Coronavírus: o que se sabe sobre o primeiro paciente diagnosticado com doença no Brasil

Teste laboratorial de coronavírus Direito de imagem EPA

Autoridades de saúde do Brasil anunciaram que um homem de 61 anos de São Paulo, que retornou de viagem à região norte da Itália, recebeu um diagnóstico de infecção pelo novo coronavírus.

De acordo com o Ministério da Saúde e as pastas da Saúde do município e do Estado de São Paulo, o hospital Albert Einstein enviou amostra para o laboratório de referência nacional, o Instituto Adolfo Lutz, que fica na mesma cidade. Ali, foi confirmado o caso, segundo informou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante entrevista coletiva no final da manhã da quarta-feira (26/02).

O paciente, cujo nome não foi divulgado, está em quarentena. Ele esteve sozinho a trabalho, de 9 a 21 de fevereiro, na região italiana da Lombardia, que vive uma explosão de casos nos últimos três dias.

O caso foi notificado pelo hospital às autoridades por volta de meio-dia de terça-feira (25). Esse paciente apresentou sintomas associados à doença — Covid-19 —, como febre, tosse seca, dor de garganta e coriza. Não está claro, porém, se ele apresentou esses sinais, considerados brandos até agora, durante a viagem à Itália ou quando já estava no Brasil.

A doença pode ser transmitida mesmo durante o período de incubação, que varia de 1 a 14 dias.

Em reação a esse caso, as autoridades passaram a tentar identificar todas as pessoas com as quais o paciente teve contato, a fim de monitorá-las.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou ter solicitado à companhia aérea a lista de todos os passageiros e tripulantes que estavam no voo no qual o paciente infectado viajou.

"Se você esteve nos países com casos confirmados e apresentar febre, tosse, dificuldade em respirar ou outros sintomas respiratórios, procure atendimento médico de imediato e informe ao profissional de saúde a viagem feita para o exterior", afirmou o órgão.

Autoridades e especialistas recomendam precauções básicas para evitar espalhar doenças: lavar as mãos constantemente e higienizá-las com álcool gel; cobrir a boca ao tossir ou espirrar; evitar contato próximo com pessoas com tosse e febre; e, para pessoas que estejam com febre, tosse e dificuldade em respirar, buscar atendimento médico e relatar seu histórico de viagens.

O que muda com a confirmação oficial do caso no Brasil?

Mesmo antes da confirmação do caso, o Brasil já havia elevado seu alerta para a doença de nível 2 (perigo iminente) para 3, no qual se declara emergência de saúde pública de importância nacional, segundo o secretário de Vigilância em Saúde do ministério, Wanderson Oliveira.

Nessa situação, disse Oliveira, há uma mobilização conjunta de governos federal, estaduais e municipais "para que o vírus não se disperse", para ampliar a conscientização da população e para adotar dispositivos normativos para "acelerar a organização dos serviços de saúde e ampliar a capacidade de atendimento da população", a depender do possível avanço da doença.

Oliveira afirmou que já "há um plano de contingência elaborado para a resposta coordenada" à doença.

Não está claro ainda se o Brasil adotará algum tipo de restrição a viagens a regiões onde o vírus tem circulado, como Coreia do Sul, Irã e Itália. A Organização Mundial da Saúde não recomenda esse tipo de medida.

Os dados mais recentes apontam que o vírus já provocou 81 mil infecções e 2.762 mortes ao redor do mundo (mais de 95% delas na China). Ao todo, 38 países e territórios já confirmaram casos da doença.

O Brasil seria o primeiro país da América Latina a ter um caso confirmado.

E a lei que o Brasil aprovou para conter o avanço do surto?

No dia 7 de fevereiro, o presidente Jair Bolsonaro sancionou uma lei elaborada pelo governo federal e aprovada pelo Congresso sobre as medidas que podem ser adotadas no país em meio ao surto.

O texto determina que, diante de uma situação de emergência, o governo poderá colocar cidadãos em isolamento ou quarentena, sob condições estabelecidas pelo Ministério da Saúde.

Também poderá realizar compulsoriamente exames e testes laboratoriais, coletar amostras para análises e aplicar vacinas e tratamentos médicos específicos.

Direito de imagem AFP
Image caption Governo diz que nova norma é necessára para dar segurança jurídica à repatrição de brasileiros e à sua quarentena no país

A lei prevê que quem descumprir as normas poderá ser responsabilizado "nos termos previstos em lei", mas ainda não existe uma previsão das possíveis punições que serão aplicadas.

O texto só vigorará enquanto durar a emergência internacional da epidemia, decretada pela Organização Mundial da Saúde no fim de janeiro.

Quão grave é o novo coronavírus?

É importante destacar que os infectologistas ouvidos pela BBC News Brasil dizem que é preciso evitar o pânico, uma vez que, embora o coronavírus seja transmitido com facilidade (em média uma pessoa infectada transmite o vírus para até três pessoas), ele não provoca um número proporcionalmente alto de mortes.

A taxa geral de mortalidade da doença é de 2,3% — mas em pessoas com mais de 80 anos chega a 14,8%, de acordo com um estudo realizado pelo Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças (CCDC).

A pesquisa do CCDC com dezenas de milhares de casos afirma que cerca de 80,9% das novas infecções por coronavírus são classificadas como leves, 13,8% como graves e apenas 4,7% como críticas, o que inclui quadro de insuficiência respiratória, falência múltipla dos órgãos e sepse.

Taxa de mortalidade por coronavírus por idade

Fonte: Centro Chinês para Controle de Doenças

Até agora, portanto, o Covid-19 não é tão mortal quando comparado a outros coronavírus previamente registrados, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers).

O risco de morte no caso da Sars, por exemplo, que eclodiu em 2003 e tinha uma taxa de mortalidade de quase 10% — foram contabilizados 8 mil casos, sendo 774 mortes. A da Mers girava em torno de 20% a 40%, dependendo do local.

Já a influenza, vírus da gripe, infecta todos os anos 26 milhões de pessoas apenas nos Estados Unidos (ou 8% da população). Desse total, aproximadamente 14 mil morrem, ou seja, a taxa de mortalidade gira em torno de 0,05%.

Estudos globais sugerem que a taxa de mortalidade por influenza no mundo (e não só nos EUA) é de apenas 0,01%.

Direito de imagem Getty Images

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