Quem é o ex-missionário evangélico nomeado para a chefia do órgão de proteção a índios isolados da Funai

Missionária Direito de imagem Divulgação - New Tribes Mission
Image caption Missionária com o rosto pintado simula ser uma indígena do povo Yanomami em treinamento promovido pela organização New Tribes Mission na Pensilvânia, nos EUA

Um teólogo e antropólogo que trabalhou como missionário evangélico na Amazônia por uma década foi nomeado chefe do órgão da Funai (Fundação Nacional do Índio) responsável pela proteção a indígenas isolados.

Ricardo Lopes Dias atuou entre 1997 e 2007 na Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), organização com origem nos EUA que promove a evangelização de indígenas brasileiros desde os anos 1950.

A organização, que elogiou a indicação de Dias ao cargo, tem um histórico controverso e já foi associada a epidemias que dizimaram o povo zo'é, contatado por missionários do grupo em 1982.

A indicação de Dias ao cargo provocou forte críticas de organizações indígenas, servidores da Funai, acadêmicos e da Defensoria Pública da União, que disseram temer a exposição das comunidades à evangelização.

A nomeação foi oficializada por uma portaria publicada na última segunda-feira (3/2) pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, órgão ao qual a Funai está subordinada.

Antropólogo e missionário

Em conversa por telefone antes da nomeação, Dias disse ter sido indicado ao cargo por sua experiência como antropólogo, e não pelo histórico como missionário.

"Nunca escondi e não escondo meu trabalho no passado como missionário, mas hoje sou antropólogo, com graduação, mestrado e doutorado em universidades públicas de três Estados", afirmou.

Ele disse que não tem mais vínculos com a Missão Novas Tribos do Brasil.

Segundo seu currículo na Plataforma Lattes, Dias é doutor em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), mestre em Ciências Sociais (Antropologia) pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e bacharel em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Ele também é bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA) e fez pós-graduação em Antropologia Intercultural pela UniEvangélica, em Anápolis (GO), grande polo de entidades missionárias no Brasil.

Questionado sobre o que pretendia fazer se assumisse o cargo, Dias afirmou que preferia não dar detalhes para não atrapalhar os trâmites da nomeação. Ele não disse quem o indicou para o posto.

Para Dias, "a Funai vem sendo muito atacada" e "há uma forte resistência a evangélicos" entre os servidores do órgão.

'Ele é perfeito'

Presidente da Missão Novas Tribos do Brasil, Edward Gomes Luz elogiou a indicação de Dias ao órgão da Funai responsável por indígenas isolados.

"É uma pessoa muito capaz e tecnicamente preparada para qualquer cargo. Se for olhar a capacitação e a pessoa em si, ele é perfeito", ele diz à BBC News Brasil.

Luz diz que Dias deixou a organização missionária por "problemas familiares" e que, desde então, passou a ter "contatos esporádicos" com ele.

"Depois que saiu, ele se especializou muito", afirma, elogiando a trajetória acadêmica do ex-colega.

Image caption Folheto com conteúdo religioso na língua Xavante distribuído por missionários Testemunhas de Jeová em aldeias desse grupo indígena, no Mato Grosso

Missionário x antropólogo

Em sua dissertação de mestrado, apresentada em 2015, Dias agradece à "Missão Novas Tribos do Brasil por ter sido tão importante na minha formação e por ter viabilizado o meu tempo no campo".

No trabalho, ele diz que o objetivo da MNTB "é a plantação de uma igreja nativa autóctone em cada etnia e para isso dispõe de treinamento bíblico, linguístico e transcultural próprio, além de uma consultoria técnica para assessoria estratégica e de acompanhamento espiritual por meio de visitas regulares da liderança aos missionários nos campos".

A dissertação tem como tema a relação entre missionárias americanas do Summer Institute of Lingustics (SIL) e o povo indígena matsés, do Vale do Javari (AM), região conhecida por ter a maior concentração de povos isolados no mundo.

No texto, Dias descreve como indígenas matsés que lidavam com a missionária Harriet Fields passaram a acreditar que ela tivesse poderes sobrenaturais. Dias afirma que antropólogos e missionários têm interpretações distintas do episódio, o que, segundo ele, expõe uma "certa tensão" entre os dois grupos.

Ele lista então episódios em que antropólogos se chocaram com missionários e diz que essa tensão também "comigo ocorre internamente todos os dias, mas pode ser mais fácil de contornar: afinal conheço o missionário em mim de modo íntimo".

Em 2007, o periódico Informissões, da Igreja Batista Fundamentalista, citou o trabalho missionário de Dias — apresentado pela publicação como "pastor" — entre indígenas do povo Mayoruna em Palmeiras do Javari (AM).

Segundo o texto, estudava-se a possibilidade de que Dias e sua família fossem transferidos para o município de Atalaia do Norte (AM) "para alcançar os índios matís e korubos que vivem nas proximidades".

Proteção a povos isolados

A Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai tem como principal atribuição proteger esses povos.

Segundo a Funai, há 107 registros da presença de povos em isolamento voluntário na Amazônia brasileira, o que torna o Brasil o país com mais povos nessa condição no mundo.

Os povos de recente contato, por sua vez, habitam 19 terras indígenas do país — é o caso dos zo'é, awá guajá, suruwahá e yanomami, entre outros.

Desde 1987, a Funai mudou sua política para povos isolados e determinou que iniciativas de contato com os grupos deveriam partir deles próprios, cabendo ao Estado proteger e demarcar suas terras.

Agora, indígenas e servidores da Funai dizem que o governo sinaliza a intenção de reverter essa política e voltar a contatar deliberadamente os grupos — postura que provocou o extermínio de dezenas de etnias ao longo da história brasileira.

Direito de imagem Funai
Image caption Grupo korubo contatado em 2014 reencontra membros da mesma etnia que deixaram o isolamento em 1996

Consequências do trabalho missionário

Para Beto Morubo, liderança da Unijava (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), a indicação de Dias é "nefasta".

"A mensagem é que o que menos importa é proteger o índio, mas sim beneficiar setores retrógrados do agronegócio e também da parte evangélica", ele diz à BBC News Brasil.

"Isso era o grande sonho dos evangélicos: levar a palavra de Deus para índios que preferiram se manter isolados", diz Morubo.

Ele afirma que nunca encontrou Dias pessoalmente, mas que ele é conhecido no Vale do Javari por ter feito trabalho missionário em um pelotão do Exército em Palmeiras do Javari. O pelotão, segundo Marubo, é frequentado por indígenas do povo mayoruna que deixaram as aldeias do grupo e hoje são evangélicos.

Segundo Marubo, missionários levaram doenças e desorganizaram vários grupos com que tiveram contato — caso de sua própria etnia.

"Entre nós, marubos, eles destruíram nossa organização social, nossa convivência. Surgiram divergências, além de desconstruírem o mundo em que fomos educados por milênios", diz.

"A atuação missionária significará a perda total dos últimos povos isolados que temos no Vale do Javari."

Política modelo

Para Antenor Vaz, ex-servidor da Funai que já chefiou a Frente de Proteção Etnoambiental da Funai no Vale do Javari e é um dos maiores especialistas em políticas para povos isolados no mundo, a nomeação de Dias põe em xeque uma política que se tornou referência internacional.

Ele afirma que o Brasil foi o primeiro país do mundo a "respeitar a determinação desses povos em permanecer isolados e não estimular nenhuma ação que leve ao contato" — postura que acabou adotada por outros países latino-americanos.

Vaz diz que, ainda que Dias tenha estudado Antropologia, "um missionário nunca deixa de ser missionário".

"Eles têm a estratégia de chegar aos indígenas oferecendo ações sociais em educação e saúde. Por trás disso, vem a proposta evangelizadora."

Segundo Vaz, quando se instalam entre indígenas, missionários "dividem comunidades e iniciam um processo de cooptação".

"Eles passam a negar todos os valores contrários aos do cristianismo, e isso estabelece um racha cultural interno."

A atuação da Missão Novas Tribos do Brasil junto ao povo zo'é, do Pará, foi determinante para que a Funai mudasse sua política em relação a indígenas isolados.

No livro Memórias Sertanistas: Cem Anos de Indigenismo no Brasil, do jornalista Felipe Milanez, o ex-servidor da Funai Fiorello Parise relata que missionários do grupo contataram os zo'é à revelia da Funai, provocando surtos de gripe e malária que causaram muitas mortes entre os indígenas.

Em 1991, os missionários da MNTB foram expulsos do território. A MNTB diz que as doenças chegaram ao território por outros meios e que sua atuação ajudou a salvar vidas.

Direito de imagem DIOCESE DE SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA
Image caption Padres salesianos no Alto Rio Negro, em 1914; ação dos religiosos difundiu o catolicismo entre povos indígenas da região

A indicação de Dias foi criticada pela principal organização indígena brasileira, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). "Ao invés de buscar dentro da própria fundação quadros técnicos competentes, com experiência de trabalho com povos isolados, capacidade técnica e alinhamento com os preceitos constitucionais de respeito à autonomia dos povos indígenas, a Funai cede aos interesses evangélicos e proselitistas, minando uma política laica de respeito aos povos indígenas, que afronta o que determina a Constituição de 1988", disse o órgão em nota divulgada antes da nomeação.

Em ofício enviado à presidência da Funai na semana passada, a Defensoria Pública da União protestou contra uma mudança nas normas da fundação que abriu o caminho para a nomeação de alguém sem experiência para a chefia do departamento de indígenas isoladas.

"O risco de uma nomeação que não atenda a critérios técnicos é a morte em massa de indígenas, decorrente de doenças a partir do contato irresponsável ou dos conflitos flagrantes com missões religiosas, madeireiros, garimpeiros, caçadores e pescadores ilegais."

Evangélicos na Funai

Desde o governo Michel Temer, a bancada evangélica no Congresso tem se esforçado para ampliar sua influência na Funai.

Um pastor evangélico indicado pelo Partido Social Cristão (PSC) chegou a ocupar a presidência do órgão por quase um semestre em 2017, até ser substituido pelo general da reserva do Exército Franklinberg Freitas.

No governo Jair Bolsonaro, em meio a uma disputa entre militares e ruralistas pelo comando da fundação, que acabou vencida pelos últimos, Franklinberg foi substituído pelo ex-delegado da Polícia Federal Marcelo Augusto Xavier da Silva.

Xavier é próximo do pecuarista Luiz Antônio Nabhan Garcia, atual secretário de Política Fundiária do Ministério da Agricultura (Mapa).

O órgão, porém, segue na zona de influência evangélica — ala que, no governo Bolsonaro, tem como principal representante a ministra da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

Damares queria que a Funai ficasse em sua alçada e chegou a ser atendida por Bolsonaro, mas a medida foi revertida pelo Congresso, que devolveu o órgão ao Ministério da Justiça.

Direito de imagem Getty Images

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