhava.

Mas depois Bezerra se aposentou em outra empresa e voltou para a terra natal, a cidade de Várzea Alegre, no interior do Ceará. De lá, acompanhou a trajetória recente do ídolo: do popular presidente da República a presidiário em Curitiba. "Nunca mais o vi pessoalmente, só pela TV. Acho que ele deveria ser inocentado, mas quem sou eu para falar alguma coisa, né?", diz, por telefone.

A admiração pelo político passou do ex-metalúgico para seu filho, um professor de história de 26 anos. "No 1º de maio, meu filho foi até Curitiba para ficar na frente da prisão do Lula", diz.

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