Após anunciar isenção de vistos para chineses, governo agora diz que caso está 'em estudo'

O presidente Jair Bolsonaro em viagem à Ìndia Direito de imagem Reuters
Image caption Agora governo diz que não há prazo para isenção de vistos para chineses

O governo Bolsonaro recuou do anúncio de isenção de vistos para chineses, feito pelo presidente Jair Bolsonaro em visita oficial a Pequim, em outubro, e disse neste sábado que a proposta está sendo estudada pelo Itamaraty.

A afirmação foi feita pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, que representou o pai em conversa com jornalistas após um banquete oferecido pelo governo da Índia à comitiva do presidente Jair Bolsonaro, em Nova Déli. O deputado participou dos restritos encontros bilaterais de Bolsonaro com o primeiro ministro Narendra Modi e o o presidente indiano Ram Nath Kovind.

"Os dois (isenção de vistos para chineses e indianos) estão meio que sendo trabalhados ao mesmo tempo", disse o deputado, após ser perguntado sobre a situação do plano de isentar indianos da necessidade de vistos. A decisão em relação aos chineses era dada como certa em entrevistas do presidente, do ministro de relações exteriores, Ernesto Araujo, e nos veículos da imprensa oficial.

Agora, Eduardo Bolsonaro disse que "os dois estão em estudo" e que "não há um prazo" para o anúncio.

"Na minha visão como deputado, nós é que vamos nos aproveitar dessa situação, eles é que vão gastar os dólares lá. A gente só precisa tomar cuidado com os efeitos reflexos disso", afirmou, dizendo que indianos "dificilmente vão entrar no Brasil como turistas e depois ficar no país".

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Image caption Dúvidas sobre vistos aos chineses foram colocadas durante viagem de Bolsonaro à Índia, onde se encontrou com o primeiro-ministro Narenda Modi

A reportagem perguntou que preocupações estão na mesa.

"Deixa eu pensar, calma aí. Eu não posso dar bola fora, não", respondeu o deputado. "A Polícia Federal com certeza entra nesse meio, mas acredito que os dois países convergem no combate ao terrorismo, são bem contundentes nas declarações e têm votado de forma semelhante, inclusive na ONU."

Preocupações

Em dezembro, a BBC News Brasil revelou que telegramas diplomáticos mostravam que o Itamaraty priorizava a mudança no regime de vistos para passaportes emitidos pelo governo de Taiwan — e que não havia qualquer iniciativa para estender o benefício a chineses ou indianos.

O governo de Taiwan não é reconhecido oficialmente pela República Popular China (RPC), como é chamada a China continental. Por isso, qualquer gesto diplomático na direção do governo da ilha é visto com desconfiança pelas autoridades chinesas.

Bolsonaro havia anunciado que concederia a isenção para cidadãos da China na volta de jantar com CEOs em Pequim. Sobre os indianos, o presidente foi menos enfático e disse que o "governo deve adotar o mesmo processo".

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Image caption Em encontro com Xi Jinping, Bolsonaro havia se comprometido com o princípio de 'uma só China', defendido pelo governo chinês

Entre as preocupações levantadas por membros do governo está o fato de as taxas de migração irregular serem mais altas em países em desenvolvimento como China e Índia, do que em nações como Japão, Canadá e Austrália que, junto aos EUA, receberam o benefício concedido pelo Brasil sem exigência de reciprocidade.

Na prática, quando o governo diz que vai "isentar uma nação de vistos", ele está considerando que os países passariam a ter direito ao visto eletrônico brasileiro.

Ao contrário do visto normal, exigido hoje, o visto eletrônico dispensa a necessidade de passar por uma entrevista presencial em um consulado. Também costuma ser emitido com mais rapidez e com custo menor que o documento físico.

Bolsonaro 'elogiou a liberdade religiosa na Índia'

O deputado também afirmou que o presidente Bolsonaro "elogiou a liberdade religiosa presente aqui na Índia" e "falou que se sentiu confortável em estar em um país que não é cristão, mas foi muito bem acolhido" durante sua reunião bilateral com o primeiro ministro indiano.

O comentário surge em um momento em que a liberdade religiosa na Índia é alvo de preocupação em todo o mundo. Modi é assunto de capa da revista The Economist, que associa o nacionalismo hindu do primeiro ministro a uma série de abusos e políticas consideradas discriminatórias contra os quase 200 milhões de muçulmanos no país.

"A gente sabe da questão dos muçulmanos", continuou Eduardo. "Mas o que estamos experimentamos aqui, estamos nos sentindo totalmente confortáveis."

Questionado sobre a reação de Modi, Eduardo Bolsonaro disse que o primeiro-ministro ficou "muito feliz" e que os dois líderes "estão se entrosando muito bem".

"Os dois são notoriamente nacionalistas, defendem seus países, são avessos a alguns fóruns internacionais e acredito que há muita química nessa relação".

O deputado voltou a falar no apoio mútuo entre Índia e Brasil para uma reforma no conselho de segurança da ONU.

"Ainda que seja por uma cadeira de membro não permanente, é um avanço", disse.

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