'Fui e continuo conservadora': o que pensa Regina Duarte, que aceitou convite de Bolsonaro e assumirá Cultura

Regina Duarte e presidente Jair Bolsonaro Direito de imagem Carolina Nunes/PR
Image caption A atriz Regina Duarte aceitou o convite do presidente Jair Bolsonaro e assumirá pasta da Cultura

Bem antes de aceitar o cargo de secretária de Cultura do governo de Jair Bolsonaro, a atriz Regina Duarte, de 72 anos, já vinha se mostrando uma figura conservadora e politicamente de direita. Pelo menos é o que demonstram declarações suas nos últimos anos, além das muitas postagens em suas redes sociais relativas à política.

No dia 20/01, o presidente afirmou que a atriz passaria por um "período de testes" antes de assumir a cadeira mais alta da política cultural do país. Nesta quarta-feira (29/01), Duarte finalmente disse que aceitou o convite de Bolsonaro.

"Só que agora vão correr os proclamas antes do casamento", afirmou a atriz a jornalistas em Brasília. A frase é uma referência a uma metáfora usada por Bolsonaro, que anteriormente disse que eles haviam "noivado".

Entre as posições tornadas públicas pela atriz, estão a afirmação de que Bolsonaro é "um cara doce". No ano passado, ela também disse que defendia o corte de verbas na pasta da Cultura.

Ainda em 2019, primeiro ano de governo do presidente, a atriz postou várias imagens no Instagram mostrando não só Bolsonaro, mas também o ministro da Justiça e Segurança Pública, o ex-juiz federal Sergio Moro; e da Economia, Paulo Guedes; frases defendendo a Operação Lava Jato e ações do governo na segurança, economia e combate à corrupção; além de convocações para manifestações pró-governo.

Agora, a atriz assume o posto no lugar de Roberto Alvim. O diretor de teatro, que comandava a área havia apenas dois meses, deixou o cargo após divulgar um vídeo com um discurso em que repetia frases de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda na Alemanha nazista.

'Um cara doce'

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Image caption Redes sociais da atriz têm várias publicações favoráveis ao governo, como convocações para manifestações

Dois dias antes do segundo turno que elegeu Bolsonaro, em 2018, Regina Duarte deu uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Na ocasião, a atriz contou que havia se encontrado com o então candidato.

"Quando conheci o Bolsonaro pessoalmente, encontrei um cara doce, um homem dos anos 1950, como meu pai, e que faz brincadeiras homofóbicas, mas é da boca pra fora, um jeito masculino que vem desde Monteiro Lobato, que chamava o brasileiro de preguiçoso e que dizia que lugar de negro é na cozinha", disse.

Na mesma entrevista, ela afirmou que a imagem de Bolsonaro como uma pessoa "truculenta" foi montada por seus opositores.

"São imagens montadas, pois mostram a reação dele, mas não a de quem provocou a reação. É unilateral. Quando souberam que ele ia se candidatar, começaram a editar todas as gravações e também a provocá-lo para que reagisse a seu estilo, que é brincalhão, machão."

'Nunca me declarei feminista'

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Image caption Eleitora e defensora de Bolsonaro nas redes sociais, Regina Duarte é agora parte do governo — à frente do cargo mais importante para a política cultural do país (Foto: outubro de 2018)

Já em maio do ano passado, em entrevista ao programa Conversa com Bial, na TV Globo, a atriz afirmou nunca ter se declarado feminista, mesmo que entre suas interpretações mais famosas esteja a protagonista de Malu Mulher.

A série da TV Globo, de 1980, contava a história de Malu, uma mulher essencialmente feminista e que se posicionava contra os valores morais da época.

"Eu nunca me declarei feminista, mesmo fazendo a Malu. Eu não acho que as coisas são por aí. Acredito que há caminhos intermediários. Eu fui e continuo conservadora", disse.

Em novembro de 2006, Duarte também falou sobre como estava sua vida pessoal quando interpretou Malu. "[Eu] vivia uma situação exatamente igual à da personagem. Tinha acabado de me separar e estava assustada, machucada, com dois filhos para criar e não mais sob tutela do meu pai. Fazer o seriado me fortaleceu, foi terapêutico", afirmou.

Corte de verbas na Cultura

No mesmo programa Conversa com Bial, a atriz também defendeu o corte de verbas na área da cultura, em consonância com o que o governo Bolsonaro já vinha fazendo.

"O momento agora é de sanar o problema, controlar os gastos. Quem não entender está sendo muito egoísta nas suas ambições. Eu acredito e confio no nosso presidente e tenho certeza de que daqui a pouco o Brasil vai se equilibrar, e as coisas vão melhorar", comentou.

Além disso, a atriz contou que tem sido chamada de "fascista" nas redes sociais por seu apoio a Bolsonaro e suas posições políticas conservadoras.

"Em 2002, fui chamada de terrorista e hoje sou chamada de fascista, olha que intolerância", disse. "E eu achando que vivia em uma democracia, onde eu tenho o direito de pensar de acordo com o que eu quero. Eu respeito todo mundo que pensa diferente de mim. Não saio xingando as pessoas por aí", disse.

Impeachment de Dilma Rousseff

Em 2016, quando um processo de impeachment levou à derrubada de Dilma Rousseff (PT) do poder, a atriz se manifestou diversas vezes a favor da saída da petista.

Além de participar de manifestações pró-impeachment em São Paulo, Duarte fez postagens nas redes sociais e deu entrevistas sobre o tema.

Direito de imagem Reprodução/Instagram

"Havia tanta esperança nesse governo, e ele frustrou um país, de uma forma muito agressiva, violenta", disse a artista em uma entrevista ao canal português TVI.

"Acredito ser extremamente importante o país passar por essa dor (impeachment), para cada cidadão aprender a cidadania, aprender que um bom governo não cai do céu".

Em maio daquele ano, ela postou uma imagem da urna com os dizeres: "Lembre-se, petista: foi você quem votou no Michel Temer!"

'Estou com medo'

Na disputa eleitoral de 2002 à Presidência da República, outro posicionamento da atriz causou grande repercussão — contra o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva.

Duarte participou de um programa eleitoral de José Serra (PSDB), ex-ministro da Saúde do governo Fernando Henrique Cardoso e candidato tucano à Presidência.

"Estou com medo [de uma possível vitória de Lula]... Fazia tempo que eu não sentia tanto medo. Sinto que o Brasil, nessa eleição, corre o risco de perder toda a estabilidade que já foi conquistada [...] Não dá para ir tudo para a lata do lixo", afirmou.

No vídeo, Regina Duarte também afirma não conhecer Lula e ter receio "da volta da inflação desenfreada, de 80% ao mês". Lula acabou vencendo a disputa.

Quatro anos depois, logo depois da reeleição do petista em novembro de 2006, a atriz falou à Folha de S.Paulo sobre sua "decepção". "Não sei qual é a palavra. Mas é isso que a nação quer, temos que respeitar."

'Quero um mundo melhor'

Na mesma entrevista à Folha, ela contou como surgiu seu interesse por política.

"Desde quando fiquei grávida do meu primeiro filho, que agora fez 33 anos, comecei a me interessar por política. Se quero um mundo melhor, não adianta ficar romanticamente desejando. Tem que votar direito, conhecer os candidatos e se engajar em algumas causas do interesse geral da nação", disse.

Diretas Já

Quando falava do impeachment de Dilma à TV portuguesa, Duarte destacou que vinha de uma "geração muito participativa", já que tinha vivido uma ditadura, "a luta pelas Diretas Já, a luta do primeiro presidente eleito democraticamente pelo povo".

Em um mundo distante das redes sociais, os acervos de jornais mostram que nos anos 80 a atriz participou de diversos atos pelas Diretas.

A artista também lembrou no programa Conversa com Bial de situações que viveu durante a ditadura militar.

"Eu corri de cavalos, me enfiei debaixo de porta para fugir da cavalaria, eu participei de palanques ao lado de Lula pelas Diretas Já, pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita, Revolução dos Cravos... Tenho uma história de participação que não é de hoje."

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