O que Bolsonaro e Moro ganham ou perdem com um eventual 'divórcio'

Bolsonaro e Moro Direito de imagem Adriano Machado/Reuters
Image caption Para cientistas políticos, aliança entre presidente e ministro ainda é favorável para ambos, apesar das tensões

A turbulenta relação entre o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro mais popular, Sergio Moro, que comanda a pasta da Justiça e Segurança Pública, teve um novo momento de desgaste essa semana com a sinalização de que o ministério poderia se desmembrado.

Após a reação negativa em sua própria base eleitoral à ideia, que reduziria os poderes de Moro, o presidente recuou, mas sem rechaçar completamente a possibilidade de criar um ministério exclusivo para a Segurança Pública no futuro.

"A chance (de tirar a Segurança Pública do ministério de Moro) no momento é zero. Tá bom ou não? Tá bom, né? Não sei amanhã. Na política, tudo muda, mas não há essa intenção de dividir (o Ministério da Justiça). Não há essa intenção", disse a jornalistas nesta sexta-feira (24/01), ao chegar a Nova Déli, para um vista à Índia.

Para analistas políticos, o presidente se equilibra entre duas opções que podem lhe trazer ganhos e prejuízos: manter Moro como um ministro com muito poder e visibilidade, correndo o risco de ser desbancado por ele como candidato preferido dos apoiadores do governo na eleição presidencial de 2022; ou desidratar Moro e assumir o risco de uma demissão do ministro, atraindo contra seu governo a ira dos eleitores "lavajatistas", fiés seguidores do ex-juiz da Lava Jato.

"O que estamos vendo é uma TPE, tensão pré-eleitoral", brinca o cientista político Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Moro constantemente nega ter pretensão de disputar a eleição presidencial e, em entrevista ao programa Roda Vida na segunda-feira, chegou a dizer que apoiar a reeleição de Bolsonaro é o "caminho natural" para os ministros do governo. Hoje, porém, é grande a desconfiança no mundo político de que a hipótese esteja descartada.

"Quando Moro aceitou abandonar a magistratura para entrar no Ministério da Justiça, ele obviamente abraçou a política. Com a popularidade que ele tem, é praticamente impossível para um ser humano não ser mordido pela ambição da mosca presidencial", afirma Lavareda.

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Image caption Apesar da popularidade, Moro constantemente nega ter pretensão de disputar a eleição presidencial

Segundo o professor da UFPE, a eleição de 2018 foi, no linguajar da ciência política, uma "eleição crítica", ou seja, um pleito que desarrumou todo o quadro partidário, gerando grande expectativa em relação à eleição seguinte.

Ele nota que a desarticulação atingiu em especial a centro-direita brasileira, enquanto o PT conseguiu "a duras penas" se manter como principal força da esquerda. Por isso, diz, é no campo eleitoral do presidente em que se abre com mais antecedência a disputa em torno das candidaturas eleitorais.

Nesse cenário disputado, em que também despontam como possíveis candidatos da direita ao Palácio do Planalto os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), o vice-presidente, Hamilton Mourão (PRTB), e o presidente do Novo, João Amoedo, o professor da UFPE considera que Moro e Bolsonaro têm mais a perder do que a ganhar se decidirem se separar.

Para Lavareda, Moro teria que apresentar "justificadas razões" para deixar o governo após ter abandonado a posição de juiz da Lava Jato para ser ministro. Isso, nota ele, necessariamente o colocaria na oposição ao governo, ainda que no campo da direita.

"Moro se beneficiaria na condição de opositor do governo Bolsonaro? Eu suspeito que não, pois no campo da oposição já há outros atores muito melhor instalados do que ele. E o Bolsonaro se beneficia provocando uma saída do Moro? Longe disso, porque o Moro é um ativo, é um asset da imagem do seu governo", analisa.

"Como acredito na racionalidade de ambos, eu creio que vão continuar essa relação às vezes idílica, às vezes conflituosa. Para usar a metáfora que o presidente gosta, é um tipo de namoro de tapas e beijos", acrescenta.

Moro quase foi demitido em agosto, segundo livro

Um dos momentos em que os "tapas" esquentaram ocorreu em agosto, quando Bolsonaro quase demitiu Moro, segundo relato da jornalista Thaís Oyama em seu livro recém-lançado: Tormenta - O Governo Bolsonaro: Crises, Intrigas e Segredos.

Naquele momento, Bolsonaro teria ficado extremamente irritado com um pedido de Moro ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, para rever sua decisão de suspender centenas de investigações e processos no país iniciados a partir do compartilhamento de informações da Receita Federal e do antigo Coaf (hoje renomeado para Unidade de Inteligência Financeira).

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Image caption STF decidiu em novembro sobre o Coaf, o que permitiu a reabertura da investigação sobre Queiroz

A movimentação desagradou Bolsonaro porque a decisão de Toffoli havia atendido a um recurso de um dos seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), paralisando a investigação contra ele por suposto esquema de "rachadinha" (desvio de recursos por meio da retenção de parte dos salários de servidores) no seu antigo gabinete de deputado estadual do Rio de Janeiro.

Naquele momento, também causou desgaste na relação a ameaça de Bolsonaro de intervir na Polícia Federal e trocar o diretor-geral, Maurício Valeixo, escolhido por Moro. Segundo Thaís Oyama, o presidente recuou e decidiu recompor com o ex-juiz depois de ouvir o alerta do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional: "Se demitir o Moro, o seu governo acaba".

Após a publicação do livro, o presidente rebateu as informações e as classificou como "fake news".

Outra fonte de desgaste entre os dois tem sido o desentendimento em torno de matérias aprovadas pelo Congresso, como a criação do juiz de garantias, que Bolsonaro não quis vetar, apesar da campanha de Moro nesse sentido.

'Moro deve continuar engolindo sapos'

O cientista político José Álvaro Moisés, professor da Universidade de São Paulo, diz ter dúvidas sobre se foi positivo para a imagem de Moro ingressar no governo Bolsonaro. Na sua avaliação, ao aceitar o ministério, "pareceu que muitas coisas que ele fez (quando era juiz da Lava Jato e condenou importantes políticos tradicionais, entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) estavam ligadas à possibilidade de favorecer esse governo".

No entanto, agora que já é ministro, Moisés acredita que Moro alimenta, sim, pretensões de concorrer à Presidência e não vai querer abrir mão de uma posição que lhe dá prestígio e visibilidade.

"Tendo aceitado o cargo de ministro da Justiça, enquanto não houver uma ruptura muito radical (como o desmembramento do ministério), ele vai tender a continuar engolindo sapos, porque o cargo é muito prestigioso. Não há a menor dúvida em relação a isso", afirma.

"Tirar a área de segurança e a Polícia Federal do Ministério da Justiça seria muito mais grave do que outros momentos de discordância entre os dois. Compromete qualquer projeto que o ministro tenha de efetivamente combater a corrupção e a criminalidade", ressalta.

O profesor da USP acredita que Bolsonaro recuou, ao menos por enquanto, da ideia de dividir a pasta, para tentar manter o apoio dos "lavajatistas" a seu governo.

No entanto, o professor acredita que o prestígio do presidente com o grupo já está desgastado, diante do escândalo envolvendo seu filho Flávio e das noticiadas tentativas de interferir na Polícia Federal.

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Image caption Um rompimento de Moro com Bolsonaro poderia fechar as portas para uma eventual indicação do ex-juiz ao Supremo

Indicação ao STF pode unir interesses

Lavareda considera que Moro pode acabar parecendo "desleal" para a sociedade caso decida concorrer à Presidência contra Bolsonaro. Além do risco de parecer um "traíra" mais à frente, o prejuízo que ex-juiz pode ter se romper agora com o presidente é fechar as portas para uma indicação a ministro do Supremo Tribunal Federal.

Bolsonaro poderá apontar um ministro em novembro, quando o decano da Corte, Celso de Mello, completa 75 anos e será obrigado a se aposentar. O presidente sinalizou que indicará um jurista "terrivelmente evangélico" para a vaga, o que não é o caso de Moro.

No entanto, uma segunda vaga será aberta em julho de 2021, quando o ministro Marco Aurélio também se aposenta.

Se Moro aceitar uma indicação ao Supremo e seu nome for aprovado pelo Senado, ele abriria mão de uma candidatura presidencial em 2022 — não faria sentido entrar na Corte para renunciar meses depois e disputar a eleição.

"No horizonte de Moro, há várias possibilidades e uma delas é a de uma vaga no STF, mas isso vai depender das condições no momento em que a vaga abrir e precisa ser negociado com o Senado", nota Lavareda.

"Isso é um movimento disponível para o presidente Bolsonaro e para Sergio Moro. Num determinado momento, mais adiante, pode até ser um movimento de confluência de interesse dos dois", ressalta o professor da UFPE.

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