'Desafio a me mostrar um cristão que tenha cometido a tal da homofobia', diz Feliciano

Marco Feliciano
Image caption Feliciano diz avaliar convites de partidos para ser opção de vice a Bolsonaro em 2022

O deputado e pastor Marco Feliciano (Podemos-SP), leal defensor do governo de Jair Bolsonaro no Congresso, sabe que ainda é impossível prever o cenário eleitoral de 2022. Apesar disso, em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, ele mostra que já pensa estrategicamente em como se posicionar para ser uma boa opção de vice na chapa do presidente na disputa pela reeleição.

Uma das maiores lideranças evangélicas do país, ele está de saída do Podemos, partido que assumiu forte discurso anticorrupção e se distanciou do clã Bolsonaro. No entanto, não pretende entrar para o Aliança pelo Brasil, legenda que o presidente está construindo, porque reconhece que não seria boa uma chapa presidencial puro-sangue (com presidente e vice do mesmo partido). O deputado, que já chegou a pedir o impeachment do atual vice, general Hamilton Mourão, diz que está estudando convites de oito partidos.

"Existe uma notícia dada pela imprensa, né? Sobre o presidente querer um evangélico pra ser vice dele. Eu não sei como será, não sei se serei eu. Então, tem que ser feito um estudo, porque se eu estiver no mesmo partido, uma chapa pura talvez não seja tão interessante", afirma.

Feliciano, porém, se diz disposto a ajudar na tarefa do presidente de conseguir cerca de 500 mil assinaturas pelo país para fundar o novo partido. Se Bolsonaro pedir, diz, os evangélicos vão se mobilizar.

"Não precisa ser no próprio culto, a igreja pode marcar uma reunião extraordinária, pra não confundir a religião com a política, e o pastor contar o que está acontecendo e pedir pras pessoas irem até o cartório e fazer o registro. Isso é possível", explicou.

Na entrevista, fica claro o total alinhamento de discurso entre o deputado e o presidente. Questionado sobre as exaltações de Bolsonaro, um cristão, ao coronel Carlos Ustra, conhecido torturador durante a Ditadura Militar, Feliciano defendeu o uso da violência em nome da disciplina e disse que o regime que governou o país de 1964 a 1985 foi democrático, a despeito da falta de eleições diretas e dos assassinatos políticos.

"É cristão você pegar um chicote e espancar as pessoas? Jesus fez isso no momento oportuno quando necessário", respondeu, em alusão ao episódio narrado no Novo Testamento em que Jesus expulsou os vendilhões (comerciantes) do Templo de Jerusalém.

O deputado também defendeu uma ação orquestrada de católicos e evangélicos para processar o grupo Porta dos Fundos pelo especial de Natal do Netflix em que Jesus é apresentado como gay. Desafiou a reportagem a mostrar um cristão que tenha cometido homofobia, mas, ao ser confrontado com falas preconceituosas da família presidencial, acusou a BBC News Brasil de forçar a interpretação de declarações.

Confira a seguir a entrevista, concedida na terça-feira (17/12), um dia antes da nova operação que atingiu o senador Flavio Bolsonaro, investigado por suposta "rachadinha" no seu ex-gabinete de deputado estadual no Rio de Janeiro.

Direito de imagem Ag Câmara
Image caption Feliciano, que se projetou nacionalmente apoiando a pauta conservadora nos costumes, vem adotando também uma forte defesa do regime militar

BBC News Brasil - Há uma expectativa em Brasília de que possa haver uma reforma ministerial no início do próximo ano. O senhor tem alguma sinalização do presidente?

Marco Feliciano - Isso, pra mim, a princípio, é fake news, porque o presidente está satisfeito com o governo, ele montou um time coeso. Não é um time indicado pela velha política, é um time dele, que ele formou. E ele costuma dizer que em time que está ganhando não se mexe. Então, do Palácio pra cá, não há previsão nenhuma de reforma.

BBC News Brasil - Recentemente uma comissão da Câmara fez um relatório duro apontando que o Ministério da Educação está paralisado, que alguns programas não estão tendo execução orçamentária ou planejamento. Não está havendo problema nessa área que justifique a mudança do ministro (Abraham) Weintraub?

Feliciano - Somente ele poderia responder isso tecnicamente. Mas, politicamente falando, o presidente está satisfeito com o ministro Weintraub. Inclusive o Eduardo (Bolsonaro) saiu na defesa dele. O Eduardo não fala só por ele, fala pelo clã. Então, o ministro tem feito um trabalho engajado. O MEC (Ministério da Educação) pra nós é um ministério muito importante, o mais aparelhado de todos. O que ocorreu no Brasil foi uma revolução cultural, a esquerda conseguiu dominar o nosso país através da cultura, e tudo isso passa por aquele órgão lá. Ali, pra nós, é o grande centro nevrálgico do governo. Então, era preciso ter colocado ali um nome como o Abraham, prefiro chamar ele pelo primeiro nome, o Abraham, porque ele é uma pessoa coesa, é uma pessoa que suporta pancada, que não leva desaforo pra casa, né? Ele é bem o espírito do meu presidente.

BBC News Brasil - Estamos em um momento de muita polarização no país e de um clima de ódio. Vemos manifestações muito raivosas de ambos os lados. O Weintraub recentemente disse que o Lula era um confesso admirador de Hitler, embora eu não conheça declaração do ex-presidente nesse sentido. O senhor, recentemente, falou que a esquerda era a encarnação do mal...

Feliciano - E reitero.

BBC News Brasil - E o presidente Bolsonaro e seus filhos constantemente falam com muita agressividade em relação aos adversários. Algumas pessoas consideram que isso é antidemocrático, por exemplo, tachar todo um campo político de encarnação do mal. Isso não alimenta ainda mais a polarização, um clima de ódio no país e acaba sendo não construtivo?

Feliciano - Nos últimos vinte anos, a esquerda fez isso com a gente e ninguém questionou a esquerda. Eu apanhei no meio da rua pela esquerda. Minha esposa, filhas pequenas apanharam da esquerda, de movimentos sociais como o movimento LGBT e outros mais. A imprensa não questionou a esquerda. Por que nos questionam? Ou seja, a polarização veio aí e não é passageira, veio pra ficar. Espere isso pelos próximos vinte anos, porque a mídia social deu voz e vez a um grupo de pessoas que não podiam falar. Então, pelos próximos vinte anos haverá sempre esse entrave porque as pessoas hoje conseguem falar o que pensam. E nós vamos compartilhar essa guerra, espero que ela não vá pras vias de fato.

Direito de imagem Luis Fortes/MEC
Image caption 'Politicamente falando, o presidente está satisfeito com o ministro Weintraub', diz Feliciano

Mas, vamos olhar por um outro lado, um ano de governo e não se ouve falar em corrupção e a grande imprensa não fala nada sobre isso. Os outros governos, de esquerda, anteriores, era corrupção em cima de corrupção... Então, existe uma perseguição contra o governo do presidente Jair Bolsonaro, pelo establishment, porque ele não fala a linguagem daqueles que apontaram que ele não venceria nas eleições, nas urnas, e ele venceu. Está todo mundo aí perturbado, até hoje, tentando entender o que aconteceu.

BBC News Brasil - Eu entrevistei o ex-presidente Lula, na prisão ainda, e coloquei a mesma questão pra ele. Lembrei que ele colocou em dúvida a facada sofrida pelo então candidato Jair Bolsonaro e perguntei como isso colabora pra diminuir a temperatura, abrir diálogo e pra gente superar esse momento de ódio. Estou colocando a questão para os dois lados.

Feliciano - Não tem diálogo com a esquerda.

BBC News Brasil - Mas tem também pro seu lado?

Feliciano - Do nosso sempre teve, porque o conservador é centrado. O esquerdista não, o esquerdista é um revolucionário. Você não tem como conversar com um revolucionário, porque um revolucionário não pensa em governo, ele pensa em projeto de poder. Saíram do poder e não aceitam, vão sempre fazer uma oposição irresponsável. Agora, quando o conservador entra, ele entra pra arrumar. E pra arrumar é esse embate. A esquerda não quer largar o osso. Só que a esquerda está desfacelada no Brasil. E esse não é um fenômeno que acontece só aqui, acontece em toda a América. Por que a esquerda perdeu o poder? Por que, em todos os países onde a esquerda governou, ela empobreceu a sua população, ela deixou o povo em estado de miserabilidade, ela colocou guerra na população, ela colocou brancos contra negros, gays contra héteros, ateus contra religiosos. Ela conseguiu criar esse ódio que você tanto fala, eles plantaram isso. O que a gente faz como direita é apenas nos defender e trabalhar, trabalhar e trabalhar.

BBC News Brasil - Há no espectro político tanto uma esquerda radical quanto uma direita radical, uma esquerda que é mais moderada, e, na direita, também pessoas mais moderadas. O senhor não está simplificando um pouco esse debate?

Feliciano - Eu disse que o conservador ele é mais ético. Um esquerdista não tem ética, a não ser que seja a ética dele. Um esquerdista, por exemplo, ele diz que defende minorias, defende negros. Mas nós temos aqui o deputado Hélio Negão, também chamado de Hélio Lopes, Hélio Bolsonaro, que no dia da Consciência Negra foi fazer um discurso e o movimento negro social de esquerda chamou ele de capitão do mato, de negro de alma branca. E aí? Nós temos aí homossexuais. Nós temos uma hoje que está na imprensa, Karol Eller. Karol Eller é homossexual assumida, lésbica, apoiou o presidente Jair Bolsonaro e agora aparece na imprensa com o rosto todo machucado. Alguém bateu nela porque ela apoia o Bolsonaro. E aí? Só que ninguém da esquerda foi defender ela, porque ela pertence a uma minoria, aliás, ela é minoria da minoria. Então a esquerda tem os seus protegidos. Eles criaram esse ódio, repito, eles criaram tudo isso.

Direito de imagem Valter Campanato/Ag Brasil
Image caption Ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, é investigado por suspeita de esquema de laranjas no período de campanha eleitoral; "É uma guerra política", afirma Marco Feliciano

Nós queremos governar, nós queremos trabalhar, nós queremos paz, nós queremos que o pai de família saia de manhã, tenha segurança e consiga trazer o pão pra sua casa à noite. Nós não queremos pichação, nós não queremos pessoas quebrando, bandalheira e destruindo como está acontecendo no Chile. Chega, chega. A esquerda teve oportunidade. Ela não conseguiu porque a esquerda vende um céu na terra, o céu dela não existe. Tirar de quem tem, dar pra quem não tem e não motivar aquele de quem você tirou. Você vai levar todo mundo pra um estado de pobreza, veja a Venezuela.

[Nota da redação: Na quinta-feira, a Polícia Civil, após analisar imagens de uma câmera de segurança, descartou a versão de Karol Eller, de que ela teria sido vítima de um ataque homofóbico. Ela e a namorada, a policial civil Suelen Santos, responderão por denunciação caluniosa. Os indícios, segundo as autoridades, são de que Eller iniciou a briga, com um homem identificado como Alexandre da Silva, por ciúmes da namorada.]

BBC News Brasil - O senhor falou que o conservador é ético e o senhor já havia falado como não tem tido escândalos de corrupção no governo Bolsonaro. No entanto, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, é investigado por suspeita de ter desviado recursos de campanha eleitoral. E, do ponto de vista da família do presidente Jair Bolsonaro, há inúmeras acusações sobre a contratação de funcionários fantasmas, que culminam na investigação contra o senador Flávio Bolsonaro. A própria BBC News Brasil fez duas reportagens mostrando que o Flávio e o deputado Eduardo Bolsonaro tiveram cargos aqui na Câmara quando eram muito jovens, lotados na liderança de partidos do então deputado Jair Bolsonaro, enquanto estudavam no Rio de Janeiro. Será que essa família é um exemplo perfeito de ética como o senhor está colocando?

Feliciano - Volto a dizer. No governo Bolsonaro não tem nenhuma denúncia de corrupção. No governo, de janeiro até agora, não encontraram nada. A hora que encontrarem e mostrarem tudo bem. Na questão do Flávio quem pode responder é ele, na questão do ministro, se existe de fato alguma coisa, porque eles falam desde janeiro, já são 12 meses, onde estão a prova, a materialidade? Lembrando, que eu já fui vítima da esquerda e sei como eles trabalham; quando eles não podem com você eles vasculham a sua vida. Quando não encontram nada, eles criam e inventam e judicializam. Porque conhecem a Justiça Brasileira, na sua lentidão toda.

Eu padeci aqui por sete anos com processo, inclusive de funcionários fantasmas. E aí toda a imprensa deu: funcionário fantasma, funcionário fantasma. Inclusive, essa semana que passou, fui expulso do partido (o Podemos), por me ver perto do presidente, e o próprio partido não teve argumentação, trouxeram o assunto de novo de funcionários fantasmas. Tudo devidamente investigado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e arquivado não por falta de provas, mas por falta de fatos. E a imprensa também não divulga. Então, é uma guerra política.

BBC News Brasil - Sua expectativa é que essa expulsão vai se concretizar?

Feliciano - Eu espero, não tem mais clima. A executiva nacional me chamou pedindo desculpa, disseram que a pessoa lá de São Paulo, inclusive pediu afastamento, porque houve uma briga, foi uma coisa pessoal. A pessoa que assinou essa documentação e entregou pra imprensa vai ser processada, é o Mario Covas Neto, tio do prefeito da cidade, que é candidato à reeleição. O meu nome foi colocado à candidatura de prefeito de São Paulo, então usaram isso de maneira cruel, covarde, pra atingirem a minha honra. Todos serão devidamente processados.

BBC News Brasil - E no campo político, qual será o seu caminho após a saída do Podemos?

Feliciano - Olha, eu acho que eles acabaram criando um monstrinho, porque saiu a notícia às 14h da tarde. As 14h02 eu recebia ligação, uma após a outra, das 14h02 até às 16h, de pelo menos uns oito líderes de partidos grandes que querem a minha filiação, inclusive que querem que eu saia candidato a prefeito pela cidade de São Paulo. Então, o tiro foi dado no pé.

Direito de imagem Valter Campanato/Ag Brasil
Image caption Jair e Michelle Bolsonaro em culto de ação de graças no Planalto; Feliciano diz que ainda 'estuda' se vai entrar no novo partido do presidente

BBC News Brasil - O senhor pretende ser candidato?

Feliciano - Assim que terminarmos aqui o ano legislativo, vou sentar com meu grupo político e vamos ver o que a gente faz pro ano que vem.

BBC News Brasil - O senhor não cogita se unir ao presidente Bolsonaro nessa formação do Aliança pelo Brasil e se filiar à Aliança pelo Brasil?

Feliciano - Eu não conversei com ele sobre isso, até porque a gente não sabe como vai ficar configurado a eleição pra daqui a 2022. Existe uma notícia dada pela imprensa, né? Sobre o presidente querer um evangélico pra ser vice dele. Então eu não sei como será, não sei se serei eu. Então tem que ser feito um estudo, porque se eu estiver no mesmo partido, uma chapa pura talvez não seja tão interessante. Talvez seja interessante um partido de cá e o outro de lá estar juntos por conta de tempo de televisão e outras coisas mais.

BBC News Brasil - Então está no seu cálculo político ingressar num partido que pode ser um bom parceiro pra uma chapa na candidatura à reeleição do presidente?

Feliciano - Talvez, talvez.

BBC News Brasil - Nesse esforço grande que vai ser necessário para arregimentar 500 mil assinaturas pra criação desse partido, o senhor pretende ajudar o presidente? Os evangélicos terão um papel importante na criação desse partido?

Feliciano - Ele não me pediu, mas se ele pedir, com certeza. Se ele der um grito, uma palavra de comando, acredito que, se não todo o movimento evangélico nacional, mas pelo menos 80% aquiesceriam e responderiam positivamente. Porque o presidente hoje sabe que a grande base social dele é o movimento evangélico. Nós somos 30% da população brasileira hoje. Então, eu o ajudaria sem pensar duas vezes.

BBC News Brasil - E como que isso poderia ser materializado? Pastores poderiam pedir assinatura, ajudar a divulgar?

Feliciano - Sim. Não precisa ser no próprio culto, a igreja pode marcar uma reunião extraordinária, pra não confundir a religião com a política, e o pastor contar o que está acontecendo e pedir pras pessoas irem até o cartório e fazer o registro. Isso é possível.

BBC News Brasil - E o senhor acha provável que isso aconteça?

Feliciano - Não sei. Como eu disse, não sei por que o presidente não toca nesse assunto. E não é ele quem cuida disso. Acho que quem está cuidando da questão do partido é o Flávio. E nós não sentamos pra conversar.

BBC News Brasil - Deputado, esse ano também foi marcado por declarações de exaltação à ditadura militar do presidente, do Eduardo Bolsonaro...

Feliciano - Qual ditadura militar?

BBC News Brasil - A que governou o país de 1964 a 1985.

Feliciano - Ditadura? Você leu o livro errado...

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Image caption Logomarca do Aliança pelo Brasil feita com cartuchos de bala; "Se ele (Bolsonaro) der um grito, uma palavra de comando, acredito que, se não todo o movimento evangélico nacional, mas pelo menos 80% aquiesceriam e responderiam positivamente", diz Feliciano

BBC News Brasil - Não havia liberdade partidária, eleições...

Feliciano - Não, não. Então, vamos corrigir aqui a História. Eu também aprendi como você, na escola de esquerda, que nós tivemos uma ditadura no nosso país. Nós tivemos aqui um Regime Militar. Um regime militar pedido pela população brasileira. Eu tenho aqui, posso te mostrar, a revista Manchete mostrando em 1964 um milhão de pessoas na rua, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, nas principais capitais, pedindo a intervenção militar, com medo do golpe comunista que vinha da Rússia. Então, não houve ditadura. Eu posso falar o que é ditadura pra você. Ditadura comunista Soviética, na China, no Chile aqui (na América do Sul). E todas elas mataram milhões de pessoas, quase cem milhões de pessoas assassinadas na ditadura. No regime militar brasileiro, no espaço de pouco mais de vinte anos, a Comissão da Verdade vasculhou isso intensamente, com a bênção do PT, com a bênção das esquerdas, e conseguimos chegar a um número de quase 500 pessoas entre desaparecidos e mortos.

[Nota da redação: O deputado se refere a governos autoritários de viés comunista na União Soviética, comandados por Josef Stálin, e na China, por Mao Tsé-Tung, e de viés capitalista no Chile, regime comandado por Augusto Pinochet.]

BBC News Brasil - São 500 vidas, né?

Feliciano - É claro que se morresse uma pessoa só já era horrível.

BBC News Brasil - E morreram.

Feliciano - Mas eu estou te mostrando o que é uma ditadura. Milhões, autoritarismo.

BBC News Brasil - Mas a ditadura se mede por quantas pessoas são mortas?

Feliciano - Sim.

BBC News Brasil - A quantidade de mortos é o que define uma ditadura? A que mata "pouco" não é uma ditadura?

Feliciano - Sim. Então vamos lá. Nós estamos nessa liberdade brasileira, nessa democracia linda e criada pela esquerda. Sessenta e três mil assassinatos por ano.

BBC News Brasil - Isso é uma tragédia que tem que ser combatida...

Feliciano - Não. Isso é uma ditadura, isso é uma ditadura branca. Isso é uma ditadura que vem de um partido que dividiu o povo, que não cuidou de uma segurança, que saqueou os cofres públicos, que roubou e quebrou a nossa nação e jogou o povo na bandalheira da pobreza, a pobreza atraiu a miséria e a miséria atraiu a violência. Isso sim. No período militar foi o período que o país mais cresceu, foi o regime militar em 64. Não houve armamento na rua pedindo pras pessoas "Nós estamos tomando o Congresso Nacional", não foi isso. Então, a História tem que ser contada de maneira certa.

[Nota da redação: o regime militar registrou altas taxas de crescimento econômico nos anos 70, mas seus anos finais foram marcados por profunda crise econômica. Os anos 80 forcam conhecidos como década perdida.]

Direito de imagem Antônio Cruz/ Agência Brasil
Image caption Ato público de 2014 da OAB pelos 50 anos do golpe militar; "Não houve ditadura militar, porque foi o povo que pediu pra que isso acontecesse", diz Feliciano

BBC News Brasil - A ditadura militar cassou congressistas, aposentou compulsoriamente alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, não fez eleições diretas e torturou e matou, isso é comprovado. Como o senhor está minimizando isso?

Feliciano - Eu vou repetir. Não houve ditadura militar, porque foi o povo que pediu pra que isso acontecesse.

BBC News Brasil - Mas ficou 20 anos no poder.

Feliciano - Foi democrático. Foi democrático.

BBC News Brasil - Houve várias passeatas contra também.

Feliciano - Sim, passeatas pequenas que não resultaram em nada.

BBC News Brasil - Não seria melhor fazer uma eleição e consultar a população?

Feliciano - Vou repetir. Não houve ditadura militar no Brasil. Houve uma intervenção militar e existem casos pontuais. Eu quero comparar ditadura porque a ditadura da esquerda, eu posso te contar sobre a ditadura da China. Mao matou mais de 60 milhões. Posso te falar da ditadura soviética, que foram mais de 40 milhões. Isso sim, ditaduras. Ditaduras com mão de ferro. O nosso país? Eu, não sei qual a sua idade e também não se pergunta idade pra uma senhorita, né? Mas eu tenho 47 anos.

BBC News Brasil - Eu tenho 33.

Feliciano - Então, você é mais novinha do que eu, talvez você não tenha pegado, porque nós temos aí trinta anos de democracia no Brasil. Eu vivi um pouco mais que você. Eu vivi num tempo em que a gente podia andar na rua, que a gente podia brincar, que a gente respeitava pai e mãe, que a gente tinha sonhos, que a gente podia sair e voltar a qualquer hora.

BBC News Brasil - Isso é a parte da população que concordava com o governo, a outra era torturada.

Feliciano - Inclusive uma dessas torturadas se tornou presidente do Brasil, foi a Dilma Rousseff.

BBC News Brasil - Após a redemocratização.

Feliciano - E ela participou de atentados que levaram à morte de soldados.

BBC News Brasil - Isso não é comprovado.

Feliciano - É comprovado.

BBC News Brasil - Deputado, isso já é fake news.

Feliciano - Não é fake news. Nós temos o busto do soldado onde você quiser ir pra ver, o seu Mário Kozel.

[Nota da redação: o soldado Mário Kozel foi morto em um atentado com um carro-bomba em um quartel do Exército em São Paulo em junho de 1968 realizado pela organização de extrema-esquerda VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Naquele momento, Dilma integrava outra organização, a Colina (Comando de Libertação Nacional), que também era adepta da luta armada. De acordo com o CPDOC-FPV, a ex-presidente "engajou-se em atividades clandestinas, sem, no entanto, tomar parte em ações militares". Ela foi presa por quase dois anos a partir de janeiro de 1970, tendo sido torturada].

BBC News Brasil - A participação direta dela em atentados não é comprovada.

Feliciano - É comprovado. Ela fazia parte do grupo que sequestrava pessoas, que matavam pessoas. Então, o governo tinha que reagir de alguma forma. Veja só, eu não minimizo com mortes. Pra mim, como eu disse, sou cristão. Uma morte é horrível, mas dizer que o Brasil teve uma ditadura militar, aí é forçar demais a história.

Direito de imagem Acervo Arquivo Nacional
Image caption Parada militar celebrando a independência do Brasil em frente à Candelária, no Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1972; Marco Feliciano argumenta que foi um 'período democrático'

BBC News Brasil - Mas o senhor então não vê problema na falta de eleições? Na censura da imprensa?

Feliciano - O Brasil caminhava...

BBC News Brasil - O presidente e os filhos costumam exaltar o coronel Carlos Ustra, que é considerado um importante torturador da época da ditadura militar. Como o senhor vê a apologia à tortura, é aceitável?

Feliciano - Nenhuma apologia, nenhuma defesa de tortura tem que ser aceitada. Quando eu vejo o presidente Bolsonaro falar do Ustra como eu vi, inclusive ele fez uma coisa boa para a população, fez o povo estudar. Porque ninguém sabia quem era o coronel Ustra. Foi um militar que estava a serviço do seu país, cumprindo o seu papel. O que ele fez, o que não fez, se houve tortura ou não, eu não vivi naquele tempo e também não sei dizer. O presidente não fez apologia à tortura, ele respeitou um soldado que lutou...

BBC News Brasil - Ele o exalta como um herói.

Feliciano - Um herói. Um herói porque ele livrou o Brasil do comunismo.

BBC News Brasil - Ele é um torturador herói?

Feliciano - Não sei se ele é torturador. Você que está dizendo.

BBC News Brasil - Não vai contra os valores cristãos apoiar uma pessoa que é documentado que torturou? Muitas pessoas que passaram pela tortura já se manifestaram e relataram como foram esses episódios.

Feliciano - É cristão você pegar um chicote e espancar as pessoas?

BBC News Brasil - Não...

Feliciano - Jesus fez isso no momento oportuno quando necessário. A disciplina às vezes é preciso vir. Não existe seriedade se não houver respeito. E quando o desrespeito vem, você precisa usar a disciplina. Então, usar a fé, como você acabou de usar agora, pra falar que eu como pastor ou ele como cristão, defendendo... Nós defendemos a nossa pátria. A Bíblia é um livro que diz que nós devemos respeitar as autoridades e lutar para que a paz comum, de toda a nação, seja protegida. Você vai encontrar na Bíblia inúmeras guerras. E as guerras vinham com a benção de Deus, quando Israel sai pra lutar. Então, vamos fazer o seguinte? A César, o que é de César. A Deus, o que é de Deus. A política é de César.

BBC News Brasil - Então, pelo que eu entendi da sua fala, o senhor considera que alguns valores cristãos não se opõem a instrumentos ou uso da violência?

Feliciano - Mas isso é um valor cristão. O valor cristão é um valor que você respeita. Uma pessoa vem aqui agora e na minha frente ele vai e estupra minha filha. Eu sou pastor? Eu não posso tentar defender a minha filha partindo pra cima dele no tapa e soco? Posso ou não posso? Mas eu sou cristão, mas é a minha filha que está ali. Então, pela defesa de um bem maior, às vezes, algumas atitudes são necessárias.

BBC News Brasil - Gostaria de falar sobre Paraisópolis, em que nove pessoas morreram após uma ação policial em um baile funk. O senhor se solidarizou com as vítimas e depois fez uma série de tuítes criticando o baile funk. O senhor não viu nenhuma ação errada da polícia naquele episódio?

Feliciano - Ué, eu não estava lá. Eu não tive acesso a vídeo nenhum. E eu prefiro sempre ficar do lado dos mocinhos, eu nunca vou ficar do lado dos bandidos. Seja ele de onde for, de onde vier. Eu, pra mim, que se eu não respeitar os meus heróis, se eu não respeitar aqueles que põem a cara na rua pra que eu possa dormir tranquilo, eu vou respeitar quem? Se há excessos que sejam punidos, parece que já estão sendo punidos.

Direito de imagem Rovena Rosa/Agencia Brasil
Image caption Ato pela morte de 9 jovens em Paraisópolis; "Eu nunca vou ficar contra os meus heróis. A polícia, pra mim, tem que ser respeitada", diz Feliciano

Mas isso não justifica você ter um ambiente como, por exemplo, a favela do Paraisópolis, e isso pra mim é um descaso da prefeitura, é um descaso do próprio Estado. Que se crie um espaço pra que o povo, a comunidade possa ter o seu momento de lazer. Agora, não permitir com que aconteça aquilo. Você coloca um número de pessoas acima do normal. Por exemplo, na minha igreja, o Estado interfere. Pra eu abrir uma igreja, pra eu ter um alvará, eu tenho que botar lá o número de acessos, de entrada, saída... Na boate Kiss (em que um incêndio matou 242 pessoas) nós tivemos esse problema, agora nesses lugares ninguém vai atrás disso. É só a polícia (que está sendo cobrada). É a polícia que matou, é a polícia que fez e aconteceu. Eu nunca vou ficar contra os meus heróis. A polícia, pra mim, tem que ser respeitada.

BBC News Brasil - No caso, as pessoas que morreram, as nove eram jovens estudantes ou trabalhadores.

Feliciano - Não foi a polícia que matou eles, né? Eles foram pisoteados. Teve alguma bala, algum tiro sobre eles?

BBC News Brasil - Foi uma ação da polícia que levou a isso.

Feliciano - Algum dos nove morreram com tiro ou não?

BBC News Brasil - Não que eu saiba.

Feliciano - Não. Então, não foi a polícia que os matou, né?

BBC News Brasil - Mas não foi uma ação despreparada da polícia?

Feliciano - Houve um incidente, infelizmente. Não sei se foi despreparada, isso é o que a imprensa vende, o que tá todo mundo dizendo. Ainda está sendo investigado. Quando sair o resultado final, nós podemos conversar sobre isso, enquanto isso, vou defender a polícia sempre.

BBC News Brasil - Teve um vídeo também em Paraisópolis, que ganhou muita repercussão, de um policial batendo nas pessoas que estavam passando, elas estavam saindo de um beco e inclusive uma delas estava de muletas e ele ria e batia. Quando o senhor defende a ação da polícia nesse episódio de forma geral não acaba de certa forma apoiando uma ação violenta da polícia?

Feliciano - Casos pontuais tem que ser tratados. Eu não aceito violência, mas eu também não posso tirar do policial o direito dele defender usando sua arma, usando o que for preciso. Nós vivemos num estado de exceção, o policial vai te defender, ele dá um tiro no bandido e ele perde, automaticamente, ele perde o uso da arma, ele é afastado. Tem um tribunal pra julgar ele, pra ver se ele acertou de costas, se acertou de lado ou se acertou de frente. Eu queria saber onde estão os tribunais pra defender as pessoas que morreram na mão desses bandidos. Eu queria saber, porque, por exemplo, nós temos no Brasil um monte de creches e escolas que estão sem merenda escolar. Mas os presídios não ficam sem merenda, sem a comida, e os presos ainda reclamam da mistura que é dada, do cardápio, eles põem fogo em tudo. Então, nós vivemos num Estado estranho, onde o bandido ele é protegido pela esquerda. Porque aqui nós temos vários deputados que defendem isso. E a polícia, que deveria ser a nossa heroína, apanha todo dia de vocês que são repórteres, todo dia a polícia apanha, tem alguma coisa errada.

BBC News Brasil - Vivemos num Estado Democrático de Direito que prevê processos, defesa. Há um percentual enorme da população carcerária que nunca passou por um processo, elas são presas preventivamente. O senhor não se preocupa que talvez uma parcela dessas pessoas esteja presa injustamente?

Feliciano - Claro que eu me preocupo. Eu me preocupo muito, mas eu não sou juiz. O Judiciário tinha que cuidar disso, mas o nosso Judiciário prefere as luzes da ribalta. A imprensa e a população pautam o STF. Por que não resolve esses problemas? Uma questão do Judiciário.

BBC News Brasil - O senhor estava falando como nós da imprensa, muito continuamente, mostramos os problemas da polícia.

Feliciano - Não todos, né? Os grandes esquerdistas da imprensa brasileira, mundial.

BBC News Brasil - O senhor coloca do problema da criminalidade, que precisa ser enfrentado, mas e o problema da violência policial que é recorrente? A gente vê todas as horas vídeos como esse do policial batendo nas pessoas, ou o caso da menina Ágatha Félix que levou um tiro em uma favela do Rio de Janeiro porque um policial disparou contra dois motociclistas que passavam.

Feliciano - Você sabe qual é o contingente de polícias do Estado de São Paulo ou não? São cem mil policiais. São cem mil, é um exército. Quantos casos pontuais nós temos como esse?

BBC News Brasil - Eu não tenho as estatísticas aqui, mas são altos os índices de mortos por policiais no Brasil.

Feliciano - Chega a uma centena? Procure, procure. Não (falo do Brasil), tô falando do Estado de São Paulo. Tá todo mundo agora querendo fechar a polícia do Estado de São Paulo. São cem mil policiais. Um caso pontual, você não pode punir toda uma corporação por isso, isso é irresponsabilidade. Isso, além de irresponsabilidade é covardia. E por que não dizer crueldade? Polícia é herói e ponto final.

[Nota da redação: Segundo o Monitor da Violência, parceria do G1 com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2.886 pessoas foram mortas por policiais na ativa nos primeiros seis meses deste ano. Desse total, 885 no Rio de Janeiro e 426 em São Paulo].

BBC News Brasil - É comum que o senhor e outras lideranças evangélicas acusem o Supremo de estar legislando. Foi o caso da decisão desse ano de criminalizar a homofobia, por exemplo. Por outro lado, o senhor defendeu que o Supremo permitisse prisão após a condenação em segunda instância. Para muitas pessoas, esse é um problema do Congresso, porque o Código do Processo Penal prevê que a pessoa só pode ser presa após trânsito em julgado, assim como a Constituição. Não é uma incoerência criticar o Supremo por estar legislando, mas em outras vezes cobrar que o Supremo, de certa forma, vá contra o que está na lei, expressamente?

Feliciano - Vocês não vão editar isso aqui não, né?

BBC News Brasil - Não.

Feliciano - Vai do jeitinho que tá, né? Então, que bom falar sobre isso. Veja só, nós estamos aqui diante de uma jornalista que representa a BBC, que é conhecidamente um órgão de esquerda, que sempre apoia muito a esquerda e você jogou um caso aqui de Lula preso, a segunda instância beneficiou ele e...

[Nota da Redação: a BBC é um serviço público financiado majoritariamente por uma taxa cobrada da maioria dos telespectadores britânicos; a busca por imparcialidade e equilíbrio está entre os principais princípios editoriais de sua produção jornalística]

BBC News Brasil - Eu só queria dizer que essa questão não é só sobre o Lula.

Feliciano - Deixa eu terminar. Você fez a pergunta agora deixa eu terminar. E a questão da homofobia sendo de direita. Mais uma vez a grande imprensa protegendo o lado de cá, mas eu vou falar com você sem problema nenhum. Que existe uma interferência do STF no Legislativo, isso é sabido, esse livro aqui, a Constituição Federal é a carta Magna do Brasil, isso aqui é o que dita o meu direito, a minha liberdade, o seu direito, a sua liberdade. Se um artigo desse livro aqui for rasgado, o que acontece? Acabou-se o direito, acabou-se a verdade e a justiça.

O Supremo Tribunal Federal, por exemplo, há alguns anos atrás transformou o casamento homossexual, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em casamento como sendo reconhecido pela Constituição.

BBC News Brasil - Sim.

Feliciano - Mas a Constituição não diz isso. A Constituição Federal ainda diz que casamento no Brasil é a união de homem e mulher, ponto final. Aí o Supremo diz assim, "não, não, a Constituição tá errada". Quem que pode mudar a Constituição?

BBC News Brasil - O Congresso.

Feliciano - O Congresso, pois bem. O Congresso não modificou, há que se respeitar o Congresso porque aqui está a casa do povo. Eu recebi votos pra estar aqui. Nenhum ministro do STF recebeu votos pra estar lá. Então, eu represento o povo, mas quando eu vou falar eu sou um deputado medieval, eu sou alguém atrasado. Eles rasgam a Constituição todos os dias, todas as horas. A questão da homofobia, eu vou te dar uma notícia que talvez você não saiba: o grupo homossexual também não aceitou o que o Supremo fez.

BBC News Brasil - Sim, havia uma polêmica...

Feliciano - Não, havia não. Ainda há. O movimento negro, que é muito apoiado pela esquerda, também não gostou. "Como pode? Não, a questão racial fomos nós que conquistamos." Aí o ministro Celso de Mello transforma a questão da homofobia em racismo. Foi uma briga. Então, tá errado, não são eles que têm que fazer, somos nós aqui. A questão da segunda instância estava aqui pra se votar.

BBC News Brasil - Mas o senhor defendeu que o Supremo autorizasse a prisão após segunda instância.

Feliciano - Nós queríamos que nós votássemos aqui, mas não conseguimos votar aqui. Já que o Supremo trouxe pro colo dele, porque era importante pra ele. Todo mundo sabe o motivo, não vou falar aqui pra não criar uma cisão maior.

BBC News Brasil - O senhor pode falar do Lula. Eu só quis registrar que a questão da prisão em segunda instância não se refere apenas ao Lula, mas a milhares de brasileiros.

Feliciano - Mas naquele momento foi só para o Lula, foi só para ele. Ainda que a gente modifique agora, ainda que o Congresso vote, a lei não pode ser usada, ela não retroage pra poder punir uma pessoa (por isso não vai afetar os processos já em andamento contra o petista). Então, o Lula ficará solto, a não ser que haja condenação nas próximas instâncias.

BBC News Brasil - Só pra fazer um link com o que a gente estava conversando antes sobre violência policial. A nossa Constituição também não prevê a pena de morte. O senhor, por acaso, é adepto da frase "bandido bom é bandido morto"?

Feliciano - Não... Não sou. Pra mim a vida é um dom. Só Deus dá, só Deus tira.

BBC News Brasil - O senhor postou no Twitter recentemente sobre o especial de Natal do Porta dos Fundos que tá no Netflix o seguinte: "Cristãos e não cristãos me cobram atuação contra os irresponsáveis do Porta dos Fundos. Em anos anteriores já os processei, mas a 'Justiça' diz que é liberdade de expressão. Está na hora de uma ação conjunta das igrejas e pessoas de bem para dar um basta nisso. Unidos somos fortes". O que seria essa ação conjunta pra dar um basta nisso?

Feliciano - Essa ação conjunta seria o seguinte. Já que você não consegue com um caso pontual, um processo como o que eu fiz não prosperou, imagine se todas as igrejas do Brasil, todas as congregações, todas as denominações em seus Estados fizerem um processo contra o Porta dos Fundos? Eles vão ter uma pequena dor de cabeça, vão ter que contratar muitos advogados. Essa é a ação conjunta que eu propus.

BBC News Brasil - Há alguma mobilização nesse sentido, concreta?

Feliciano - Não. Eu não queria tocar no assunto deles aí, eu só fiz porque me cobraram demais, porque isso ia dar o que eles queriam, notoriedade. Visibilidade ao programinha deles. São meninos covardes. Uma vez eu desafiei o (Gregório) Duvivier a fazer o mesmo com Maomé. Ele calou, travou. Ele falou que no Parlamento não tem nenhum muçulmano. Como ele sabe que não tem nenhum muçulmano aqui? Ele conhece a religião de todas as pessoas? Mas por que que não fazem com eles? Porque sabem que eles são radicais, como aconteceu infelizmente lá na França, atingiram aquele órgão de imprensa do Charles Hebdo e eu sinto muito por todas as pessoas que lá faleceram. Mexem com a gente, chamam meu Jesus de gay, chamam Deus de corno, não respeitam minha fé. Isso aí não é mais liberdade de expressão, isso é agressão gratuita. Não se faz isso. Por que tem que brincar com a fé de 88% dos brasileiros? Porque sabe que cristão não bate, cristão não xinga, não briga.

[Nota da Redação: Na quinta-feira, um grupo de representações e lideranças evangélicas entrou com uma ação contra a Netflix solicitando a censura do 'Especial de Natal Porta dos Fundos' e uma indenização de R$ 1 milhão por danos morais coletivos]

BBC News Brasil - O senhor já criticou o que chama de politicamente correto. E nessa situação da criminalização da homofobia pelo Supremo, o senhor falou que isso ia contra a liberdade de expressão. Não há uma incoerência em criticar o que eles fazem e ao mesmo tempo defender outros discursos com base na liberdade de expressão?

Feliciano - Na questão deles, há agressividade. E agressividade machuca. Eu te desafio a me mostrar um cristão que tenha cometido a tal da homofobia, se é que alguém consegue mensurar o que é homofobia ou definir pra mim, etimologicamente falando, o que é homofobia. O que é homofobia?

BBC News Brasil - Posso trazer um exemplo pro senhor. O presidente Jair Bolsonaro disse que bateria num filho gay...

Feliciano - Eu nunca vi isso.

[Nota da redação: Em 2011, Jair Bolsonaro disse em entrevista à revista Playboy: "Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo". Em outra ocasião, registrada em vídeo disponível no YouTube, também disse: "O filho começa a ficar meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele".]

BBC News Brasil - O Eduardo Bolsonaro, há poucos dias atrás, comparou um casamento entre pessoas do mesmo sexo com um casamento entre uma pessoa e um cachorro. São dois casos de homofobia de cristãos.

Feliciano - Não, veja só. No caso do Eduardo, eu li, você está forçando demais a interpretação do texto. Quando você força demais a interpretação de texto, você cria um pretexto.

[Após ser questionado sobre sua opinião sobre a comunidade LGBTQ em um canal de TV israelense há duas semanas, Eduardo respondeu: "Eu não ligo. Se você diz que é necessário apenas amor para ser uma família, dirá que eu e meu cachorro, eu amo meu cachorro, somos uma família. Você abre a porta para muita coisa".]

BBC News Brasil - Eu vi a fala dele, me pareceu exatamente isso.

Feliciano - Entre parecer e ser há uma avenida aqui, né? Toda vez que qualquer um de nós falarmos qualquer coisa que fira as minorias de vocês ou que dê a entender que vá ferir a minoria que a esquerda protege, nós vamos apanhar, sempre vai ser assim. Na questão da homofobia, quando eu disse que eles podiam nos atrapalhar, ou acabar com a liberdade de expressão, é porque eu sou cristão. Eu tenho esse livro aqui. Agora vou mostrar outro livro (a Bíblia). Esse aqui é o meu livro. Esse livro aqui ajudou a salvar minha vida, eu era drogado com 13 para 14 anos de idade, eu vim de uma família extremamente pobre, eu cortava cana, eu não tenho nome de pai, minha mãe não sabe ler nem sabe escrever, minha mãe é negra, então por aí vai. Eu tenho todos os predicados que a esquerda gosta de dizer, só que eu não sou o queridinho deles porque eu não penso como eles. Esse livro aqui é minha regra de fé e aqui diz que a homossexualidade é um pecado. E eu sou pastor, eu sou um clérigo, ao meu lado tem o padre. Eu não posso mais falar isso na igreja? Posso ou não posso?

BBC News Brasil - Desde que isso não gere violência e desrespeito a pessoas que têm uma conduta diferente, que acreditam diferente...

Feliciano - Não, mas eu não gero violência nenhuma. Mas se tiver homossexual na igreja ou se eu estiver pregando pela mídia social, o mundo inteiro te ouve... Aí um homossexual diz: "não, isso aí é preconceito".

BBC News Brasil - Deputado, não pode haver também uma atualização?

Feliciano - Atualizar a Bíblia? (risos)

BBC News Brasil - A Igreja Católica estava debatendo recentemente se os padres na Amazônia poderiam se casar, mudar o celibato. Eu digo atualização de interpretação, é um texto muito antigo.

Feliciano - Não, mas essa questão do celibato não é uma questão doutrinária bíblica. Isso é uma questão de foro íntimo e dogmático da Igreja Católica. A Bíblia eu não posso mudar as doutrinas que estão aqui dentro nessa questão da homossexualidade. Então, eu não posso falar na igreja, porque se eu falar e alguém se sentir ofendido eu posso ser preso, por conta do tal do preconceito. Por isso que é incoerente o que o ministro fez. Hoje eles compreendem que fizeram uma besteira.

BBC News Brasil - Deputado, após um ano de governo, o presidente Bolsonaro é bem avaliado por 30% da população, segundo o Datafolha, e entre os mais pobres cai pra 22%. Na sua leitura o que pode explicar essa diferença, porque ele tem um apoio menor entre a parcela mais pobre da população?

Feliciano - Bom, eu vou dizer pra você o que o meu presidente sempre diz. Eu não acredito nessas pesquisas. Porque ninguém na minha cidade foi entrevistado, e lá nós temos os pobres que amam o Bolsonaro. A grande base social do presidente Bolsonaro hoje é o movimento evangélico. O movimento evangélico é 30% da população brasileira. Desses 30% nós temos aí pessoas de classe D e E que são extremamente pobres e amam o presidente e apoiam o presidente.

Eu posso te falar em números o que é que o governo fez neste ano. Neste ano nós abrimos a porta de mais de 750 mil empregos. É muito mais do que nos últimos dez anos aberto. O PIB tem melhorado, as reformas aprovadas. Então, você vai ver o ano que vem, pra desespero da grande esquerda, quando esse país der um boom e ele vai dar um boom de crescimento daqui pra mais um ano, ninguém mais segura o presidente Jair Bolsonaro.

BBC News Brasil - O senhor frequenta muito o presidente Jair Bolsonaro, tem abertura com ele, como o senhor vê o presidente depois desse ano complicado?

Feliciano - O meu presidente é um guerreiro. Ele sofreu e ele sabe que as coisas vão continuar assim porque ele está fazendo de tudo pra mudar o status quo que dominou o governo por esse tempo. Ele conhece o estabilishment todo, ele tem a base social dele. Ele respeita o Exército, pode ver que ele tem feito gestos sempre de estar com o Exército e com os evangélicos e por tabela os católicos porque ele é católico, a esposa dele é evangélica. Então, ele sabe que enquanto ele tiver a base social dele, ele vai firme. Ele sabe que ele tá cumprindo uma missão. E ele crê, de fato, como eu creio, que a missão dele é uma missão divina, é uma missão pra recuperar o nosso país, pra recuperar o moral, pra recuperar os bons costumes, pra recuperar a família.

BBC News Brasil - Mas o senhor acha que o presidente governa pra todos os brasileiros ou essencialmente pra esses grupos de apoio dele?

Feliciano - Ele governa pra todos os brasileiros. Como eu te disse, 88% dos brasileiros são católicos ou evangélicos.

BBC News Brasil - E os outros 12%?

Feliciano - Os outros 12% são conservadores, têm os ateus conservadores, têm os gays que são conservadores, então tem de tudo.

BBC News Brasil - Sim, e tem os que não são.

Feliciano - Tem os que não são.

BBC News Brasil - E tem os que votam no PT, que teve uma votação muito expressiva, apesar de ter sido derrotado.

Feliciano - Sim, sim, teve. Ele governa pra todos. Ele tem o pensamento dele. Ele fala assim "se eu fizer isso, vai ser bom pra todos", e está tocando o barco. Vai dar certo se Deus quiser.

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