'Ser um nutricionista gordo não é atestado de incompetência'

Nutricionista Erick Cuzziol Direito de imagem Arquivo pessoal
Image caption Erick Cuzziol passou a adotar o nome "Nutricionista Gordo" após receber diversas críticas em razão de seu peso

Desde pequeno, Erick Cuzziol, de 37 anos, enfrentou uma intensa luta contra a balança. Ao longo da vida, recorreu a diversas dietas restritivas que lhe fizeram mal. Em razão da sua própria história, decidiu cursar nutrição. Na universidade, descobriu sobre o preconceito enfrentado por pessoas gordas que são nutricionistas.

No ano passado, decidiu adotar, nas redes sociais, o nome "Nutricionista gordo". Em conversa com a BBC News Brasil, ele conta sobre a sua vida e os motivos que o levaram a passar a falar abertamente sobre o modo como o seu peso é encarado na profissão.

Abaixo, o relato de Cuzziol sobre a sua história:

"Comecei a engordar aos sete anos. Na adolescência, cheguei aos 114 quilos. Fiz dietas malucas e tomei medicação, que me prejudicaram ainda mais. Quando parava com os remédios e voltava a comer sem restrições, engordava ainda mais, porque tinha compulsão alimentar. Isso me deixava muito triste. Sofri muito bullying na infância e adolescência nas escolas em que estudei, em São Paulo (SP) — onde nasci e moro até hoje.

Fiz dietas que me fizeram muito mal. Muitas vezes, parecia que eu iria desmaiar por ficar muito tempo sem comer. Na vida adulta, desisti das dietas. Decidi cursar nutrição, até mesmo para ter respostas sobre essa minha eterna luta contra o meu peso. O que eu não imaginava, na época, era que muitas pessoas que faziam nutrição vendiam a própria imagem como se fosse qualidade do trabalho deles. Por isso, muitos acreditam que é necessário que o profissional seja magro. É um padrão social, que muitos creem ser fundamental para a profissão.

Certa vez, um aluno do curso pediu para a professora comentar sobre o quanto era um absurdo que um nutricionista fosse gordo. Mas ela deixou muito claro que o peso não é algo que interfere em nossa capacidade e ainda disse que uma das melhores nutricionistas que conhece é gorda e produz estudos indispensáveis para a nutrição.

Fiz o meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre transtornos alimentares, pois sempre considerei um assunto muito importante e pouco debatido na época, em 2008. Era um tema muito mais voltado para a psicologia do que para a nutrição, mas sempre acreditei que deveria incluir as duas áreas. Não é possível trabalhar a alimentação unicamente, muitas vezes é necessário um trabalho interdisciplinar. Foi justamente enquanto estudava sobre os transtornos que descobri a minha compulsão alimentar.

Quando me formei e fui procurar emprego, descobri outra realidade: a desvalorização e desrespeito ao nutricionista, tanto em questões trabalhistas como em oportunidade e mercado de trabalho. Eu ainda tinha outro problema: o meu peso. Na época, eu estava com 140 quilos.

Preconceito contra profissionais gordos

Diferentes pesquisas apontam que profissionais de saúde que estão acima do peso podem ter menos credibilidade para alguns pacientes. O assunto é debatido há anos. Um estudo de 2013, intitulado O efeito do peso corporal dos médicos nas atitudes dos pacientes: implicações para a seleção do médico, confiança e adesão ao aconselhamento médico, do International Journal of Obesity, do periódico Nature, abordou a temática. A pesquisa concluiu que prestadores de serviço com sobrepeso ou obesos podem ser alvos de maiores desconfianças e os pacientes atendidos por eles podem se sentir menos inclinados a seguir os conselhos desses profissionais.

Para Cuzziol, os nutricionistas gordos estão entre os profissionais que enfrentam mais dificuldades para conquistar a confiança dos pacientes.

Em nota à BBC News Brasil, o Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) afirma que a discussão referente ao peso de nutricionistas não faz parte das orientações da entidade e o assunto não é debatido pelos membros da instituição. "Não existe posicionamento sobre isso", informa o conselho, que disse não ter um representante para conversar com a reportagem sobre o assunto.

"A missão institucional do conselho é contribuir para a garantia do direito humano à alimentação adequada, fiscalizando, normatizando e disciplinando o exercício profissional do nutricionista e do técnico em Nutrição e Dietética (TND) para uma prática pautada na ética e comprometida com a segurança alimentar e nutricional, em benefício da sociedade", diz trecho de nota encaminhada pelo CFN à reportagem.

Após a publicação da reportagem, o CFN enviou à BBC News Brasil uma nova nota sobre o assunto. No texto, a nutricionista Elisabeth Chiari, conselheira-diretora da entidade, afirma que o conselho repudia qualquer tipo de discriminação contra profissionais ou pacientes. "Entendemos que o ser humano não pode ser classificado por sua aparência ou composição corporal", diz.

Depressão profunda e bariátrica

Depois de formado, tive dificuldades para encontrar emprego. Entrei em depressão profunda. A minha família ficou muito preocupada com a minha situação. Engordei cada vez mais e cheguei aos 192 quilos. Cheguei a tentar o suicídio. Decidi fazer a bariátrica.

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Image caption Cuzziol começou a engordar aos sete anos e passou a sofrer bullying na escola

Sou favorável a essa cirurgia, mas acredito que ela precisa ser feita com mais cautela, em casos de emergência, quando realmente não existem alternativas. Até porque é um procedimento com o qual a pessoa vai ter de lidar com uma série de situações, ao longo da vida, que não possuía anteriormente. No meu caso, passei a ter problemas para absorver o cálcio. Por isso, até hoje tomo suplementos específicos.

Emagreci 70 quilos depois da bariátrica, que fiz em 2010. As pessoas enxergam a cirurgia como uma solução para todos os problemas, o que não é verdade. Depois do procedimento, mantive uma boa alimentação e suplementação adequada, mas não me tornei uma pessoa magra, principalmente porque estava desempregado e sem condições para fazer acompanhamento com um profissional para me orientar nas atividades físicas. Hoje, se analisarmos pelo Índice de Massa Corporal (IMC), sou uma pessoa obesa.

Levo um estilo de vida onde tenho como me movimentar e cuido da minha alimentação. Mas existe uma questão de metabolismo, que me prejudica e me impede de emagrecer. Não posso reduzir ainda mais a minha alimentação, principalmente depois da bariátrica, porque posso passar por adoecimento por desnutrição. O meu peso é preocupante? Sim. Mas posso fazer duas coisas: conviver com isso e manter a qualidade de vida que tenho ou desregular essa qualidade buscando reduzir cada vez mais o peso. É importante dizer que não tenho colesterol, não tenho diabetes, não tenho nada.

Uma das coisas que mais me incomodam é que a obesidade ainda é pregada como forma de comportamento. Parece que as pessoas são gordas porque não têm vergonha na cara, não se esforçam e não se dedicam a emagrecer. Mas para uma pessoa gorda emagrecer, é preciso gastar. A sociedade brasileira ainda não entendeu, mas o mercado do emagrecimento é muito caro.

A obesidade é uma doença, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Mas defini-la como doença dá uma margem muito grande para quem quer se aproveitar disso para tentar vender algo. O obeso é uma pessoa que está em uma condição que precisa de cuidado grande com alimentação e outros fatores, mas não recebe o mesmo apoio, por exemplo, que uma pessoa com diabetes.

Se partirmos do ponto de que a obesidade é uma doença, então qualquer pessoa obesa deveria ter acesso a tratamento gratuito, com uma equipe interdisciplinar, senão corre o risco de cair em inúmeros tratamentos enganosos.

Mas se a obesidade é uma doença, por que ela ainda é tão desrespeitada na sociedade? Talvez, o melhor seja considerarmos a obesidade como uma condição, em vez de tratá-la como doença, até mesmo porque não há tratamento adequado na saúde pública.

Um problema é que, muitas vezes, os médicos associam qualquer problema de saúde de uma pessoa obesa ao peso dela. É preciso investigar a origem daquele problema. Se estiver relacionado à obesidade, é fundamental fazer o tratamento necessário e o profissional de saúde precisa entender que o sobrepeso não é algo que depende só daquela pessoa.

A carreira na nutrição

Depois da bariátrica, continuei a busca por um emprego. Em algumas vagas, as pessoas me olhavam estranhamente. Chegaram a me questionar: como você vai convencer as pessoas sendo nutricionista e gordo? Isso me deixava arrasado. Os empregos que consegui foram aqueles que ninguém queria, como em um presídio e em uma rede de hipermercados que passava por uma onda de demissões para conter gastos.

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Image caption Cuzziol afirma que já percebeu que pacientes ficaram incomodados em razão do peso dele. Porém, segundo ele, há aqueles que o procuram justamente por ser um profissional gordo

Entre os conhecidos, minha profissão foi, muitas vezes, motivo de gargalhadas: quando eu contava que era nutricionista, algumas pessoas riam, como se fosse uma piada, por eu ser gordo.

Quando a gente pesquisa sobre a obesidade, descobre que há diversos fatores para isso, que nunca param de crescer. As pessoas podem continuar obesas, em muitos casos, mesmo quando mudam a alimentação. A gente tem como manter o controle do peso, mas infelizmente não há 100% de solução para resolver o sobrepeso ou obesidade.

Entre os fatores para a obesidade há itens como o metabolismo, genética ou outras questões relacionadas a hábitos de vida dessa pessoa. O crescimento do número de pessoas obesas é uma resposta ao estilo de vida atual. As pessoas têm buscado alimentos prontos, por conta da correria do dia a dia. Isso não é o correto. Mas as pessoas precisam entender que a melhor saída para a obesidade é muito mais do que dizer que basta apenas a pessoa 'tomar vergonha na cara para emagrecer'.

A obesidade no Brasil

De acordo com a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2018, divulgada pelo Ministério da Saúde em julho passado, os números de obesos no Brasil cresceram 67,8% nos últimos treze anos — saltou de 11,8% em 2006 para 19,8% em 2018, dado mais recente.

Os dados da pesquisa apontam crescimento em um número que estava estabilizado nos últimos anos. Desde 2015, a prevalência da obesidade na população brasileira havia se mantido em 18,9%.

O levantamento apontou que o crescimento da obesidade foi maior entre os adultos de 25 a 34 anos — 84,2% — e de 35 a 44 anos — 81,1%.

Nutricionista gordo

Eu encaro que uma dieta saudável é uma que possua alimentos simples, como arroz, feijão, pão e verduras, sem que a pessoa deixe de comer corretamente. Hoje em dia, a cada hora surge um modismo diferente de dietas. As pessoas cada vez menos procuram aquilo que é natural. Em meu consultório, muitos pacientes relatam que buscam comidas em aplicativos de alimentação no almoço ou no jantar.

No fim de 2017, comecei a atender em clínicas, pois antes não atuava em consultórios. Decidi fazer isso quando começou a vir à tona a discussão sobre gordofobia, porque me senti mais confiante para trabalhar diretamente com os pacientes.

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Image caption Nutricionista afirma que seu peso não pode ser considerado "atestado de incompetência"

Acho a discussão sobre a gordofobia muito importante. Mas o movimento que discute o tema tem alguns pontos que não acho tão saudáveis. Alguns debates costumam ser agressivos e cheios de 'verdades'. Para um assunto que está começando a ser discutido, não é possível ser cheio de 'verdades'. É preciso haver descobertas e todo mundo se ajudando.

Sou a favor do emagrecimento, desde que aconteça de maneira saudável. Mas o fato de emagrecer tem que ser secundário a outros fatores. A pessoa precisa começar a aprender a escolher os alimentos. O foco é prezar por uma melhor alimentação, que não seja uma dieta restritiva ou que proíba alimentos simples como pães. O emagrecimento pode ser consequência.

Quando um paciente me procura pedindo para emagrecer, eu não prometo isso. Prometo melhora nutricional, que pode culminar em um emagrecimento. Mas se a pessoa focar no peso, teremos problemas, porque ela pode não focar na importância do alimento.

Já perdi pacientes por causa do meu peso. O problema é que eles nunca deixam claro que estão desconfortáveis por serem atendidos por um nutricionista gordo. Se disserem, ok, eu devolvo o dinheiro da consulta sem problema algum (Cuzziol atende em uma clínica particular em São Caetano do Sul, em São Paulo).

Há pouco mais de um ano, depois dos inúmeros comentários sobre o meu peso, decidi usar isso na minha profissão. Nas redes sociais, me tornei o 'Nutricionista gordo'. Estava cansado de explicar que ser nutricionista e ser gordo não é um crime. Muitos ironizam esse fato e acham que é um atestado de incompetência.

Quando mudei meu nome nas redes, muitos pacientes passaram a me procurar justamente por causa do modo como me defino, por se sentirem mais à vontade. Me impressiona que isso atinge bastante gente, até mesmo alunos de nutrição e medicina, principalmente aqueles que também são gordos. Uma médica gorda me procurou e me contou que sofre gordofobia no serviço. Ela me perguntou como eu lido com isso, porque é algo que a incomoda muito.

Pode ser muito difícil para algumas pessoas mudarem seus conceitos sobre o fato de um nutricionista ser gordo. Mas é importante entender que isso não é um atestado de incompetência. O importante é compreendermos que uma alimentação saudável não se resume à busca pelo emagrecimento. Além disso, acho fundamental que as pessoas entendam que a obesidade precisa ser vista com mais respeito."

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